O povo de Obama

São negros e tomaram Washington, a cidade com histórica vocação para conter as multidões

Pedro Doria*, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2009 | 22h26

Só faltam algumas quadras. Sete da manhã. Há tempo: o juramento de posse é só ao meio-dia. Zero grau nem parece tão frio, ainda mais andando rápido. Só uma película de gelo numa poça ou outra acusa a temperatura. Há limusines nas ruas, ambulâncias, carros de polícia - e gente. Gente vendendo luvas e gorros, vendendo camisetas com o mesmo rosto repetido em várias poses e ângulos, gente andando rápido. "Eu fui" está impresso em livros, cartazes, bótons, porta-retratos, fitas de amarrar no pulso. O guia do jornal na mão indica quais ruas estão abertas para passagem do público.Mas as ruas não estão mais abertas. "Pegue a Três", diz o policial. Third Street. Mais meia cidade para andar, a primeira opção de caminho frustrada. Uma quadra à frente, duas. Não será melhor confirmar a informação? O jornal está errado. "Três ou Dezoito", diz um bombeiro. Qual o caminho mais próximo? "As informações mudam a toda hora", corrige o soldado. Aí sorri. Oito e meia. Ruas bloqueadas. É melhor pegar o metrô, damos a volta, entramos na praça pelo sul da cidade.Washington foi construída para receber multidões, com suas longas avenidas e ruas espalhadas num grid quase perfeito. Uma cidade idealizada para ser democrática - e, no entanto, avessa a multidões. Nervosa com multidões: quer controlar, guiar, conter sua força, domar. Em 1836, a Câmara chegou a proibir qualquer protesto contra a escravidão em suas cercanias. A lei contra protestos não durou muito, mas os líderes do Exército de Coxey não tiveram muita sorte em 1894. Não podiam ser presos por protestar contra o desemprego, então foram para a cadeia por pisar na grama.São negros quase todos os que estão na rua neste dia de posse presidencial. Andam sem rumo em busca do caminho certo. Não é fácil. Contudo, não há tensão em seus semblantes: parecem serenos. De acordo com o censo de 2007, 56% da população de Washington é negra. Eles não são apenas maioria entre os grupos étnicos. Têm a própria história pessoal com a cidade que busca controlar multidões.Quando os Estados Unidos foram fundados, havia um debate sobre se a capital deveria ficar no norte ou no sul. Os grandes fazendeiros escravagistas do sul temiam que uma capital no norte seria tomada por tendências abolicionistas. Os comerciantes do norte argumentavam que os grandes centros urbanos, Boston e Nova York, eram lá. No fim da Guerra da Independência, os nortistas deviam dinheiro à nova nação. Thomas Jefferson, o intelectual da Virgínia que viria a ser o terceiro presidente do país, propôs um acordo. Uma capital sulista em troca de o sul absorver parte da dívida. Ficou sendo, pois Washington nasceu entre a Virgínia e Maryland, às margens do Rio Potomac, no sul da jovem nação. Uma cidade cuidadosamente planejada para abrigar o governo federal, tendo no coração do plano seu prédio mais importante: o Capitólio, sede de Câmara e Senado. Charles L?Enfant foi o urbanista francês que pôs o Congresso, e não a Casa Branca, no centro do poder. O metrô está lotado. Esmagamo-nos , a porta quase fecha sobre a mochila. "A estação da Praça L?Enfant está fechada", diz o condutor. Todos no vagão se olham. É a estação em frente ao prédio da Smithsonian, do lado do Mall, a praça que dá para o Capitólio. No vagão, planos alternativos são discutidos. Há quem seja da cidade; estes têm sugestões, estratégias. Entretanto, a maioria veio de fora. "A estação L?Enfant acaba de abrir", ouve-se. As informações realmente mudam a toda hora.Estação escura e a multidão. Não há mais serenidade. O grito começa aqui e ali, quase um murmúrio. "Obama! Obama!" Se espalha, fica alto, se repete. Há êxtase. Nove e vinte da manhã e as escadas rolantes ao fundo trazem a luz do sol. Chegamos ao Mall.Os primeiros negros de Washington eram homens livres. Chegaram mais ou menos na época em que Jefferson era presidente. Haviam sido escravos nos Estados vizinhos, mas lutaram na Guerra da Independência e garantiram sua liberdade. A cidade federal parecia o lugar mais seguro para se morar nas imediações. Jefferson, num caso de amor que durou décadas com uma escrava, foi o primeiro presidente americano a ter filhos mulatos. Cinco crianças - quatro rapazes, uma moça. Em cartas, seus filhos ilegítimos o descreviam como presente, carinhoso, preocupado. Também foi ele quem escreveu o conceito de liberdade que está na base do credo americano: "Temos esta verdade por evidente, que todos os homens são criados iguais". Nada a estranhar em quem anotou para a eternidade, no ano de 1815: I cannot live without books (Não posso viver sem livros). Contudo, Jefferson morreu senhor de escravos. As primeiras comunidades negras de classe média dos EUA surgiram em Washington. Um dos gigantes do jazz, Duke Ellington, é da capital e sugeria que do burburinho cultural negro de lá veio sua maior influência. Em 1867, apenas