Mauritshuis
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O que a história da medicina pode nos ensinar no combate ao coronavírus

Livros traçam percurso das descobertas científicas que salvam milhares de vidas diariamente

Bruna Meneguetti*, Especial para o Estado

18 de julho de 2020 | 16h00

Em meio à pandemia, há um movimento do mercado editorial de publicar mais livros relacionados à medicina. São obras escritas por médicos, documentaristas ou historiadores sobre descobertas e decisões que até hoje repercutem na saúde de pacientes, salvando a vida de milhares de pessoas. Entre elas, estão Medicina Macabra, de Thomas Morris; Inimigo Mortal, de Michael T. Osterholm e Mark Olshaker; Medicina dos Horrores, de Lindsey Fitzharris e A Fabulosa História do Hospital, de Jean-Noël Fabiani.

Juntos, os livros dão um grande panorama da história da medicina ao contar sobre o surgimento de vacinas e doenças, da penicilina, anestesias, antissepsia, antibióticos e até do Viagra. Além disso, ajudam o leitor a refletir sobre problemas que a humanidade já enfrentou, mesmo quando nos referimos a conceitos que hoje nos parecem tão antigos e comuns, como os hospitais. Segundo A Fabulosa História dos Hospitais, houve uma época em que esses locais eram conhecidos como “hospícios” e tinham a função de receber estrangeiros que ajudavam na construção de templos religiosos. Com o aumento das cidades e das doenças, “o hospital passou a funcionar como local de encarceramento” da população mais pobre. 

E apesar de atualmente a Covid-19 ter exigido o máximo da capacidade hospitalar em muitas cidades, houve momentos em que os hospitais correram o risco de desaparecer. Durante a revolução francesa acreditava-se que a desigualdade social seria extinta, e, com ela, também sumiriam as doenças e os hospitais. Porém, não foi bem o que aconteceu, apesar da revolução ter sido importante para transferir o “poder hospitalar dos religiosos para os médicos” e criar, com isso, o hospital moderno. Mais para a frente, alguns desses doutores chegaram a defender que a única forma de desinfectar um hospital onde ocorria o surto de alguma doença infecciosa era demolindo toda a sua estrutura e construindo um novo. 

Segundo Medicina dos Horrores, os hospitais eram conhecidos como “Casas da Morte” e “alguns só admitiam pacientes que já levassem dinheiro para cobrir as despesas de seu enterro quase inevitável”. Dentre as obras recém-lançadas, esse livro é o que mais se destaca por sua fluidez narrativa ao contar a vida do médico Joseph Lister, um importante cirurgião que revolucionou a medicina em 1865 ao perceber que micróbios eram a causa das infecções hospitalares e propor um método para combatê-los, buscando a antissepsia por meio do ácido carbólico. Ou seja, Lister foi um dos responsáveis por salvar a existência dos hospitais, mas também a vida de todos que ainda hoje são submetidos a qualquer tipo de cirurgia. 

Para percorrer sua história, a obra mistura diversos casos curiosos e descobertas de médicos e cientistas que o precederam, mostrando o quanto a ciência depende de vários pilares para avançar, mas também como possui um tempo próprio para consolidar essas mesmas descobertas e mudanças. Por exemplo, demorou muito para que o cirurgião fosse visto como um profissional, que deveria estudar em faculdades, integrar à equipe hospitalar e ganhar mais do que o “catador-chefe de insetos do hospital”, que tinha como função “livrar os colchões de piolhos”. Na época dos estudos de Lister, ficaram famosos os anfiteatros cirúrgicos, onde não era raro as operações serem realizadas em meio a plateias tão numerosas “que o cirurgião era impossibilitado de operar”, escreve Fitzharris. 

Medicina do Horrores parece empenhado em lembrar os leitores de que há até pouquíssimo tempo na história da humanidade, o que hoje nos parece óbvio não era de conhecimento público. Afinal, até o início do século 19, médicos acreditavam que o “pus era parte natural do processo curativo”, usavam jalecos endurecidos “por sangue seco” e raras vezes lavavam as mãos ou os instrumentos que manuseavam. Tanto anfiteatros quanto hospitais eram imundos, a ponto de cheirarem à carne em putrefação e obrigarem médicos a andarem com lenços tapando o nariz. Não eram diferentes as cidades; Londres tinha uma igreja cuja cripta contava com 12 mil cadáveres em decomposição e muitas das ruas eram esgotos a céu aberto. 

Assim, viver naquela época era um perigo e só ia para a mesa de cirurgia quem já estava correndo sério risco de vida. Devido à falta de anestesias, antes de 1846, os médicos mais famosos eram aqueles conhecidos por operarem em velocidades assustadoras (menos de 30 segundos para amputar uma perna, por exemplo) e por serem fortes para poderem segurar seus pacientes. A descoberta da anestesia, hoje amplamente utilizada, a princípio trouxe mais mortes, pois os médicos já não tinham tanto medo de usar bisturis, “o que aumentou a incidência de infecções e choques pós-operatórios”.

É em meio a histórias como essas que o leitor vai conhecendo o ambiente histórico em que Lister vivia e começa a entender por que sua descoberta foi tão importante, embora não tenha sido aceita sem dificuldades. Muitas pessoas achavam que os microorganismos surgiam de maneira espontânea e inevitável, e os médicos não pareciam querer lidar com as ideias de Pasteur sobre a putrefação e a fermentação, que implicavam no fato de que “nos 15 ou 20 anos anteriores, eles podiam ter matado seus pacientes sem querer, por deixarem os ferimentos serem infectados por minúsculas criaturas invisíveis”. 

