Carolina Antunes/PR
Carolina Antunes/PR

O primeiro-damismo é (e não é) ultrapassado

Se está fora de moda dar ao feminino um lugar de vitrine, é muito atual usar as armas à mão para embelezar uma imagem

Maria Homem, O Estado de S. Paulo

15 Outubro 2016 | 21h22

A dama espalha sua graça e sua beleza, como se fossem purpurina, sobre o cavalheiro, normalmente forte, viril e corajoso. Cavalheiro ou cavaleiro, dependendo do século em que contamos a história. Estamos diante do arquétipo que insiste em nossos sonhos: o herói e sua bela conquista, normalmente prêmio final.

Não precisamos dizer que esse é um formato que repete a lógica patriarcal e de divisão sexual de tarefas que ainda parece ser a nossa. A tarefa principal do feminino é ser bela e charmosa para o herói, e depois cuidar dos seus filhos (e, no final, ser trocada pela mais bela, mais charmosa e mais jovem – mas deixemos essa parte da história entre parênteses). Voltemos ao nosso imaginário, tão arraigado que está aí em cada esquina, ainda em nove de cada dez propagandas de carro, roupa, bebida. Claro, às vezes com nuances de algum protagonismo para a mocinha – certamente menor e não ameaçador –, que faz faculdade, tem algum talento e alguma ocupação. Lembram de 50 Tons de Cinza? Nessa linha. O herói e a dama, o winner e a modelo. Repaginados, mas firmes.

Nesse enquadre, como situar a figura da primeira-dama? Para começar, digamos que se trata de lindo título. Rótulo com resquícios de nobreza. Eis a aristocracia que não se deixa apagar. Nossos desejos mais profundos – até há pouco, na era da democracia, inconfessáveis –, desejos de pureza de sangue, de raça, de classe. Quem tem classe? Não há luta de classes, há luta pela classe. Parece que agora estamos nos permitindo pensar e dizer isso. Na expressão primeira-dama, tanto a ideia de dama (contraposta à plebe) quanto a de primeira (contraposta ao “todos são iguais perante a lei”) revelam o anacronismo da situação. Na contramão da história e de todos os movimentos de subjetivação da atualidade. Não estamos tentando entender afinal que todos os seres humanos são alçados à categoria de sujeitos de direito? Mulheres, homens, ricos, pobres, feios, bonitos. Primeira-dama? Como escutei de uma aluna, “na real, fora de moda”.

Nesse sentido, um certo retorno a narrativas de primeiro-damismo podem ser reveladoras. No Brasil atual, em que há eleições municipais e presidenciais simultaneamente – uma pela massa e outra pela cúpula –, o fenômeno se torna mais visível. Mas também podemos acompanhá-lo na América desenvolvida ou na Europa moderna, em que a princesa inglesa ou a pop francesa-italiana-global ganham destaques. E todas têm seus guarda-roupas extensamente analisados. Sim, passa a ser relevante a imagem da Dama. Hoje em dia, não tanto seu caráter, sua fé, sua virgindade, seu currículo ou suas ideias. Sobretudo seus vestidos.

Uma variação desse enredo é quando a dama espalha sua finesse e seu brilho sobre o que aparentemente seria o anti-herói, o “vagabundo”, o mendigo, sapo, adormecido, injustiçado. Mas algo dentro dela sabe – mágico sexto sentido – que, no fundo, ele é príncipe, forte e guerreiro. Esse foi, por exemplo, um plot dramático retomado pelos estúdios Disney nos anos 1950. No momento em que os casamentos por decisão individual e para além dos rígidos moldes de castas vêm com mais força, o cinema ajuda a espalhar a ideologia do self made man e da potencialidade de ascensão burguesa que pode estar oculta em cada um de nós, numa meritocracia em que os feios, sujos, malvados e velhos podem também ter a sua vez. Ou numa certa repaginação desse roteiro na virada do milênio, com Shreks – ogros que, no fundo, quem sabe, são ricos e espertos.