dois anos após o fim da Guerra Civil entre norte e sul pela abolição, nasceu Howard, a primeira universidade que aceitava alunos negros na terra dos escravos. É onde se formou Stokely Carmichael, criador do movimento Black Power. Era onde ensinava Ralph Bunche, primeiro Nobel negro.Washington foi a primeira grande cidade americana a ter mais negros do que brancos. A primeira cidade do sul a abolir a escravatura. E, ainda assim, em 1925, 35 mil racistas mascarados, vestidos com mantos brancos e chapéus de ponta, marcharam pelas ruas da cidade. Era a maior multidão jamais vista no local até então.Estes não foram presos.Não há passagem para o Mall. A posse será ali, a metros de distância, mas blocos de concreto que não havia na véspera, policiais, soldados e veículos blindados impedem a passagem. "Rua Quinze", diz um com megafone. São ainda algumas quadras, no ritmo lento das multidões. Há cadeiras de roda no meio. "Vale a pena o esforço?" O veterano de guerra olha para cima, sorri: "Vai valer daqui a três dias, quando eu contar a história".As autoridades forçam o afunilamento da multidão. Põem carros no meio da rua, cavalos de pau. Querem diminuir o ritmo de chegada, diminuir a velocidade, dificultam. Testam os ânimos. Não há mais êxtase ou gritos. Apenas o cansaço que caminha determinado. Falta pouco. O Mall está ali. "Desde as 5", alguém diz. "Desde as 4." Ou 6 e 30. Ou 6. Ou 7. São quase 10 horas. Ainda há tempo. Em algum lugar haverá entrada. Alguma hora vão ceder. Alguma hora nos deixarão passar.Em 1954, a Suprema Corte proibiu a segregação oficial em todas as escolas públicas da cidade na esperança de que o exemplo se espalhasse. O exemplo não se espalhou.O recorde da passeata da Ku Klux Klan em 1925 só foi batido em 28 de agosto de 1963, quando 250 mil homens, mulheres e crianças chegaram para a Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade. Eram negros. Queriam o fim da segregação legal. Queriam reservas de mercado. Nas semanas anteriores, a nação entrou em debate. Mesmo partidários do movimento criticavam a marcha - ela atrapalharia o governo em seus esforços pelos direitos civis. Colunas de jornal acusavam o abuso. "Essa marcha pode incomodar Washington", escreveu no New York Times daquele dia o lendário diretor do jornal na capital, James Reston. "Mas os negros obviamente decidiram que se não incomodarem os brancos ninguém vai se mexer."Os líderes da marcha estavam dentro do Capitólio, negociando com deputados, quando a multidão, descontrolada como multidões costumam ser, decidiu sair caminhando. Deixou o Mall, o Capitólio às costas, cruzou o obelisco em homenagem a George Washington, fitou o memorial de Abraham Lincoln ali em frente e se foi. Martin Luther King teve de descer às pressas a escadaria e pegar um carro para alcançar seu público. "Eu tive um sonho", ele disse, "sonhei que um dia este país viverá seu ideal tal qual redigido em sua declaração de independência: temos esta verdade por evidente, que todos os homens são criados iguais."A multidão de 2009 também não tem paciência e não chega à Rua Quinze. Para no fim do Mall e, antes do obelisco, põe Lincoln para trás e pula a mureta improvisada de concreto. "Não pode", diz a policial. Outros pulam. "Volte já!", ela grita. Dois chegam em reforço. Mais pulam. "É proibido!" Aí desistem. Dez horas da manhã.Pisam na grama. A estátua de Lincoln está ali perto. A de Jefferson também.A multidão, ombro a ombro. Um passo para o lado faz a diferença entre conseguir enxergar o telão ou ter uma árvore à frente, a cabeça de uma criança no ombro do pai. Ninguém se move. A pressão é tanta que fica a ilusão de que é possível levantar as pernas um pouco e descansá-las. As pessoas grudadas de um lado e do outro, à frente e atrás, seguram o corpo. É só ilusão, e o cansaço não passa."Senhoras e senhores", diz o locutor, sua voz imponente. "O presidente dos Estados Unidos, o honorável George Walker Bush." Ele está no telão. A vaia vem num repente: uma vaia imensa, gutural, um sopro coletivo que nasce do fundo da praça e segue o meio quilômetro que separa o obelisco do Capitólio. Bush não sorri. O presidente eleito dos Estados Unidos chega. Ovação. E aí, novamente o silêncio. A presidente da Câmara chama Barack Hussein Obama ao centro. O presidente eleito caminha. O som do telão não está sincronizado com a imagem. Ele já está jurando, porém a imagem mostra ainda sua mulher, Michelle, a Bíblia de Lincoln nas mãos. Ele espalma a mão esquerda sobre o livro, ergue a direita - e promete. "Muito obrigado, senhor presidente", diz o chefe da Suprema Corte.A multidão começa a ir embora. Não espera o discurso. Os rostos cansados. São, na esmagadora maioria, negros. Esperaram muito. Não precisam mais de discurso, ouviram tantos. Agora, aconteceu. Podem voltar para casa. * Colaborador do caderno Aliás e colunista do Link, o jornalista Pedro Doria atualmente faz mestrado na Universidade Stanford, nos Estados Unidos

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