Um estudo de casos

Há duas obras recém-lançadas que se destacam por contar apenas casos médicos. A primeira é Anotações de um Jovem Médico, de Mikhail Bulgákov, um livro de contos baseados nas experiências reais que o autor vivenciou enquanto atuava como médico em um vilarejo da Rússia. O segundo é Medicina Macabra, de Thomas Morris. Uma obra de não ficção, com relatos que ocorreram entre o início do século 17 até o final do século 19, sendo a maioria retirada de revistas médicas da época. Segundo o autor escreve, transmitir esses casos curiosos e muitas vezes absurdos para os leitores tem sua importância, pois “por mais constrangedoras que sejam as enfermidades, por mais estranhos que sejam os tratamentos, todos esses casos expressam algo sobre as crenças e a sabedoria de uma época do passado”. 

E, realmente, há uma gama de enfermidades constrangedoras e tratamentos estranhos. Durante a leitura, encontramos relatos médicos de pessoas que tinham compulsão por engolir objetos — como o homem que ingeriu 35 canivetes e conseguiu viver por dez anos —, que sofreram com doenças ainda desconhecidas — como quando descobriram nos grãos a existência de um fungo, que provocava a gangrena de pernas e braços — ou ainda sobreviventes impossíveis — como o homem baleado na cabeça, que trinta anos depois teve a bala extraída pela garganta. 

Apesar de a maioria dos relatos acabar em morte, o bom humor percorre a escrita de Morris fazendo com que suas histórias fiquem menos tensas e sirvam de reflexão a como cada um dos casos clínicos ajudou a construir a medicina como a conhecemos hoje em dia. Por exemplo, sem um estetoscópio era difícil determinar se um indivíduo estava vivo ou morto, portanto os esforços empregados em reanimar uma pessoa podiam durar horas. Um dos métodos consistia em assoprar a fumaça dos cachimbos de tabacos pela boca e ânus da pessoa, num método chamado “fumigação alemã”. 

O mesmo era feito em casos de afogamentos numa época em que até a rainha da Suécia acreditou na história de um homem que diz ter sobrevivido após ficar 16 horas debaixo d’água, chegando a lhe conceder “uma pensão anual”. A técnica da fumigação foi tão importante durante um tempo que “tubos e foles para soprar fumaça de tabaco ‘fundamento adentro’ foram instaladas em lugares públicos, como cafeterias e barbearias — assim como os desfibriladores hoje em dia”, escreve Morris. 

Ainda mais arriscado do que isso eram as famosas sangrias (aplicadas, em alguns casos, até encher baldes) e os diversos remédios tóxicos prescritos, como mercúrio e arsênico. No século 17, excrementos, urina, sangue, suor, gordura de animais e até pó de múmia foram considerados medicamentos, provando que é possível acreditar em qualquer tipo de remédio caso não haja um bom método científico para testá-lo. O mesmo aconteceu no Brasil, quando pensaram que a naftalina ajudava a combater a malária, fazendo o preço subir. Naturalmente, ela não era eficaz. 

O presente e o futuro da medicina 

A ampliação da eletricidade permitiu que a “saúde pública moderna” passasse a existir a partir do fornecimento de água potável, vacinas e rede de esgotos. Mas se por um lado, o avanço da expectativa de vida foi enorme — indo de 48 anos em 1900, nos EUA, para 77 anos em 2000 — a maneira como o mundo é hoje, segundo os autores do livro O Inimigo Mortal, nos deixa “mais suscetíveis aos efeitos de doenças infecciosas do que éramos em 1918”, ano da gripe espanhola.

Isso ocorre porque as viagens, interações e trocas de mercadorias com outros países estão cada vez maiores e mais rápidas. Além disso, é inegável que muitas das doenças infecciosas humanas têm origem animal (como o próprio Covid-19, a gripe suína, a febre amarela e a dengue), e que cada vez mais humanos e animais se aproximam. Essa aproximação se deve pelo aquecimento global, pela superpopulação (que invade fisicamente os habitats naturais) e pelo maior consumo de carne.

Hoje, por exemplo, é estimado que existam aproximadamente 20 bilhões de galinhas no mundo. “Podemos passar por onze ou doze gerações de galinhas em apenas um ano. Cada uma dessas aves é um tubo de ensaio potencial no qual um novo vírus ou uma nova bactéria pode se reproduzir”, esclarecem os autores. Além disso, os cientistas também se preocupam com o uso desenfreado dos antibióticos, que atualmente é fundamental para garantir a “longevidade da nossa vida moderna”. No entanto, também é fato que cada vez mais teremos micróbios resistentes a esses remédios, o que pode vir a ser um grande problema. As chances aumentam mais ainda quando pensamos que os principais consumidores desses antibióticos são justamente os animais que comemos. “Agricultores industriais e pecuaristas compram antibióticos por tonelada”, explicam os autores. 

O livro também alerta que a saúde pública é uma questão que necessita da união de diversos países: “É mais difícil agora do que 40 anos atrás fazer com que a comunidade internacional trabalhe em conjunto para atingir um objetivo comum. Hoje, existem mais de 40 países com apenas uma capacidade mínima de governabilidade”. Para os autores, diante de uma pandemia, esses países entrariam em um verdadeiro colapso político, econômico e de saúde, portanto não seriam capazes de colaborar da maneira adequada.

Juntos, os livros recém-lançados fazem com que os leitores admirem os feitos que aumentaram a longevidade humana. Por outro lado, provocam o desejo de que líderes apostem em pesquisas sérias e em ciência. As futuras gerações, certamente, agradecem.

*Bruna Meneguetti é autora do romance histórico 'O Último Tiro da Guanabara' (editora Reformatório, 2019)

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