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O pio da rola

Do debate entre Boechat e Malafaia, tão qualificado quanto uma briga de rua, só se salvam os memes

Sírio Possenti, O Estado de S. Paulo

27 Junho 2015 | 16h00

Um dos acontecimentos do final de semana passado, que “bombou” na internet, foi um bate-boca entre Malafaia, conhecido pastor, e Boechat, âncora do Jornal da Band, que também fala na CBN.

Nas narrativas jornalísticas, o fato é descrito como se começasse com um desafio de Malafaia a Boechat para um debate cara a cara. Mas logo fica claro que Malafaia está reagindo (“Avise ao Boechat que ele está falando asneira...”). Boechat comentara a agressão a uma menina que voltava de um culto ligado ao candomblé, religião às vezes caracterizada como bruxaria por algumas confissões cristãs. O âncora explicitou essa relação, o que levou Malafaia a responder.

O bate-boca se desenvolveu em estilo pesado. Malafaia usou termos como “idiota”, “falastrão” e “asneira”, e afirmou que Boechat fala o que fala porque está sozinho (falar asneira no programa de rádio sozinho é mole), sem ser confrontado. São palavras bem duras. A resposta de Boechat subiu o tom ainda mais, como se nota nas seguintes passagens: 

“Malafaia, vai procurar uma rola, vai. Não me encha o saco. Você é um idiota, um paspalhão, um pilantra, tomador de grana de fiel, explorador da fé alheia e agora vai querer me processar. (…) Você é homofóbico, você é uma figura execrável, horrorosa, e que toma dinheiro das pessoas a partir da fé (…). Tenho medo de você, não, seu otário. Vai procurar uma rola, repetindo, em português bem claro”.

O texto tem a clareza das brigas de rua. As agressões morais são diretas (pilantra, tomador de grana de fiel, homofóbico, figura execrável), e culminam com a sugestão “vai procurar uma rola”, uma insinuação de que a cura para os “problemas” de Malafaia está no departamento da sexualidade, mais exatamente, em assumir uma opção sexual condenada por ele e pelos religiosos em geral (no Brasil, mais claramente pelos cristãos, um pouco mais estridentemente pelos evangélicos). “Vai procurar uma rola” pode ser parafraseado assim: “em vez de me encher o saco, resolva seu problema procurando uma rola”, isto é, dê um jeito de arranjar uma penetração.

Há duas repetições na fala de Boechat: uma diz respeito à tomada de dinheiro dos fiéis; a outra é a que manda procurar uma rola (esta abre e fecha o texto).

Não é casual que sejam esses os temas enfatizados. Ambos fazem parte de discursos correntes. O primeiro retoma uma memória sobre a relação de certos pastores com dinheiro (há notícias bem escandalosas).

O segundo é uma versão vulgarizada do discurso psicanalítico sobre efeitos da repressão sexual. Creio que deve ser interpretada mais como ofensa (para os padrões vigentes), isto é, o sentido “literal” do enunciado não está em questão, embora, evidentemente, ele não deixe de estar na sombra.

(O fenômeno, aliás, é comum. Ameaçar alguém com “se fizer isso, vou te f****” pode ser tudo, menos uma ameaça de estupro; e “filho da p***” não tem mais nada a ver com a mãe do interlocutor. São casos em que a memória discursiva original desapareceu: sobra a ofensa, com resquício eventual do conteúdo antigo. Claro, resta o problema de por que as ofensas são essas, ou porque essas falas são ofensivas).

Fenômeno curioso são os memes, que nascem em torno desse tipo de acontecimento e circulam como os comentários na internet. Há diversos tipos. Mas de longe o mais comum é composto por imagens reinterpretadas, tiradas de um contexto e colocadas em outro. O efeito típico é de humor, muitas vezes inocente, que vale mesmo pela “sacada”. 

No caso em questão, os memes jogaram com a palavra “rola”. Alguns são mais inocentes, mas outros, embora também “engraçados”, aludem à sexualidade, em versão que o senso comum “rebaixa”, a sugerida por Boechat a Malafaia.

Funcionam levando em conta que “rola” é um dos nomes populares do pênis, em sua função sexual (ninguém urina pela rola). Em um deles, Lula está numa tribuna, com as mãos bem abertas, talvez a um metro uma da outra. A legenda evoca o tema “tamanho do órgão”: “Lula, em complemento à sugestão de Boechat, sugere o tamanho da rola”. 

Todos os memes são engraçados, e cada tipo evoca outros discursos, inocentes ou não (no sentido de Freud). O citado acima rememora um discurso que avalia o tamanho do pênis como critério para que a penetração produza o efeito que deve produzir: sendo punição ou remédio, que a dose seja significativa, que resolva o problema de vez.

O bate-boca Boechat-Malafaia, e as reações estridentes em torno dele, comemorando a vingança, é significativo por duas razões: uma diz respeito ao nível dos debates a que assistimos nos últimos tempos, se é que ainda podem ser qualificados de debate. A informalidade, a grosseria e a agressividade são frequentes. É um dos indícios de intolerância, que claramente aumenta.

Outra razão é a facilidade com que se descamba para domínios que até há pouco eram privados, como o da sexualidade. Seja pelas mudanças dos costumes, seja pela explicitude com que se trata deles nas mais diversas mídias, seja pelo contínuo desprestígio das antigamente chamadas boas maneiras, a grossura grassa sem controle. As redes sociais são o lugar privilegiado de circulação, fora dos estádios e dos botecos.

Mas não se trata apenas de maior informalidade ou liberalidade. Trata-se de grossura e de agressividade. Que o bate-boca tenha se dado entre um prestigiado âncora (formador de opinião?) e um religioso muito influente não deixa de ser um sintoma preocupante.

O alto nível, seja o que for, parece estar dando adeus.

SÍRIO POSSENTI É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LINGUÍSTICA/ INSTITUTO DE ESTUDOS DA LINGUAGEM DA UNICAMP E AUTOR DE QUESTÕES PARA ANALISTAS DO DISCURSO (PARÁBOLA)

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