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O que a arquitetura das bibliotecas públicas diz sobre os países

Prédios recém-construídos na Grécia, no Catar e na Letônia ajudam a entender como as bibliotecas refletem um povo

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30 Maio 2018 | 15h30

Este mês, livros serão retirados de suas abarrotadas e empoeiradas áreas de reclusão na antiga Biblioteca Nacional da Grécia e cuidadosamente colocados em carrinhos de mão. Mais de 2 milhões de itens, incluindo uma coleção de 4.500 manuscritos datados do século 9 ao 19, farão a viagem pelas movimentadas ruas do venerável edifício neoclássico no coração de Atenas para sua nova casa no Centro Cultural Fundação Stavros Niarchos. A jornada desses livros mapeia cuidadosamente o que aconteceu com a arquitetura das bibliotecas nacionais em todo o mundo. A antiga casa dos livros, concluída em 1903, foi projetada como um templo do conhecimento a ser usado por uma elite acadêmica limitada. 

Ao contrário da antiga biblioteca, o novo local tem poucas referências à linguagem arquitetônica da Grécia antiga. Procura transmitir a ideia de uma nação moderna, em paz com a sua história, mas também capaz de se expressar numa linguagem contemporânea. Em vez de um edifício quase religioso, situado dentro de um parque ornamental de 20 hectares, esse parque é apoiado sobre a estrutura angular: para entrar na biblioteca, os visitantes devem passar por uma espécie de caverna de fachada de vidro emoldurada por plantas. Ao fazer isso, serão recebidos por um paredão repleto de livros, de cinco andares de altura. A literatura – e a literatura moderna, em particular – é apresentada como sendo o suporte estrutural do imóvel, como os livros o são para o parque aberto acima.

A nova biblioteca nacional no Catar também se alimenta de ideias em evolução sobre modernidade e democracia no país. Quando o prédio, que custou no mínimo US$ 300 milhões, foi encomendado pela primeira vez em 2006, era simplesmente uma instalação para a expansão do bairro universitário em Doha. Uma das arquitetas, Ellen van Loon, do OMA, diz que eles tentaram relacionar o edifício ao ambiente construtivo em rápida mutação do Catar. “O projeto emergiu de uma visita ao Catar e do raciocínio sobre as condições do local e a percepção de que a socialização no país acontece em shoppings ou hotéis. Uma biblioteca, no entanto, é um prédio público – um prédio muito bom para a vida social da população local.”

O conceito comoveu as aspirações da liderança do Catar de ser vista como formada por líderes esclarecidos. O edifício é um espetáculo em transparência e abertura: enormes treliças de aço e colunas de concreto criam um vasto espaço no qual a maioria dos 1,5 milhão de livros da biblioteca é exibida. Salas especializadas para conservação e estudo tranquilo ficam ocultas sob as rampas inclinadas, e o espaço principal é essencialmente uma praça pública com ar condicionado revestida de mármore. E está sendo tratado como tal. Com palestras, concertos e eventos para crianças, a biblioteca é popular e tudo, menos um lugar de quietude. De acordo com Ellen van Loon, “o cliente percebeu assim que viu o prédio, que ele deveria ser um edifício público”, e nacional, principalmente.

A biblioteca também consegue articular a tradição de uma maneira engenhosa. Uma seção subterrânea de mármore iraniano estriado armazena e exibe publicações do patrimônio. Em um país que é sensível à acusação de ter uma limitada riqueza cultural antes da descoberta do petróleo, esse embasamento de tesouros textuais é uma clara refutação. O item mais importante da coleção é a Tabula Asiae VI (também conhecida como o Sexto Mapa da Ásia), impressa em Roma em 1478, que foi o primeiro mapa impresso a mencionar o Catar. O patrimônio cultural é novamente retratado como um alicerce sobre o qual se fundamenta o Estado árabe e sua relação evolutiva com a democracia.

No entanto, nenhuma tentativa tão ousada de transmitir o significado de uma biblioteca nacional por meio de analogia geológica foi feita do que em Riga, na Letônia. Gunnar Birkert, o arquiteto, deixou claro que seu projeto era uma referência ao conto popular A Princesa na Montanha de Vidro, que foi adaptado no início do século 20 como uma metáfora para o despertar nacional. Sua grande montanha de vidro que agora domina a margem oeste do rio Daugava e talvez seja a expressão arquitetônica chave da independência da Letônia em relação ao domínio soviético. Essas tradições folclóricas alimentaram a identidade nacional durante a ocupação, apesar de serem frequentemente banidas por apparatchiks (funcionários do Partido Comunista) leais a Moscou. Ao contrário das torres em blocos retilíneos da era comunista, a biblioteca, embora se equipare a eles em altura, é suave e chanfrada.

Não foi barata. O estado pagou mais de US$ 194 milhões pelo prédio desde que começou a construção em 2004. Se eles forem bem-sucedidos, isso significaria que cada letão terá pago pouco mais de US$ 100 pelo prédio. O que eles receberam por esse dinheiro é surpreendente na intensidade e na escala de seu simbolismo. O átrio é dominado por outra alegoria familiar às bibliotecas modernas: um paredão de livros de cinco andares, chamado “A estante do povo”. Os cidadãos da Letônia doaram dezenas de milhares de livros, transmitindo tanto o significado emocional da literatura quanto seu poder intelectual. À medida que mais e mais livros são produzidos e as bibliotecas nacionais aumentam de tamanho, os arquitetos terão maior potencial para fazer declarações emotivas sobre a literatura sustentando a identidade nacional.

Em O Corcunda de Notre Dame (1831), Victor Hugo observou que, no final da Idade Média, a impressão ameaçava a arquitetura como o meio dominante de a igreja transmitir um significado cultural. “O livro de pedra, tão sólido e tão duradouro, daria lugar ao livro de papel, mais sólido e mais duradouro ainda.” Coloque o livro e o edifício juntos, e você tem um potencial para estruturas de significação quase esmagadora. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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