O PMBD e suas questões de honra

Não é de hoje que peemedebistas falam do balcão de negócios e das traficâncias do partido que ocupa o centro do poder

Renato Lessa*, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2009 | 02h50

Corria o verão português de 2004, verão no qual morreu o genial Carlos Paredes, e o então ministro da Educação da República Federativa do Brasil, Tarso Genro, fez uma visita a Lisboa. Sua agenda incluiu um encontro, organizado pela embaixada brasileira, com gente de relevo da esquerda e da vida intelectual portuguesa, para explicar o que se passava no Brasil, sob o governo Lula, ainda em fase larvar e pré-mensalão. Sob a hospitalidade do então embaixador brasileiro, o ex-deputado e ex-presidente da República Paes de Andrade (que assumiu interinamente na condição de presidente da Câmara, em 1989), lá estavam representantes do Bloco de Esquerda (Ana Drago), do Partido Comunista Português (António Felipe), do Partido Socialista (Mário Soares) e da Confederação Geral dos Trabalhadores de Portugal/CGTP (Carvalho da Silva). A representação dos intelectuais primou mais pela qualidade do que pela quantidade. Limitou-se ao cientista social Manuel Villaverde Cabral, um dos principais intelectuais portugueses e grande conhecedor do Brasil, que, como dizem seus compatriotas, "de borla" levou um seu amigo que, testemunha do fato, agora o rememora neste artigo.O ministro brasileiro, na confortável residência diplomática do Restelo, em certo ponto de sua explanação definiu o que para si resumia o caráter do governo brasileiro: um governo que, embora dirigido por um partido de esquerda e um presidente idem, não poderia ser tomado como um "governo de esquerda", dada a ampla coalizão que o sustentava, a incluir agremiações de centro, de direita e de lugar algum, pensei eu. Para tornar mais clara sua avaliação do paradoxo existencial, Tarso Genro mencionou o caso do PMBD, segundo ele, um partido não de esquerda, mas dirigido por um presidente de honra - o próprio embaixador presente à tertúlia -, ele sim, "um homem de esquerda". O embaixador, até então silente durante a explanação e como que tomado por um desejo forte de esclarecimento, interrompeu e acrescentou: "Sou o presidente de honra de um partido que perdeu toda a honra".O efeito sobre os interlocutores portugueses - e, devo dizer, sobre mim mesmo - foi devastador. Até então, a conversa já possuía dose considerável de complexidade. Afinal, explicar a dialética que configura um governo que não é de esquerda, mas possui um presidente de esquerda e é identificado a um partido de idêntica extração, não é tarefa simples. Pior ainda foi transmitir a mensagem de que estava em curso um processo de transformação social, de corte progressista e democrático, sob a égide da ortodoxia palocciana. Mas a complexidade envolvida até o momento esfumou-se diante da declaração do embaixador. Para os interlocutores portugueses, além de desprovida de sentido intrínseco, a proposição afetou de modo fatal a suposição de que estavam sob a hospitalidade de gente séria.(É curioso e lamentável o destino dado à embaixada brasileira em Lisboa. Para ali tem sido enviada uma legião de hemiglotas e amigos dos governos da ocasião, sem nenhum traquejo diplomático, todos agraciados com o posto por motivos de natureza partidária. A recíproca, por sinal, não é verdadeira. Para a diplomacia portuguesa, o posto em Brasília é de relevância comparável a postos como Londres, Paris, Madri ou Washington. A qualidade intelectual e profissional dos representantes enviados ao Brasil por Portugal atesta tal centralidade.)Mas o que importa é que o deputado Paes de Andrade produziu, em 2004, um desabafo cujo sentido preciso volta a emergir nas explosivas declarações dadas à revista Veja pelo senador Jarbas Vasconcelos, como ele um dos fundadores do partido e integrante de seu grupo "autêntico". É importante reter o conjunto de teses posto pelo senador. Sua premissa maior é da mediocrização generalizada do quadro político brasileiro: "A classe política