O que o Catar quer em Gaza?

A atual participação de Doha nos negócios palestinos tem muito mais a ver com seu relacionamento com o Irã do que com Israel

DAVID ROBERTS, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2012 | 03h11

Uma tendência profundamente contrária está se espalhando no Catar. Protegida pelas garantias de segurança oferecidas pelos Estados Unidos, ansiosa por usar suas enormes reservas fiscais e animada pelo fervor reformista de suas elites, Doha continua exercendo uma influência desproporcional na política regional. O último gesto do emir Hamad bin Khalifah al Thani foi sua sensacional visita à Faixa de Gaza, com a qual se tornou o primeiro chefe de Estado a visitar o território palestino desde que o Hamas assumiu seu controle, em 2007.

Ao contrário de alguns dos seus rivais árabes com menos imaginação, o Catar considerou o isolamento regional do Hamas uma oportunidade, não um problema. Apesar de sua aliança com os EUA, Doha vem alimentando vínculos com o grupo islamista palestino: seu segredo mais mal guardado é que Khaled Meshal, o líder do Hamas, há muitos anos tem uma casa na capital catariana, onde é visto com frequência cada vez maior desde que o Hamas foi obrigado a sair da Síria, no início de 2012. Além disso, Doha abriu a carteira para o Hamas, com a promessa de US$ 250 milhões em fevereiro - presente que aumentou para US$ 400 milhões na visita do emir.

Entretanto, essa injeção de recursos não é o aspecto mais importante da viagem do xeque Hamad. Ao quebrar o isolamento regional do Hamas, reconhecendo explicitamente o controle deste sobre Gaza, Doha fortaleceu a posição do grupo militante contra seus rivais palestinos. Um representante da Autoridade Palestina, que governa a Cisjordânia, saudou com má vontade a visita, destacando que "ninguém deveria tratar Gaza como uma entidade separada dos territórios palestinos e da Autoridade Palestina". Ao contrário da AP, Israel não achou necessário abrandar as críticas. Um porta-voz israelense recriminou energicamente a viagem do emir, afirmando que ele estava "matando a paz".

A visita ressaltou ainda mais a perda de influência de Israel sobre o Catar. As relações entre os dois países se revigoraram quando Israel abriu uma representação comercial em Doha, em 1996 (supostamente perto da casa de Meshal), na ocasião em que as duas partes pretendiam vender gás catariano a Israel, com intermediação da Enron. Mas o acordo fracassou e as relações tiveram altos e baixos até dezembro de 2008, quando o Catar reclamou da ofensiva israelense contra o Hamas na Faixa de Gaza. Os boatos segundo os quais Doha tentava reiniciar as relações cessaram com o vazamento de um memorando da chancelaria israelense que definia o Catar como um "dos principais ativistas" contra Israel, cortando decisivamente as eventuais relações informais que continuavam existindo.

A questão iraniana

O Irã, com o qual o Catar mantém cordiais relações oficiais, aliou-se a Israel e à Autoridade Palestina num triunvirato que observa os acontecimentos em Gaza com sombria resignação. As autoridades de Teerã lembram com saudade de quando o Hezbollah, que atuava em seu nome, quase derrotou a entidade sionista - o que valeu ao Irã considerável apoio árabe por sua ajuda material à organização militante libanesa. Naquela época, o Hamas também procurava refúgio do lado iraniano e a Síria era um aliado estável que parecia aumentar gradativamente sua influência no Oriente Médio.

Na realidade, embora Israel e a Autoridade Palestina talvez lamentem o apoio do Catar ao Hamas, o principal perdedor nesse drama é o Irã. A visita do emir faz parte de uma estratégia mais ampla do Catar para desestabilizar e reorientar os aliados cruciais iranianos ao redor do Oriente Médio - e, por extensão, amputar um membro efetivo da política externa do Irã. Trata-se de uma estratégia explícita, e o Irã não a aceitará nem poderá aceitá-la sem opor resistência.

Essa nova política é mais evidente na Síria, onde o Catar financia abertamente o levante que dura 19 meses, inclusive com armamento, ou pelo menos com armas leves - quase uma declaração de guerra contra o presidente Bashar Assad, o aliado principal do Irã.

Mas o novo ativismo do Catar também é evidente em Gaza, onde Doha provavelmente decidiu agir precisamente por causa do rompimento do Hamas com o Irã. Quando Teerã parou de mandar dinheiro ao Hamas depois que o grupo deixou de apoiar publicamente o aliado problemático do Irã na Síria, o Catar viu uma oportunidade de separar o grupo palestino do país que o patrocinara durante muito tempo. Embora a doação de US$ 400 milhões se destine à ajuda humanitária, não só esse apoio é intercambiável como, indubitavelmente, outros arranjos financeiros estarão sendo feitos entre o Catar e o Hamas na Faixa de Gaza - fortalecendo ainda mais os vínculos entre o movimento islamista palestino e Doha.

Evidentemente, essa medida atrairá outra série de especulações de que o Catar estaria apoiando a ascensão da Irmandade Muçulmana no mundo árabe. Por outro lado, já não há dúvida de que o Catar financia a Irmandade - de fato, o país nem procura esconder suas iniciativas para engajar-se no movimento islamista no Egito, Tunísia, Líbia, Síria e agora com o Hamas, outra ramificação da Irmandade. Entretanto, o Catar não tenta, de modo nefando, substituir o Crescente Xiita pelo crescente da Irmandade, indo da Síria através de Gaza e do Egito, até a Líbia e a Tunísia. Doha é muito mais pragmática e menos maquiavélica: ela procura valorizar suas relações onde existem e busca apoiar os partidos muçulmanos populares, eficientes e moderados com os quais mantém relações.

O papel de vanguarda assumido pelo Catar no enfraquecimento de um aspecto fundamental da política externa iraniana indica que Doha deve sentir-se profundamente segura em seu relacionamento com Teerã, pois dificilmente adotaria medidas tão agressivas se se sentisse imediatamente ameaçada. Na realidade, existe um aspecto comum muito delicado entre as duas potências regionais: o Catar e o Irã compartilham da maior reserva de gás do mundo, que foi responsável pelo aumento repentino da riqueza do Catar. Tradicionalmente, isso tem significado que o Catar passou a tratar o Irã com muito respeito. As relações foram sendo melhoradas cuidadosamente nos anos 1990, quando as reservas começaram a ser exploradas, e Doha procurou evitar uma escalada depois de numerosos ataques por parte do Irã, que inclusive roubou equipamentos das plataformas de gás não tripuladas do Catar.

Hoje, as relações do Catar com o Irã são, pelo menos a crer nas aparências, tranquilas como sempre foram. Entretanto, o fato de o Catar estar derrubando um dos dogmas fundamentais de sua política externa antagonizando o Irã constitui uma ação surpreendente e direta da elite catariana, que claramente não aceita limites convencionais ao que é ou não é possível no Oriente Médio. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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