O pedido

Yamauchi recebeu de Makoto, pai de Mércia, um apelo. E não sossegou enquanto não atendeu

Flávia Tavares

19 de junho de 2010 | 16h00

Ambiguidade. Yamauchi na Represa de Nazaré Paulista : ‘Fiz uma coisa que aliviou a família, mas ao mesmo tempo matou a esperança deles de encontrar ela viva. E eles tinham esperança’

 

 

Yamauchi ouviu com reverência.

 

- Yoroshiku onegaishimasu.

 

Ele sabia que uma súplica tão solene, tão polida, só poderia vir de alguém que conhece muito bem a língua, alguém que talvez já tivesse morado no Japão. O tom doído era o de um pai aflito, ainda esperançoso de encontrar a filha viva, bem. Mas era também o de alguém que queria encontrar um fim digno para semanas de especulações e dúvidas.

 

Roberto Yamauchi ouviu o pedido de Makoto Nakashima à beira da represa onde vive e trabalha desde janeiro, em Nazaré Paulista (SP). No dia anterior ele já havia ajudado nas buscas pelo carro da filha de Makoto, Mércia, a advogada que estava desaparecida havia 18 dias, desde 23 de maio.

 

Foi mais por curiosidade que por solidariedade que Yamauchi se envolveu no caso. Vigiava o filho caçula, Rafael, enquanto a mulher estava na manicure. Viu a multidão, os helicópteros, os carros de reportagem na margem oposta da Represa Atibainha e foi saber do que se tratava. Ouviu do próprio Makoto a resposta: "Estamos procurando o carro da Mércia, de Guarulhos". Estranhou que um caso de tanta repercussão estivesse desaguando ali, no pacato dique onde casais namoram, vizinhos pescam tucunarés e tilápias e a família Yamauchi guarda barcos e cuida de sua manutenção.

 

Ofereceu aos bombeiros um barco com GPS, capaz de medir as diferenças de profundidade da água e de localizar o veículo. Não quiseram. Encontraram o Honda Fit da advogada e pediram a Yamauchi cabos de aço para rebocar o carro. O guincho da polícia não foi forte o suficiente e Yamauchi cedeu também o trator que usa para levar os barcos da marina até a água verde-escura da represa. A máquina potente trouxe à tona o carro e mais expectativas para Makoto. O corpo da filha não estava ali.

 

Yamauchi ouviu com reverência.

 

- Yoroshiku onegaishimasu.

 

Makoto pediu no mais distinto "Por favor" que há. Rogava para que Yamauchi, conhecedor da região, continuasse a colaborar com as buscas por sua caçula. A curiosidade, a essa altura, já era compaixão. Dias antes, pescando com sua mulher, o guardador de barcos tinha visto uns sacos plásticos boiando em outro canto da represa. Teve um pensamento horrível: "E se o assassino esquartejou a garota?"

 

Já era noite e não seria seguro voltar ao local de barco. Com um amigo da família Nakashima, foi de carro, mas a escuridão impediu a verificação. Quando Yamauchi voltou à margem onde o trabalho da polícia era feito não viu mais a multidão, os helicópteros, os carros de reportagem. Tinham todos debandado para oito quilômetros dali: um corpo havia sido encontrado. Não era Mércia. Era uma garota de 15 anos, carbonizada. A tranquila represa era palco de mais um crime, mas esse não interessou à mídia.

 

Yamauchi foi dormir com a frase de Makoto na cabeça. Decidiu ir cedinho ao local dos sacos plásticos, de barco, sozinho. Não completamente só, porque Sushi, o cão mestiço de labrador com fila, voluntariou-se como companhia. Os sacos ainda estavam lá e o novo investigador os abriu com cuidado. Eram restos de animais. Não era Mércia.

 

O encontro. O homem de 47 anos não é de deixar alguém em desespero sem amparo. Quando morou no Japão, entre 1991 e 2007, vivia disso: prestava assistência aos recém-chegados dekasseguis. "Eu era tradutor e intérprete, levava o pessoal para fazer visto, documentação, levava ao médico e para fazer entrevista em fábrica nova", lembra. Até em camburão Yamauchi andou para ajudar brasileiros pegos dirigindo sem carteira, alcoolizados. "O pessoal sabia que eu falo japonês fluentemente. Só não sei ler e escrever, porque aí precisa ser desenhista."

 

A represa tem cerca de 25 km2 de espelho d’água. Mas Yamauchi imaginou que o corpo de Mércia não estaria longe de onde seu carro foi achado. Ele veio ladeando a margem. Não eram 9 horas do dia 11, sexta-feira, os helicópteros ainda não tinham chegado, a água estava calma. Ele avistou as cadeirinhas usadas por pescadores no meio dos arbustos e ponderou que, como está frio e o movimento anda fraco, devia ser por isso que ninguém tinha encontrado a garota ainda.

