Nilton Fukuda/Estadão
Hélio de Seixas Guimarães, estudioso da obra de Machado de Assis Nilton Fukuda/Estadão

O que Drummond, Rubem Braga e outros escritores achavam de Machado de Assis?

Livro reúne textos de grandes autores brasileiros sobre o Bruxo do Cosme Velho

Flávio Ricardo Vassoler*, Especial para o Estado

09 de maio de 2020 | 16h00

A editora Imprensa Oficial acaba de publicar o segundo volume da obra Escritor por Escritor: Machado de Assis Segundo seus Pares, que conta com a organização de Ieda Lebensztayn, doutora em Literatura Brasileira pela USP, com pós-doutorados na mesma área pelo Instituto de Estudos Brasileiros e pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, ambos ligados a USP, e Hélio de Seixas Guimarães, professor de Literatura Brasileira da USP.

Se o primeiro volume cobre o período de 1908, ano da morte de Machado, até 1939, ano do centenário do autor, e conta com textos críticos sobre a obra de Machado de autoria de importantes intelectuais e escritores, tais como Euclides da Cunha, Olavo Bilac, Lima Barreto, Mário de Andrade e Monteiro Lobato, o segundo volume, que vai de 1939 a 2008, nos brinda com análises e documentos de autores da envergadura de Ariano Suassuna, Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Glauber Rocha, Graciliano Ramos, Lygia Fagundes Telles, Oswald de Andrade e Rubem Braga, entre outros. 

No prefácio O Sorriso do Bruxo no Espelho de Escritores, Ieda Lebensztayn discorre sobre a importância de Escritor por Escritor não só para iluminar a obra de Machado segundo seus pares, mas também para trazer à tona diálogos com as próprias criações dos autores que contribuem para a fortuna crítica machadiana: “Na medida em que refletiram sobre a vida e a obra de Machado de Assis, contemplando os vários gêneros a que ele se dedicou – romance, conto, crônica, crítica, teatro, poesia –, esses ficcionistas e poetas enriqueceram a fortuna crítica, contribuindo para se conhecerem e compreenderem melhor nosso grande escritor e o contexto histórico de sua época e até nossos dias. Ao mesmo tempo, ao desenvolverem interpretações sensíveis a respeito da singularidade de Machado, esses escritores deixam ver marcas da constituição de suas próprias literaturas”. 

Ieda Lebensztayn também nos revela que, em mais de um século de fortuna crítica, somam-se imagens concernentes ao estilo de Machado, “joia de ouro de ideias, incrustada de ironia”, como destaca o poeta e romancista Antônio Sales. E merecem atenção sobretudo figurações do sorriso de Machado, a apontar como a ambiguidade entre ‘galhofa e melancolia’ inquieta os leitores. Além da rematada ironia, zombeteira e tragicamente pessimista, a organizadora elenca outros tópicos recorrentes da fortuna crítica e nos apresenta o homem Machado em seu cotidiano: “Também aqui comparecem a ausência de quintais, de descrições da natureza, o abstencionismo político, a sutileza da representação do erotismo, a impassibilidade, o relativismo de tudo. Ao mesmo tempo, recordações de contemporâneos deixam ver a face de afabilidade por trás da máscara, junto com a seriedade e o empenho pelo trabalho e pela criação de sua obra e da Academia Brasileira de Letras”. 

Entre os textos que compõem Escritor por Escritor, destaco O Retrato, do poeta Carlos Drummond de Andrade, em que o autor aguça nossa empatia ao revelar que o filho do doutor Carneiro de Sousa Bandeira, amigo de Machado, costumava conversar com o escritor a bordo de um bonde no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. À época um jovem colegial, o recifense e futuro poeta Manuel Bandeira falava sobre literatura com um Machado que, a despeito de seu pessimismo existencial, se lhe mostrava bastante afável. 

Vale muito a pena, ademais, a leitura de Fala Machado, diálogo entre o escritor e cronista capixaba Rubem Braga e o próprio Machado, ao longo do qual o primeiro formula perguntas e invoca o segundo nas respostas: “Eu podia usar o espiritismo ou a imaginação, mas preferi compor as respostas de Machado com palavras rigorosamente suas, frases tiradas de crônicas, romances ou contos”. 

É assim que, diante da pergunta “E esses camaradas que estão sempre na oposição?”, desponta como resposta um trecho do romance Esaú e Jacó que, talvez, sintetize o Brasil dos últimos anos: “O homem, uma vez criado, desobedeceu logo ao Criador, que aliás lhe dera um paraíso para viver; mas não há paraíso que valha o gosto da oposição”. Quando Braga interpela Machado sobre o valor do trabalho, lemos um fragmento da crônica A Semana: “O trabalho é honesto, mas há outras ocupações pouco menos honestas e muito mais lucrativas”. Em tempos de polpudas ajudas públicas a instituições financeiras e mirradas contribuições estatais para os desempregados e desvalidos da crise econômica acirrada pelo coronavírus, tal colocação bem nos mostra por que Machado de Assis, em sua argúcia sempre atual, era chamado de “bruxo”. 

*FLÁVIO RICARDO VASSOLER É DOUTOR EM LETRAS PELA USP, COM PÓS-DOUTORADO EM LITERATURA RUSSA PELA NORTHWESTERN UNIVERSITY. É AUTOR DE ‘DIÁRIO DE UM ESCRITOR NA RÚSSIA’ (HEDRA, 2019).