hoje é totalmente medíocre". No que diz respeito ao partido, seguem juízos mais específicos. O partido reduz-se a uma "confederação de líderes regionais" e seu componente coronelístico está presente em "90%" de sua estrutura e abrangência. Trata-se, ainda, de um partido voltado para os negócios, pragmaticamente conduzido por uma estratégia precisa: "usufruir do governo (federal) sem ganhar eleições".Difícil - aliás, muito difícil - discordar da avaliação do senador sobre seu partido. Afinal, que sentido maior pode ser retirado da observação do que fazem, e vêm fazendo há muito, personagens como Renan Calheiros, Romero Jucá, Eduardo Cunha, a não ser o fato de que exercem uma política de ocupação física e material de postos estratégicos no mundo dos negócios da política? Alguém conhece uma causa ou princípio imaterial que possam estar associados a suas trajetórias? (Sei que são coisas que não devem ser ditas por politólogos, mas ao ver gente desse cariz a ocupar posições de poder, como não perguntar: é para isso que votamos?)Embora dura e pertinente, a análise do senador deve ser ampliada. O PMDB, movido pela lógica exposta por um de seus próceres - ainda que dissidente -, exerce um efeito de grave contaminação sobre a política brasileira. O fato de ocupar um lugar tão central e estratégico nessa política não torna visíveis apenas suas patologias internas enquanto partido. É a própria qualidade da vida pública que é afetada, quando o partido impõe-se como esteio de "governabilidade" e como garantidor de aquiescência legislativa. O PMDB impõe uma lógica política de contaminação a seus parceiros que, no processo de interação, tornam-se cada vez mais parecidos. Em termos diretos, a presença do PMDB como base da "governabilidade" no País - não importa quem esteja a governar - é um dos aspectos mais nefastos da vida pública brasileira. Não deve tranquilizar ninguém, medianamente preocupado com a qualidade da democracia brasileira, saber que o governo do dia é estável por possuir apoio parlamentar do PMDB. O partido é a negação do princípio da representação. Exige, como condição de existência, a vigência de uma cultura política autárquica, na qual o Parlamento é um espaço inviolável de negociações com o Executivo. Nessa rede de barganhas, o voto conta apenas como dimensão material e numérica. As temporadas de captura de sufrágio que se abatem sobre o País a cada dois anos não parecem estar a serviço do fortalecimento dos mecanismos de representação política. Em grande medida, reduzem-se a um método eficaz de seleção de operadores políticos - parlamentares - cujo comportamento é ininteligível do ponto de vista dos princípios da representação. Como explicar, por exemplo, que um obscuro deputado carioca, do PMBD, tenha sido considerado pelo governo federal como "dono de Furnas" e encarregado da prerrogativa de indicar seu presidente? O deputado em questão, por decisão de seu partido, controlava importante comissão na Câmara de Deputados, com considerável poder de chantagem sobre o Executivo.Os politólogos dirão que isso é da vida e se os homens fossem anjos, o governo não seria necessário. Tudo bem, que seja. Mas, honestamente, cabe ainda falar em "representação política" quando a vida pública do País é regida pela rafameia nomeada pelo senador Jarbas Vasconcelos? É difícil imaginar uma alternativa curativa ao "mal do PMDB". O próprio senador em sua crítica não pode ser tomado como politicamente inocente. A despeito da pertinência do que diz, seu movimento tem a clara finalidade de, como diz, "dar um norte" à dissidência que em 2010 marchará com José Serra. Há uma estranha dialética no ar: o senador e seus adversários dão, afinal, passos necessários para que o PMBD esteja no governo da República, a partir de 2011, sem ganhar as eleições. *Professor titular de filosofia política do Instituto Universitário de Pesquisas do RJ (Universidade Candido Mendes) e da Universidade Federal Fluminense e presidente do Instituto Ciência Hoje

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.