O protesto é a mensagem

'Ocupar Wall Street' conquista o noticiário, e o sindicalismo precisa provar que ainda tem força

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2011 | 03h07

SÉRGIO AUGUSTO

"Estamos numa guerra; uma guerra contra os trabalhadores", bradou Jimmy Hoffa, líder sindical dos Teamsters, os caminhoneiros americanos. "Travada em toda parte", acrescentou. Para em seguida bravatear: "Nós, os trabalhadores, gostamos de uma boa briga". E lançar um desafio: "Vamos vencê-la". Culminando com uma oferta: "Presidente Obama, este é o seu exército. Estamos prontos para marchar". Objetivo da marcha: livrar a América dos fanáticos do Tea Party e dos reaças republicanos - "these sons of bitches", no desabrido linguajar de Hoffa, que no último Dia do Trabalho americano (primeira segunda de setembro) fez o discurso de abertura de uma homenagem ao presidente em Detroit.

Indignação nas hostes inimigas. Baseados num vídeo da FoxNews, desonestamente editado para dar a impressão de que Hoffa pregara a eliminação física de políticos e militantes de direita, políticos conservadores e jornalistas amestrados acusaram o sindicalista de incitar à violência e Obama de aceitá-la ou mesmo instigá-la. O trecho em que Hoffa deixava claro suas reais intenções (eliminar os "sons of bitches" pela via eleitoral) foi cortado, mas nem depois de admitir a "falha" a emissora de Rupert Murdoch pediu desculpas. Os que foram em suas águas tampouco voltaram atrás. Sim, é uma guerra.

James Phillip Hoffa, que assumiu a identidade e o legado do pai, o legendário líder sindical Jimmy Hoffa, frequentemente é comparado a Tony Soprano por seus desafetos e suas aparições no vídeo costumam ter como música de fundo o tema de O Poderoso Chefão. Não se é filho de Jimmy Hoffa - muito menos seu herdeiro político - impunemente. Desde 1999 na presidência dos Teamsters, o atual Hoffa tinha 33 anos quando o pai morreu, ou melhor, desapareceu sem deixar vestígios, na periferia de Detroit, em 30 de julho de 1975.

O velho Hoffa dedicou os melhores anos de sua vida ao poderoso sindicato dos caminhoneiros (1,5 milhão de associados) e nele mandou e desmandou mesmo quando esteve preso por tentativa de suborno e fraude, ao cabo de um processo movido pelo secretário de Justiça Robert Kennedy. Jamais dirigiu um caminhão, a não ser para uma série de fotos para a revista Life. Embora votasse com os democratas, aliados históricos desde o New Deal, apoiou a reeleição do republicano Richard Nixon em 1972, em troca do abatimento de nove anos em sua sentença.

Nixon não foi o único gângster com quem se meteu. Sua suposta execução teria sido tramada por Russell Bufalino e consumada por Frank The Irishman Sheeran, amigo íntimo do líder sindical, mas acima de tudo um fiel sicário da Máfia. Após longa investigação, o FBI desistiu de desvendar o mistério do seu sumiço e não levou a sério a hipótese de que a Máfia o tivesse enterrado sob a grama do estádio dos Giants, em Nova Jersey, demolido no ano passado. Já biografado em livro, TV e cinema (Jack Nicholson: Hoffa - Um Homem, uma Lenda, 1992), quase voltou às telas num filme mais centrado na figura de Frank Sheeran, que seria interpretado por Robert De Niro, mas o projeto, de Martin Scorsese, ao que parece, foi engavetado.

Hoffa 2.0 também fala grosso, mas o sindicalismo está precisando provar que a globalização não exauriu todo seu poder aglutinador e sua force de frappe. A hora é agora. Desemprego em massa, insegurança econômica, uma obscena e crescente desigualdade entre ricos e pobres, escândalos financeiros sem punição ou bonificados com dinheiro público, um presidente complacente com a insaciável ganância do big business e cativo de um Legislativo dominado por filisteus e torquemadas - crise igual os americanos com menos de 70 anos nunca viram.

Na quarta-feira da semana passada, os Teamsters e outros sindicatos de peso juntaram 15 mil manifestantes na Foley Square, no sul de Manhattan, que, cantando e empunhando cartazes, marcharam até o parque Zuccotti, onde o movimento Ocupar Wall Street montou seu primeiro bivaque na guerra contra a ganância corporativa, os plutocratas do mundo financeiro e os oligarcas de Washington que lhes facilitam a rapinagem. Com objetivos e inimigos em comum, as duas guerras - a declarada por Hoffa e a que se disseminou pelo resto do país a partir de Wall Street - podem ir longe.

Contrariando as primeiras impressões de alguns analistas, o OWS, agora ON (Ocupar a Nação), não é simplesmente um piquenique ou um Tea Party de esquerda, um Woodstock anticapitalista, um chienlit de anarquistas de butique ("pierced anarchists", no maldoso léxico do reacionário David Brooks, comentarista do New York Times), mas um movimento de protesto popular com representantes de todas as faixas que compõem os tais 99% da população que se sentem esbulhados pela concentração de 40% da riqueza nacional nas mãos de 1% dos americanos e pela recusa dos republicanos em sobretaxar seus lucros fabulosos.

Sem bridão ideológico, sem líderes, sem violência e, por exigência da Lei do Silêncio, até sem megafone, o que obrigou os manifestantes e oradores à adoção de um inovador método de interação oral e auditiva (um fala e os outros, em coro, passam adiante a mensagem), ao OWS não faltam, pelo menos, três coisas fundamentais: indignação, autoridade moral e pertinácia. Ainda não sabem até onde irão, mas não se afligem com isso. "O processo, não a plataforma, é o que importa", como bem observou Hendrik Hertzberg, na New Yorker dessa semana. Porque são competentes, criaram um site na internet (www.nycga.cc). Porque têm humor, editam um jornal diário, a que batizaram de Occupied Wall Street Journal.

Não dá para comparar as ocupações das últimas semanas com as pioneiras manifestações antiglobalização de Seattle há 12 anos. Mudou o mundo e também a estratégia de luta dos indignados. Os antiglobalistas pegavam carona em grandes eventos (reuniões do G-8, Davos, etc), transitórios por natureza, e com eles sumiam do noticiário. Agora o grande evento é a própria manifestação. O OWS já está ocupando mais o noticiário que qualquer cimeira econômica ou política. Lideranças, se necessárias, surgirão. Jimmy Hoffa não será uma delas.

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