Tudo o que sabemos sobre:
Machado de Assisliteratura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Contos raros e inéditos em livro de Machado de Assis são reunidos

Coletânea tem pérolas praticamente esquecidas do Bruxo do Cosme Velho

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2020 | 16h00

Ao apresentar ao leitor a antologia Contos (Quase) Esquecidos de Machado de Assis, o crítico literário João Cezar de Castro Rocha, professor titular de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), faz um pequeno prólogo em que analisa o papel de Shakespeare na literatura do escritor brasileiro, em particular a estrutura de sua peça Henrique V. O título desse prólogo, A Plasticidade do Clássico, remete a uma palestra proferida pelo poeta T. S. Eliot (1888-1965) em outubro de 1944, na Virgil Society. Em tempos de guerra, com bibliotecas e livrarias fechadas, situação semelhante a que enfrentamos nesta pandemia, Eliot lamentava não ter acesso ao famoso ensaio de Sainte Beuve sobre o que significa um clássico. Assim, foi obrigado a refletir sobre a pergunta sem a ajuda do texto do crítico francês (1804-1869). Eliot, elegendo Virgílio como o clássico europeu por excelência, passou a discorrer sobre seu legado, afirmando que o autor da Eneida era incontornável. Um clássico, portanto. 

O mesmo se pode dizer de Shakespeare e Machado de Assis. Eliot, nessa conferência, associou a palavra clássico à maturidade. Um clássico, justificou, só pode emergir numa sociedade madura. É a importância de uma civilização e sua linguagem o que dá ao clássico sua universalidade. Christopher Marlowe (1564-1593), comparou Eliot, podia ser bom como Shakespeare (1564-1616) na juventude, mas dificilmente seria Shakespeare, até mesmo por ter morrido jovem (numa briga de taverna) e não ter atingido a maturidade. Uma literatura madura, concluiu Eliot, tem a história por trás dela. Assim também os grandes autores. Dante, para Eliot, era um clássico porque em sua Divina Comédia se percebe claramente a presença dos clássicos na moderna literatura europeia, embora Dante fosse mais “provinciano’ que seu ídolo Virgílio, seu guia em sua peregrinação pelo espaço metafísico, cuja missão, segundo Eliot, foi revelar a Dante uma visão a que jamais teria acesso sem seu mentor. Já Chaucer, segundo ele, não se equipara a nenhum dos dois.

Claro, é possível alegar que se trata de um ponto de vista particular, mas quando muitos consideram Machado de Assis um clássico, a ponto de entrar no cânone de exigentes críticos estrangeiros (Harold Bloom, para citar apenas um deles), não há muito o que se discutir sobre a pertinência de classificar o autor brasileiro de “clássico”. A literatura brasileira moderna se divide entre antes e depois de Machado. Quem mais poderia, no século 19, redefinir o velho diálogo entre Adão e Eva com reticências, exclamações e pontos de interrogação, como fez o autor, em 1880, em Memórias Póstumas de Brás Cubas (o conteúdo da conversa entre Brás Cubas e Virgília, no capítulo 55, resume-se a linhas pontilhadas que sugerem um ato um tanto licencioso entre ambos).

Dito isto, passemos à antologia publicada pela editora Filocalia. Nela estão agrupados 30 contos, 11 deles (das duas centenas que escreveu) nunca coletados em livro pelo autor e todos abordando temas que eram caros a Machado: a música, a literatura, a filosofia, a política e a escravidão. Alguns foram publicados em livros como Contos Fluminenses (1870). Histórias da Meia-Moite (1873), Papéis Avulsos (1882) e Relíquias de Casa Velha (1906), o derradeiro. Outros fogem do cânone machadiano. Castro Rocha se debruçou sobre o autor em formação, não no Machado consagrado, adotando o critério cronológico em sua seleção.

Da divisão temática eleita pelo organizador, os contos que relacionam música e literatura confirmam a afinidade de Machado com o mundo lírico. A história de Inácio, filho de um instrumentista da capela imperial, que aos 10 anos já mostrava um talento incomum para a música, introduz o leitor nesse universo (no conto O Machete) ao mesmo tempo austero e sensual. Violoncelista, ele perde o pai e a mãe e, ao tocar pela primeira vez para a mulher Carlotinha, decepciona-se ao perceber que vivem em mundos diferentes. O que é belo para ela, é severo e melancólico para ele. No final, a loucura toma conta de sua alma solitária e traída, que encontrou na vida poucos interlocutores.

Em Um Homem Célebre (1888), Pestana, frustrado compositor de polcas com sonhos de compor sinfonias (nunca esquecendo que Machado era um beethoveniano ardente), se vê dividido entre o sucesso popular de suas polcas e o mundo erudito, incorporando uma dúvida que paira sobre o exercício de muitos músicos brasileiros do período. Igual drama é vivido por outros personagens na primeira parte da antologia, destacando-se entre eles o de Romão no conto Cantigas de Esponsais (1883), um maestro paralisado diante de sua inabilidade como compositor.

Na segunda parte da antologia, o organizador Castro Rocha chama a atenção para a violência de sociedades escravocratas como a brasileira, citando em especial o conto Mariana (o de 1871, pois existe outro com o mesmo título). A coragem de Machado de denunciar a impossibilidade do diálogo interclassista e inter-racial no Brasil do século 19 já derruba qualquer argumento contemporâneo de que o escritor foi omisso em relação ao preconceito e à escravidão, sendo ele mesmo descendente de negros. Machado não só manifestou seu repúdio à hipocrisia dos brancos como culpa os caucasianos europeus de provocar a morte dos afrodescendentes. Mariana, apaixonada pelo sinhozinho branco, toma veneno, forma de sair de um mundo que finge aceitar os negros, mas só na aparência. Foi esse Brasil janusiano que Machado retratou em seus contos.

Tudo o que sabemos sobre:
Machado de Assisliteratura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.