Essa lógica parece estar em voga atualmente, na era em que precisamos cada vez mais de estratégias de marketing para embelezar – e dignificar – nossos produtos meio rotos. Vamos atrelar a eles imagens bonitas e catapultar o que temos de melhor. O que poderíamos usar para que esse brilho se espalhe sobre a cena? Por exemplo, governos um pouco feios precisam de mais beleza. Governos apagados, de mais verba de propaganda. Governos enroscados em situações delicadas, mais verba de propaganda ainda (além, claro, da estratégia fundamental do mercado, que é a compra e a venda, nesse caso de votos e silêncios). Aliás, devemos reconhecer que essa engrenagem revela-se atual, estrutural e apartidária.

O que talvez não seja atual, de fato, para além do uso massivo da imagem da mulher – sobretudo seu corpo e sua aura bela, recatada e domesticada – é a posição de “ajudar os carentes”. E aí temos um outro e conturbado aspecto desse primeiro-damismo: o mãe que cuida dos filhos desvalidos, pobres, frágeis. A função materna que “cuida da área social”. O mais irônico é uma primeira dama hiperconsumista e gestora do espaço privado do lar fazendo esse papel. Ou uma primeira-dama artista – que luxo – pronunciar-se de forma tão ingenuamente honesta a partir do mais nítido lugar de alienação da classe rica sobre a vida e a arquitetura (concreta e simbólica) da cidade. Sou do povo. E vou ajudar e vou treinar o povo. Onde fica isso mesmo? Sensacional.

É uma questão de gênero? Não. O paternalismo assistencialista transcende o sexo. Assim como uma certa filantropia – pesada – que chega com pompa e circunstância ao Brasil. The Giving Pledge – em tudo copiamos modelos americanizados. Na falência de um Estado com real poder de manejo sobre a renda, quem sabe, seja um caminho. Aqui, para além de ricos doadores ou lobistas, quem sabe pudéssemos traçar uma linha de outro estilo de pensamento e ação, linha a partir da qual as figuras de Ruth Cardoso e Tereza Campello, por exemplo e por acaso duas mulheres, duas damas, souberam propor um desenho de efeitos inéditos.

O que o velho (e rachado?) espelho dos Estados Unidos nos mostra? Michelle Obama não é Marcela Temer. Profissional conceituada, Michelle é discreta; e às vezes emite eventuais notas, que já são criticadas, afinal, sempre melhor deixar as mulheres mais quietas. Como foi feito com “a louca incompetente” da Dilma. Mas aí a história nos oferece Hillary, que, mesmo com boatos delirantemente misóginos, pode vir a se tornar uma das mulheres mais poderosas do mundo.

Mas fechemos com estilo: o brilhante pussy bow de Melania Trump. Se não foi, ao menos na imaginação desta que vos fala, esse ato terá sido a mais inteligente e sarcástica reposta, sobre o próprio corpo, de uma mulher a seu homem e a todos os homens. Um brinde a ela e ao sorridente primeiro-cavalheiro e agora acompanhante de sua mulher, a Clinton.

Nesse ponto, talvez possamos aventar a hipótese de que o primeiro-damismo é e não é antiquado. Está absolutamente fora de moda conceder um lugar de vitrine ao feminino. Ainda mais a vitrine de moça bela e infantilizada que lê discursos açucarados bem devagarzinho com vestido (perdoem-me) de princesa-professorinha-rendada. A dama e a Criança Feliz. A família, pedra basilar da nação. Mas é absolutamente up to date usar de todas as armas que temos para banalizar a prática de construção, manipulação e massificação da imagem – imagem de qualquer produto e de qualquer serviço, incluindo aí o poder e suas manobras. Isso é marketing, isso é linguagem, é capitalismo selvagem e absolutamente contemporâneo. Bem-vindos.

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