O povo contra o terrorismo

Violência de grupos que são sistematicamente incitados não deve ser um desafio apenas militar

Amartya Sen*, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2007 | 11h43

O crescente predomínio do terrorismo e da violência política no mundo contemporâneo originou muitas iniciativas nos últimos anos para remover o flagelo. Esforços militares para assegurar a paz foram rapidamente mobilizados, em alguns casos com justificativas mais bem fundadas do que em outros. Mas a violência de grupos pela instigação sistemática não é exclusivamente, nem principalmente, um desafio militar. Ela é fomentada em nosso mundo dividido capturando mentes e lealdades de pessoas, e explorando a obediência dos que são parcial ou totalmente persuadidos. Alguns recrutas são "inspirados" a se unir a movimentos para propagar a violência contra grupos visados, mas uma quantidade maior de pessoas influenciadas não toma parte. Mesmo assim, estas podem contribuir enormemente para generalizar um clima político em que as pessoas mais pacíficas acabem tolerando os atos mais clamorosos de intolerância e brutalidade com base em questões confusamente percebidas como autodefesa e retaliação contra o "inimigo" identificado.O relatório Caminhos Civis para a Paz, da Commonwealth Commission, publicado em 9 de novembro, concentra-se em especial nas causas e nos meios para se impedir o terrorismo e a violência cultivada que estão em ascensão há alguns anos, e afligem ou ameaçam as vidas de bilhões em países da Comunidade Britânica e no resto do mundo. O relatório não argumenta que as iniciativas militares nunca se justificam, mas afirma que quando elas se baseiam em informações erradas ou raciocínios fracos, ou estão mal articuladas com iniciativas civis, podem produzir efeitos bastante contraproducentes. Iniciativas civis sistemáticas, tanto em nível nacional como global, são essenciais para se enfrentar com sucesso a violência e o terrorismo organizados.É fundamental para a abordagem civil o reconhecimento da necessidade de superar a influência de leituras confusas e inflamáveis de relações humanas que gerem ódio e inimizade específicos de grupos. Apesar de todos os seres humanos terem várias associações, com muitos padrões distintos de compartilhamento (incluindo o importante compartilhar de uma identidade humana), essas identidades múltiplas são sistematicamente desconsideradas no cultivo da violência grupal, que ocorre privilegiando exatamente uma associação à "real identidade" de uma pessoa - que se vê num confronto imaginado contra qualquer outra que esteja do outro lado da linha divisória priorizada.Na verdade, até a violência gigantesca da 1ª Guerra Mundial, que fez tantos europeus agirem como participantes voluntários numa guerra desnecessária, apoiou-se na priorização singularizada da identidade nacional, ignorando todo o restante. Hoje, a divisão motivada por uma prioridade isolada baseia-se cada vez mais na defesa da identidade religiosa - e não nacional -, ignorando todas as demais associações. O cultivo dessa incitação ao confronto, muitas vezes dirigida contra o Ocidente, recebe de fato um apoio implícito deste lado do mundo, com a crescente aceitação da idéia de se classificar os povos quase exclusivamente por religião ou por participação em "civilizações" definidas principalmente em termos religiosos (idéia suplementada pela tese de que civilizações diferentes são propensas a se "chocar" umas com as outras).Os seres humanos, com uma diversidade de preocupações e associações compartilhadas de muitas maneiras diferentes e complexas, não precisam estar constantemente em disputa. Se as mudanças institucionais necessárias para se ter caminhos civis para a paz pedem uma clareza das idéias, elas também pedem, como discute o relatório da comissão, políticas organizadas e iniciativas institucionais com alcance e versatilidade para ajudar, e não obstruir, a compreensão da riqueza das relações humanas.A amplitude de alcance é crucial neste caso. Mesmo a abordagem bem intencionada, mas excessivamente estreita, de se concentrar ingenuamente no "diálogo entre religiões" (muito defendida neste momento) pode minar seriamente outros empenhos civis, associados a língua, literatura, funções culturais, políticas nacionais e interações sociais que ajudem a resistir à exploração das diferenças religiosas, que muito freqüentemente começa solapando todas as demais associações. A diversidade dos empenhos da sociedade civil precisa ser apoiada, e não suplantada.Pode-se resistir ao cultivo de desrespeito e hostilidade de várias maneiras, incluindo o trabalho da mídia, a promoção de uma política participativa, a expansão de atividades educacionais inclusivas e de base ampla, e outros meios de produzir respeito mútuo e compreensão. Os Caminhos Civis para a Paz também pedem a eliminação de grandes desigualdades econômicas, de humilhações sociais e da falta de emancipação política que possam contribuir para o confronto e a hostilidade. Medidas puramente econômicas contra a desigualdade não trazem a dimensão social da desigualdade. Por exemplo, quando as pessoas nos grupos inferiores em termos de renda tenham características não econômicas diferentes em termos de raça (como ser negro e não branco) ou condição de imigração (como serem imigrantes recentes em vez de antigos moradores), o significado de desigualdade econômica é substancialmente ampliado por seu "acoplamento" a outras divisões.O enfoque em Caminhos Civis para a Paz não ignora, de maneira nenhuma, o fato básico de que terrorismo e homicídio, independentemente de como tenham sido originados, sejam atividades criminosas que pedem medidas de segurança eficazes. Nenhuma análise séria da violência de grupos pode deixar de começar por essa compreensão básica. Mas essa análise não deve terminar aí, pois muitas iniciativas sociais, econômicas e políticas podem ser empreendidas para enfrentar e derrotar o apelo a que os fomentadores de violência e terrorismo recorrem para recrutar soldados ativos e simpatizantes passivos.A Comunidade Britânica sobreviveu e prosperou, apesar das hostilidades associadas à história colonial da Grã-Bretanha. Não têm faltado problemas, mas não devemos subestimar os êxitos que tivemos, particularmente com a substituição do confronto áspero de governante e rebelde com a cooperação generalizada entre povos independentes.Esse êxito tem sido possível mediante o uso de alguns princípios diretores de longo alcance, centrados em especial numa abordagem multilateral. A comissão argumenta que esses princípios têm hoje uma importância constante para o futuro da Comunidade - e também para o mundo como um todo. Nesse sentido, Caminhos Civis para a Paz é uma modesta tentativa de apresentar uma compreensão, baseada na Comunidade, das exigências civis para a paz mundial. * Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia, é professor da Universidade Thomas W. Lamont e da Universidade Harvard

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.