 

Na margem oposta à de onde estavam bombeiros e policiais, Yamauchi viu as pernas em V, os braços estendidos e abertos, a blusa roxa, o corpo inchado de bruços, encoberto por galhos e folhagens. O grito de Yamauchi ouviu-se de sua casa, a 150 metros dali. Era susto, era choque, era para chamar por ajuda. "Foi assustador", conta Hilda, sua irmã, que escutou, da casa, o chamado.

 

Ele voltou à margem sem tocar em Mércia para contar o que tinha visto a Makoto. Yamauchi não fala mais do que precisa. Deu seus pêsames, ajudou o pai da advogada a subir no barco, levou-o até o sepulcro provisório. Em silêncio. Não trocaram mais palavra naquele dia.

 

"Fiz uma coisa que foi um alívio para eles, mas que ao mesmo tempo matou a esperança de encontrar ela viva." O papel de herói-vilão incomoda, mas a família Nakashima parece ter mais em conta a grandeza de Yamauchi. Nos dias seguintes, Makoto e Márcio, irmão de Mércia, ligaram para agradecer, para saber como ele estava. Márcio ainda buscou e levou o guardador de barcos para casa na segunda-feira, quando ele foi depor.

 

"Yamauchi é um grande homem, um exemplo", diz Márcio. "Ele nem nos conhecia, mas viu meu pai sozinho, aflito, e foi oferecer ajuda." O forte laço entre as famílias nasceu de um pedido encarecido em japonês. Mas eles não creditam a nova relação à identidade oriental. Por um lado, Yamauchi diz que ajudaria quem quer que suplicasse por auxílio. Por outro, Márcio conta que o pai abordou a todos que pôde na procura por sua Mércia. "Vamos manter contato. Roberto e sua família serão nossos amigos para sempre", diz o irmão, com voz miúda.

 

O próximo capítulo. Era sábado, os curiosos já haviam perdido o interesse, só restavam os poucos moradores daquela margem e alguns jornalistas. Yamauchi ainda circulava por ali com sua lanchinha, em busca de mais respostas para o crime, de alguma pista. Seu faro estava realmente apurado. Ele encontrou no fundo da represa a agenda e uma pasta de documentos de Mércia. Quando ia alcançar os papéis, ouviu de um repórter de um programa sensacionalista de TV a orientação de não tocá-los, ele poderia arruinar provas. Obediente, voltou para casa para avisar Makoto de seu novo achado.

 

No domingo à noite, viu o mesmo repórter na televisão folheando a papelada e se gabando da descoberta que não foi sua. "Dá raiva do que eles fazem", diz, serenamente. "Eles misturam tudo, até falaram que eu sou pescador. Se eu pescar para viver, morro de fome." A mulher de Yamauchi, Cláudia, também anda nervosa - tem pavor de que os assassinos confundam seu marido com o comerciante que é testemunha ocular do crime e procurem vingança.

 

Justo ele, cidadão manso de Júlio Mesquita, a 430 km de São Paulo, terceiro de oito irmãos, sempre morando em cidades pequenas, mesmo no Japão. O pai japonês e a mãe filha de japoneses criaram sua prole para a paz, enquanto cuidavam da roça de café. Hilda, irmã mais velha de Yamauchi, deu abrigo a ele, sua mulher e seus três filhos em Nazaré Paulista quando ele ficou desempregado, no começo do ano. Ali, moram também os pais de Yamauchi, o marido de Hilda, Armando, e o filho do casal, Fábio.

 

Armando está na Atibainha desde 1982. Nunca tomou conhecimento de histórias de crime por aquelas bandas, embora reconheça que o cenário seja um convite a mistérios. "O que tem muito aqui é namorado. O pessoal fala que, se você cair ali de onde o carro foi empurrado, engravida", encabula-se. O veterano da região não se conforma que a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), dona dos terrenos em torno da represa, não coloque portões e controle na área. "Só mesmo um profundo conhecedor do local chegaria aqui à noite. No escuro, sem conhecer, a pessoa não acha aquela entrada, não."

 

As pistas. Alvoroçado, o sargento Marcos César Ribeiro, policial reformado, discordava dessa história de não haver crimes por ali. Já teria encontrado gente baleada e decapitada nas cercanias. Revelou para Yamauchi que tinha amealhado informações "comprometedoras para o criminoso". "O André, do Matadouro, abateu um animal para o criminoso, logo após o desaparecimento da jovem. Ele emitiu um cheque pré-datado, que está em poder do Jamil, negociante de gado. Ele frequenta muito o matadouro, conhece bem a região." Sargento Marcos falava de Mizael Bispo de Souza, ex-namorado de Mércia e principal suspeito do assassinato.

 

Yamauchi deu atenção ao relato acrescentando: "Não sei se o cara fumava, mas vi umas bitucas de cigarros que o pessoal daqui não fuma. Uns cigarros importados, diferentes". Estava só papeando. Não quer mais fuçar, investigar. Quer voltar a rebocar barcos com seu trator para a água verde-escura, E quer voltar a tentar pescar tucunarés, sem sucesso. "Ajudei a dar um funeral decente a ela", consola-se. "Só espero que, onde quer que ela esteja, seja um lugar bem melhor do que aqui, né?", roga em sua oração budista.

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