O peso de ser 'The One'

McCain pode até fazer governo melhor que o de Bush. Mas de Obama o que se exige é performance assombrosa

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2008 | 22h05

Não sei quantos brasileiros sonham com Barack Obama no Salão Oval da Casa Branca, mas já são muitos os que se preocupam com uma eventual decepção. Eleitoral (e se ele não se eleger?) e administrativa (e se ele não fizer um bom governo?). Nenhuma das hipóteses deve ser descartada. A essa altura da corrida eleitoral, a primeira ainda me parece improvável; a segunda, não. Se até John McCain pode fazer um governo melhor que o de Bush, de Obama exige-se muito mais. De Obama espera-se uma performance assombrosa, à altura de Roosevelt (Franklin Delano, não Theodore), para o bem da América e do mundo. Eis o busílis: Obama pode não ser ou não ter força suficiente para confirmar as suspeitas de que o primeiro negro a chegar à presidência dos EUA is The One, o eleito, como Neo, o personagem de Keanu Reeves em Matrix, aquele que tem a resposta para todos os problemas do mundo, o Salvador, o Redentor, o Atlas redivivo, a carregar o planeta nas costas. Se ele nos frustrar, babau. E ele pode nos frustrar. "Obama será o presidente da über-potência mundial", salientou recentemente Josef Joffe, editor do semanário Die Zeit, de Hamburgo. "Deverá ser mais multilateralista que Bush, falará mais manso, mas ainda levará um porrete na mão." De onde Joffe tirou pressentimento tão pessimista? Do livro de Obama A Audácia da Esperança, em que garimpou frases que poderiam ter saído da boca de Bush. Uma: "Nós (os norte-americanos) temos o direito de praticar uma ação unilateral que vise a eliminar uma ameaça iminente à nossa segurança." Outra: "Determinadas vezes seremos obrigados a reassumir o relutante papel de xerife do mundo. Isso não vai mudar - nem deveria." Não obstante, juntando nesse caveat o Congresso (a quem o presidente deve prestar contas, e que é um dos piores e mais desacreditados da história política dos EUA) e a hiperconservadora Suprema Corte (a cujas decisões o presidente deve se curvar), Obama faz jus às esperanças que milhões de pessoas nele depositam. Não é The One, não é Atlas, mas um candidato só inferior a McCain em idade; e o que de mais ajuizado temos a fazer é seguir-lhe os passos sem a messiânica devoção dos obamanautas. Nenhuma pessoa imaculadamente do bem chega à presidência dos EUA, lembrou há dias a colunista Anne Applebaum, do Washington Post. A própria disputa pelo cargo impõe aos concorrentes uma têmpera megalômana e egocêntrica, e a tomada de posições e atitudes mais pragmáticas do que idealistas, por vezes contraditórias e até maquiavélicas. Obama sofre mais para superar esses desafios porque a imagem que dele se plasmou é a de um tribuno puro, franco, sereno, que não acredita que o fim (a vitória em novembro) justifique os meios. Não preservá-la seria um suicídio político, sobretudo porque os norte-americanos costumam orientar suas escolhas mais pelo carisma dos candidatos do que por seus programas de governo. A obamania ultrapassou todas as fronteiras, o que só aumenta a dívida de Obama com o resto do mundo. Sim, ele pode (e deve) pôr um fim ao unilateralismo bushista, engavetar a estrela de xerife, e isso é o mínimo que se espera de um candidato sui generis, singular, inclusive, entre seus pares partidários. Obama não é Neon, mas lhe cai bem o qualificativo "digital" que o comentarista do New York Times Frank Rich lhe pespegou, para contrastá-lo, maldosamente, com o "analógico" McCain. Rich acredita que McCain ainda faça contas com a ajuda de um ábaco. Suas idéias econômicas, que nem são dele, mas do senador texano Phil Gramm e Carly Fiorina (demitida por incompetência da Hewlett-Packard), não desautorizam essa suspeita. Se os europeus votassem nas eleições norte-americanas, Obama venceria com 53% dos votos dos ingleses, 85% dos franceses e 67% dos alemães. Tais números, somados a outros e à espantosa quantidade de composições musicais dedicadas ao candidato democrata em quase todos os continentes (Mark Schone as repertoriou, com áudio e tudo, na revista eletrônica Salon, "Songs for Obama", 28/7/2008), só não impressionam positivamente os eleitores mais provincianos, onipotentes e xenófobos dos EUA. É sobretudo esse eleitorado de estreitos horizontes, alheio à urgência de uma renovada (e benfazeja) imagem da América no exterior, que a campanha de McCain vem tentando galvanizar com uma série de artimanhas e anúncios cuja mesquinharia desagradou até a alguns antigos correligionários do candidato republicano, entre os quais John Weaver, seu ex-conselheiro eleitoral, que as tachou de "pueris". Weaver referia-se, especificamente, às idas de McCain a cidades norte-americanas homônimas das capitais européias então visitadas por Obama, a mais jeca picuinha dos últimos tempos, e, com maior desalento, à propaganda do republicano em que imagens do candidato democrata falando para 200 mil pessoas em Berlim (a alemã, não a de Wisconsin) foram justapostas às de Britney Spears e Paris Hilton, com o objetivo de transformar em defeito dois inegáveis atributos de Obama, sua capacidade de atrair multidões e seu prestígio no exterior. Uma voz feminina reconhecia, em off, que Obama é uma "celebridade", mas levantava dúvidas sobre sua capacidade para liderar o país. "John McCain não parece ter nada a dizer de positivo sobre si próprio; só vive falando em mim", reagiu de pronto o atingido pelalitzkrieg negativista. Ao contrário do que prometera no início da campanha, McCain resolveu apelar, jogar sujo, confundir o eleitorado (acusou, injustamente, o adversário de fazer chantagem emocional com o racismo), até mentiras inventou (Obama não deu as costas aos soldados norte-americanos feridos em Bagdá). "É muito cedo para McCain fazer uma campanha tão feia e desesperada contra Obama", advertiu na sexta-feira o comentarista do Washington Post Eugene Robinson. Desesperada, sem dúvida. E com um único propósito: paralisar o oba-oba Obama. A concordância do primeiro-ministro iraquiano e vários oficiais norte-americanos com as observações de Obama sobre a presença dos EUA no Afeganistão e no Iraque abalou os alicerces da campanha do senador republicano. Para os democratas, o apelo ao sarrafo pelos marqueteiros de McCain, a quatro meses da eleição, tem lá sua utilidade. Dá tempo aos democratas de traçar uma estratégia eficaz contra a recalcitrante vocação dos republicanos para pautar suas campanhas presidenciais pelo mesmo código moral de um truculento time de futebol americano. A nova campanha de McCain tem o dedo da tenebrosa dupla Rick Davis-Steve Schmidt, discípula de Karl Rove durante a campanha que levou Bush à vitória em 2004. Foi Davis quem primeiro comparou Obama ao personagem de Keanu Reeves em Matrix. Pejorativamente, é claro. TERÇA, 29 DE JULHONova cara aos EUAApós viagem à Ásia, Oriente Médio e Europa, o democrata Barack Obama disse em entrevista ao jornal Chicago Tribune que, se eleito presidente, poderá mudar a imagem dos EUA. Porém, admitiu que talvez não tenha apoio imediato de França e Alemanha.

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