O poder permanente da memória

Fukushima reavivou as marcas dos hibakusha, a geração - de mulheres e crianças, em especial - vitimada pela bomba atômica

Debora Diniz, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2012 | 03h06

Hibakusha foi um neologismo criado na língua japonesa após as bombas atômicas. Em termos literais, os ideogramas japoneses indicam "pessoa vítima da bomba". Não é qualquer sobrevivente de guerra que é descrito como hibakusha, mas somente aquele que sobreviveu às bombas de Hiroshima e Nagasaki. Para isso, há um registro em uma carteira de notificação exclusiva dos hibakushas: nela se indica a distância a que a pessoa se encontrava do epicentro da bomba. Um hibakusha é um sobrevivente dos primeiros ataques atômicos do mundo. Não são heróis, mas espectros vivos do terror que dizimou um terço da população de Nagasaki no instante da explosão. Em geral sobreviveram sozinhos, em uma época em que as famílias japonesas eram numerosas. Até antes do acidente nuclear de Fukushima, em 2011, os hibakushas eram homens e mulheres velhos, indivíduos que corporificaram o estatuto de vítimas na carne e no espírito.

A história japonesa recente lidou ambiguamente com os hibakushas. Se, por um lado, recebiam proteções especiais do governo, como facilidades para os serviços de saúde, por outro foram estigmatizados pela ignorância sobre o contágio dos efeitos da radiação. Ser apresentado como um hibakusha é revelar-se um corpo que não permite à sociedade japonesa esquecer o seu passado - os hibakushas e os mortos pela bomba denunciam o equívoco de uma guerra nuclear. Além disso, durante anos, seus corpos amedrontavam pelas sequelas tardias da exposição: os filhos dos hibakushas eram pessoas ameaçadas pela ação silenciosa da radiação. Um hibakusha vivo desafia qualquer explicação dada à guerra, ainda mais quando os combates alcançam populações desavisadas de um ataque, como ocorreu em Nagasaki e na maioria dos conflitos atuais. Não é à toa que grande parte das fotografias de hibakushas logo após o bombardeio é de mulheres e crianças em desespero. As fotos de Yamahata Yosuke são particularmente insuportáveis pelo poder permanente de memória.

Uma recente campanha da província de Kyoto, cidade protegida do bombardeio da 2ª Guerra, indica o surgimento de uma segunda geração de hibakushas. Eles não são mais os velhos e as velhas de Hiroshima e Nagasaki. Kyoto foi uma das cidades que se prontificou a receber os refugiados do acidente nuclear de Fukushima. A campanha publicitária é curta, em linguagem de anime, uma escolha estratégica para o público jovem. A cena se passa em uma padaria, onde uma adolescente pergunta ao vendedor se ele é novo na cidade. "Sim", diz ele, "estou tentando reconstruir minha vida, vim de Fukushima". A adolescente, entre espanto e nojo, recusa o pão, acusando o vendedor de contaminar a comida. Uma senhora intervém e assume o tom educativo da campanha: além de informar que a radiação não é contagiosa, alerta à adolescente que talvez em sua família haja algum hibakusha do passado.

Essa é a verdade. Os hibakushas são velhos, e suas histórias diferentemente contadas pelos monumentos da guerra, mas eles permanecem desconhecidos da juventude japonesa. Em Hiroshima, o memorial é pela paz. Em Nagasaki, o museu é da bomba. Para a juventude, a bomba é um fato do passado e a paz é um estilo de vida. Os hibakushas são como alegorias dos livros de história ou dos mangás. Mas a campanha de Kyoto indica que algo está mudando: os hibakushas de Fukushima forçam uma atualização do sentido de ser sobrevivente de acidentes nucleares, e não apenas de guerras nucleares. Os hibakushas da guerra eram vítimas. Os hibakushas de hoje são heróis ou refugiados. Os heróis desafiam a ética ocidental se mantendo nas usinas para controlar os vazamentos. Não sei se há nacionalismo nesse ato de cumprimento do dever, como desejam alguns políticos japoneses. Mas há um heroísmo inequívoco. Os refugiados buscam sua identidade no presente. E, nessa busca, o compromisso histórico da sociedade japonesa em esquecer o passado das bombas será desafiado. Fukushima e a energia nuclear estão na agenda política e humanitária do Japão.

Um sinal desse movimento de atualização do passado e de crítica ao acidente nuclear de Fukushima são as recentes e pacíficas passeatas pelas ruas de Tóquio. Ali estão famílias de refugiados de Fukushima, intelectuais, entre eles o prêmio Nobel de literatura, Kenzaburo Oe, ou cidadãos anônimos, todos juntos pedindo o fechamento das usinas nucleares. A resposta oficial do governo japonês é que há custos exorbitantes na busca de outras formas de produção de energia. A solução não seria tão simples quanto fechar as usinas nucleares, dizem os especialistas do governo. A resposta dos manifestantes é que duas gerações de hibakushas devem ser inspiração suficiente para que a inteligência e a riqueza da sociedade japonesa encontrem outros caminhos para a produção de energia. Ainda é cedo para prever os efeitos dessa redescrição política e existencial dos hibakushas para a sociedade japonesa, mas algo é certo: o silêncio sobre a história foi desafiado.

 DEBORA DINIZ É ANTROPÓLOGA,  PROFESSORA , DA UnB,  PESQUISADORA DA ANIS - INSTITUTO , DE BIOÉTICA,  DIREITOS HUMANOS, GÊNERO

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