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O que as urnas revelaram sobre o PT no ABC paulista

Na visão do sociólogo José de Souza Martins, o PT se tornou mais um partido entre os outros em seu próprio berço

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo

15 Outubro 2016 | 21h21

Em face dos resultados das recentes eleições municipais, as oposições ao PT caíram na enganosa euforia de considerar que o partido foi aniquilado pelas centenas de prefeituras que perdeu no País inteiro. Do lado do PT, os equívocos não foram menores. O partido continuou a considerar o PSDB, mais que seu adversário, seu inimigo e grande responsável por sua derrota. Deixou de analisar o cenário político profundamente transformado desde a posse de Luiz Inácio na Presidência da República, em 2003.

Para compreender essas eleições, tomo como referência o ABC, que é o lugar emblemático do surgimento e afirmação do PT. Se examinarmos em detalhe a presença do Partido na governança dos sete municípios que o compõem, veremos que a região nunca foi propriamente petista. Chegou ao poder municipal não raro em disputas apertadas com outros partidos, como o PPS, o PV, o PSDB, o PTB, o PMDB, o PSB. Desde 2000, o eleitorado do ABC tende a dispersar-se em vez de concentrar-se em um ou dois partidos.

Ali, o declínio do PT se deve mais a fatores sociais, econômicos e geracionais do que a fatores ideológicos. Ao longo da ferrovia, uma sucessão de galpões industriais em ruínas e terrenos vazios de indústrias que foram demolidas documenta as transformações econômicas regionais. Em São Caetano e Santo André, imensos terrenos de grandes indústrias ou estão vazios ou foram ocupados por edifícios de apartamentos ou comerciais. A indústria se foi e os empregos industriais também. Em Santo André, o número de trabalhadores da indústria, desde 1970, caiu quase metade, reduzido a apenas um terço da população economicamente ativa. Em graus variáveis, isso ocorreu em todo o ABC, que se transformou numa região estritamente urbana, com significativa melhora nos índices de escolaridade, saúde e renda.

O ABC é hoje muito menos operário do que era na época das grandes assembleias do Estádio da Vila Euclides, onde Lula inflamava multidões nas greves de metalúrgicos de São Bernardo. Muitas indústrias se transferiram para outras regiões para lucrar com a elevação da renda da terra urbana e a venda de terrenos caros para compra de terrenos baratos em outros lugares. Produzir neles rendia menos do que especular com eles. Em boa parte, o PT foi derrotado pela renda da terra urbana. O decorrente deslocamento espacial da indústria, mas também a reestruturação produtiva das que ficaram na região, induzida pelo progresso tecnológico, foram fatores decisivos para o encolhimento do caráter operário do ABC e da base social do partido.

O ABC é hoje uma região de classe média afluente. Entre 2000 e 2010, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que mede o incremento na renda, na educação e na longevidade (e na saúde), permaneceu muito alto em São Caetano do Sul, passou de alto para muito alto em Santo André e São Bernardo, e passou para alto nos outros quatro municípios. O discurso petista sobre os pobres e a pobreza perdeu eficácia no ABC. Unicamente Rio Grande da Serra tem 9% de pobres e muito pobres. Nos três municípios mais ricos e com maior eleitorado, caem para cerca de 5%, sendo que em São Caetano são pouco mais de meio por cento. Se o nível de vida de São Caetano, o mais alto IDH do Brasil, um município não petista, é um indicador da tendência pode-se prever que também nos outros municípios o comportamento político irá, como está indo, em sentido adverso ao PT. Portanto, estas eleições apenas confirmaram o que é natural em casos assim: nova geração chega ao cenário político, baseada em nova realidade social e apoiada em nova e diferente compreensão dos fatos. O PT se tornou ali apenas um partido entre outros, que lhe estavam no encalço há 20 anos e que o venceram nas eleições de agora.

Se, por um lado, a derrota do PT na região do ABC não se explica pelos precários parâmetros de compreensão do processo político que o partido adota, tampouco explica o elenco de vitórias em pequenos municípios espalhados pelo Brasil. É o caso dos Estados do Sul, especialmente o Rio Grande, e é o caso de Estados do Nordeste, especialmente Piauí, Bahia e Ceará e, no Sudeste, o caso de Minas Gerais. Foi neles onde o PT, apesar da derrota geral, conseguiu um número não desprezível de vitórias. Nessas localidades, a vitória eleitoral foi a derrota ideológica do partido. No conjunto, comparando os resultados do ABC com os dessas regiões, o que se pode concluir é que foi derrotado o PT da luta de classes. Em compensação, saiu de algum modo vitorioso o PT das concepções comunitárias, onde não se pode deixar de ver o efeito residual da ação pastoral da Igreja.

As eleições municipais apontam uma diversificação dos partidos propriamente nacionais, aqueles que têm eleitorado eficaz em todo o País. Além de partidos hegemônicos óbvios, como PMDB e PSDB, chama a atenção o crescimento da importância de partidos da faixa média dos resultados, como o PSB, o PPS, o PDS, o PRB, ligado a uma igreja evangélica. Venceu a pluralidade ideológica.

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