O papa S. Francisco

Ao dizer a um menino que seu cãozinho morto iria para o céu, o pontífice reabre a velha discussão sobre animais terem alma

Rick Gladstone, THE NEW YORK TIMES

13 Dezembro 2014 | 16h00


O papa Francisco deu esperanças aos gays, aos casais não casados formalmente e aos defensores da teoria do big-bang. Agora, ganhou o carinho dos amantes da raça canina, dos defensores dos direitos dos animais e dos veganos.

Tentando consolar um menino desesperado pela morte de seu cachorro, Francisco disse-lhe, numa recente aparição pública na Praça de São Pedro, que “o paraíso está aberto a todas as criaturas de Deus”.

Embora não se saiba se os comentários do papa abrandaram o sofrimento do menino, receberam os aplausos de grupos como a Humane Society e a Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais (Peta), que os interpretaram como um repúdio à teologia católica conservadora segundo a qual os animais não vão para o céu porque não têm alma.

“Minha caixa de entrada ficou lotada”, disse Christine Gutleben, da Humane Society, o maior grupo de proteção animal dos Estados Unidos. “Quase imediatamente, todo mundo começou a falar disso.”

Charles Camosy, escritor e professor de ética cristã na Fordham University, disse que é difícil saber o que Francisco quis dizer precisamente porque “falou em linguagem pastoral, que não costuma ser dissecada pelos acadêmicos”. Mas, à pergunta se os comentários provocaram um novo debate sobre a possibilidade de os animais terem alma, sofrerem e irem para o céu, Camosy respondeu: “Em uma palavra, indubitavelmente”.

Nos poucos meses em que está ocupando o cargo de líder do 1 bilhão de católicos do mundo, desde que sucedeu a Bento XVI, Francisco, de 77 anos, tem causado repetidamente agitação entre os conservadores da Igreja. Ele sugeriu posições mais flexíveis que as de seu predecessor em questões como homossexualidade, mães solteiras, casais não casados e evolução.

Até certo ponto, não surpreendeu que Francisco, um jesuíta argentino que tomou o nome de São Francisco de Assis, o patrono dos animais, tenha sugerido a uma criança triste que seu bichinho tivesse um lugar reservado depois da morte.

Referindo-se a trechos bíblicos que afirmam que os animais não só vão para o céu, como lá passam a conviver sem problemas, Francisco teria dito, segundo a imprensa italiana: “Um dia, veremos de novo nossos animais na eternidade de Cristo. O paraíso está aberto a todas as criaturas de Deus”.

Os teólogos advertiram que Francisco falou em tom casual, não fez uma afirmação doutrinária.

O reverendo James Martin, sacerdote jesuíta editor da revista católica America, disse acreditar que Francisco estivesse pelo menos afirmando que “Deus ama e Cristo redime todas as criaturas”, embora os teólogos conservadores afirmem que o paraíso não é para animais.

“Ele disse que o paraíso está aberto para todas as criaturas”, disse Martin. “Para mim, isso é muito claro.”

A possibilidade de os animais irem para o céu foi debatida com emoção durante grande parte da história da Igreja. O papa Pio IX, que liderou a Igreja de 1846 a 1878, mais do que qualquer outro pontífice defendia energicamente a doutrina segundo a qual os cachorros e outros animais não têm consciência. Ele tentou até impedir a fundação de um ramo italiano da Sociedade de Prevenção da Crueldade contra os Animais. 

O papa João Paulo II aparentemente contradisse Pio IX em 1990 quando proclamou que os animais têm alma e estão “tão perto de Deus quanto os homens”. Mas o Vaticano não deu muita publicidade a essa afirmação, talvez por ela contestar diretamente Pio IX, o primeiro a declarar a doutrina da infalibilidade do papa, em 1854.

Bento, o sucessor de João Paulo, rejeitou enfaticamente a visão deste num sermão de 2008 no qual afirmou que, quando um animal morre, “isto significa simplesmente o fim de sua existência na terra".

Segundo Gutleben, da Humane Society, a aparente negação da visão de Bento poderia ter enormes consequências. “Se o papa quis dizer que todos os animais vão para o céu, a implicação é que os animais têm alma”, ela disse. “E, se isso é verdade, devemos considerar seriamente de que maneira tratá-los. Teremos de admitir que são seres sensíveis que significam alguma coisa para Deus.”

Sarah Withrow King, da assistência religiosa e envolvimento da Peta, um dos grupos que combate mais ativamente os abatedouros, disse que os comentários do papa justificam o quadro do céu descrito pela Bíblia como um ambiente de paz e amor e poderão influenciar os hábitos em matéria de alimentação, fazendo com que os católicos deixem de consumir carne - o que, segundo ela, já está acontecendo. “É um mundo vegano, da vida após a morte e da paz entre as espécies”, afirmou. “Não sou uma historiadora católica, mas o lema da Peta é que os animais não nos pertencem, e os cristãos concordam. Os animais não são nossos, são de Deus.”

É no mínimo incerto se as palavras do papa passarão a constituir uma nova razão para não comermos mais carne, um quadro preocupante para as indústrias da carne bovina, suína, avícola e da pesca. Mas é certo que provocaram discussões.

“Como outras coisas que o papa Francisco disse, seus recentes comentários sobre o fato de os animais irem para o céu foram mal interpretados”, disse num e-mail Dave Warner, porta-voz do National Pork Producers Council. “Com certeza não significaram que matar e comer animais seja pecado.”

Warner citou trechos do Gênesis em que se afirma que o homem recebeu de Deus o “domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todas as criaturas vivas que se movem na terra”.

“Embora ‘domínio’ signifique uso para benefício do homem, também prevê proteção - cuidados humanitários e alimentação - algo que todos os que vivem da terra e criam animais praticam diariamente ano após ano”, disse Warner.

Martin não acredita que as observações do papa possam ser entendidas como comentários a respeito do vegetarianismo. “Mas ele nos lembra que toda a criação é sagrada e, na sua opinião, o paraíso está aberto a todas as criaturas. Francamente, concordo com ele.”

Laura Hobgood-Oster, professora de religião e estudos ambientais na Southwestern University de Georgetown, Texas, e especialista em história da interação cão-homem, acredita que haverá uma reação dos conservadores religiosos, mas isso levará tempo.

“Historicamente, a Igreja Católica nunca foi clara a respeito dessa questão; é algo muito difundido e pede muitas outras indagações”, disse ela. “Para onde irão os pernilongos, pelo amor de Deus?” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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