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O perigo de evocar a traição em vão

Obama não enganou ninguém; só admitiu que política é mais complicada e tem mais nuances do que se imagina

Martin Kettle, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2009 | 02h03

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Barack Obama não deveria ter recebido o Prêmio Nobel da Paz. A premiação foi muito prematura, baseada na esperança e à mercê da sorte. Ela revelou tanto sobre o comitê que a concedeu quanto sobre o homem que a recebeu em Oslo.

Mas Obama pelo menos deu ao comitê a resposta que seus membros mereciam quando afirmou que estava no início e não no fim do seu trabalho. Em comparação com alguns outros premiados anteriormente, disse ele, "minhas realizações são insignificantes". Outros "são muito mais merecedores dessa honra". E, como Obama é também o comandante em chefe de uma nação envolvida em duas guerras, fato que ele próprio reconheceu, o que disse foi correto.

No discurso de Obama, contudo, havia uma reprimenda mais grave - e não apenas ao comitê. Do começo ao fim do discurso ele insistiu em que a política é sempre algo mais complicado, mais sinuoso e confuso do que os liberais idealistas acreditam. Raramente o discurso de um agraciado com o prêmio da paz conteve uma tão sutil e séria defesa da necessidade da guerra como o de Obama. Foi o discurso de um líder político experiente e pragmático tratando em público do que admitiu serem questões imensamente difíceis.

Quando anunciou o prêmio, o comitê do Nobel não sabia que o presidente iria a Oslo no mesmo mês em que autorizou o envio de mais 30 mil soldados americanos ao Afeganistão para participar de um conflito que se arrasta há oito anos e cujo número de vítimas em 2009 ultrapassou, até agora, o de 2008. E, de fato, nunca a tensão entre o que os liberais gostariam de ver em Obama e as ações adotadas por ele foi tão aguda como agora.

Para alguns, ela atingiu o ponto de ruptura. "Não achava que ele me decepcionaria tão cedo", lamentou recentemente o historiador Garry Wills, um colega de Chicago que há 18 meses escreveu um artigo comparando o discurso de Obama na Filadélfia, durante sua campanha aos discursos de campanha de Abraham Lincoln. Embora outros já tivessem desistido, Wills "ainda tinha esperanças". Mas então veio o anúncio do presidente sobre o Afeganistão. "Depois desta traição, Obama não terá mais um centavo meu, nenhuma palavra de elogio", anunciou Garry Wills.

Traição? Não pelo meu critério. Um erro? Talvez. O dilema do Afeganistão é profundo. A trajetória escolhida por Obama poderá ser desastrosa ou genial, ou, o que é mais provável, alguma coisa intermediária. Mas isso não significa traição. Tenho grande admiração pelo professor Garry Wills. Para mim ele é, ao lado de Hugo Young, um dos grandes exemplos de comentaristas da minha era. Mas traição? Se o comitê do Nobel foi ingenuamente prematuro em elevar Obama ao panteão, Garry Wills com certeza está sendo ingenuamente prematuro em bani-lo dali.

A traição sempre proporcionou aos liberais uma zona de tranquilidade a partir da qual eles podem observar temas difíceis da política moderna. Mas essa possibilidade está se tornando redundante, intensificada pela blogosfera. E não só no caso de Obama. Alguns dias depois do libelo de Wills, chamou-me a atenção um ataque angustiado da analista de temas religiosos do Times londrino, Ruth Gledhil, contra Rowan Williams porque, na sua opinião, ele havia vendido os direitos de gays e mulheres na Igreja Anglicana. Os sonhos dos liberais que acreditavam em Williams como o homem que poderia conduzir a igreja para o mundo moderno "praticamente morreram", ela escreveu.

O falecido Henry Drucker salientou há muito tempo que a esquerda britânica adora chafurdar no banho morno da traição. Desde 1997, um leitmotiv entre os liberais britânicos tem sido o sentimento de frustração, desilusão e traição com relação aos governos de Tony Blair e Gordon Brown. Seja o Iraque ou a justiça social, as mudanças climáticas ou as liberdades civis, a posição liberal padrão é de que o Partido Trabalhista nos decepcionou, não fez muito e aos poucos provou, juntamente com o restante da classe política, ser incompetente, desprezível e corrupto. Criminoso também, no caso de Blair.

Este mês, dois novos patíbulos foram erigidos nos quais os políticos novamente serão condenados à forca pela opinião liberal. Seja qual for seu resultado, a conferência sobre a mudança climática em Copenhague com certeza será estigmatizada como uma traição do planeta, enquanto em Londres a investigação Chilcott sobre o a guerra no Iraque já está sendo condenada como falcatrua.

Minha polêmica com outros liberais não depende da opinião de que Obama agiu certo ao aumentar o número de soldados no Afeganistão, ou que Rowan Williams é sensato quando tenta manter a igreja unida, ou que o governo de Tony Blair foi bom, os acordos limitados obtidos em Copenhague são melhores que nada ou a investigação sobre a guerra do Iraque está sendo muito útil, apesar de alguns se recusarem a depor - embora eu acredite em tudo isso.

Minha disputa é que os grandes problemas do mundo são inerentemente complexos e difíceis, as soluções são inevitavelmente imperfeitas e os liberais que querem ser levados a sério não devem se afastar do processo para encontrá-las. A política é a maneira menos ruim de se tentar tomar decisões sobre necessidades humanas conflituosas. A política não produz acordos necessariamente. Mas pode produzir tratados e compromissos.

Os políticos não são nem ruins nem estúpidos. Eles estão lutando com dificuldades. O que não significa que todos os compromissos sejam tão bons uns como os outros, ou que uma solução imperfeita é a melhor que pode ser alcançada. É tão importante evitar o pragmatismo panglossiano quanto abandonar certas ideias políticas que se tornaram um hábito - caso da supremacia da eficiência econômica, por exemplo -, que podem ter funcionado outrora, mas não se aplicam em novas circunstâncias. Não defendo extravagâncias em momentos de dificuldade, mas os liberais precisam aprender que, em política, mãos sujas são melhores do que as limpas.

Aceito um mundo em que Tiger Woods tem falhas, não é perfeito. Sinto a mesma coisa, com alguma intranquilidade, com relação à frágil política externa de Obama, a condução dos conservadores por Williams, os esforços de Blair para mover o Partido Trabalhista além da sua base eleitoral - e até o conservadorismo irregular de David Cameron. A direita sempre entendeu que a política nunca consegue realizar coisa alguma. A esquerda está resvalando hoje numa heresia de classe média equivalente.

Obama estava certo quando disse em Oslo que: "Podemos entender que haverá uma guerra e ainda assim lutar pela paz". Ele ainda não me decepcionou. Mas o único Messias é o de Haendel.

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