O que pensam os especialistas

?Estão protegendo um espaço que deve ser preservado a qualquer custo?

O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2009 | 22h17

REGINA CHIARADIA

PRES. DA ASSOC. DE MORADORES E AMIGOS DE BOTAFOGO

É evidente que qualquer muro segrega. No entanto, a discussão sobre a construção de ecolimites nas encostas dos morros não trata da criminalização da pobreza ou segregação social. A questão é a falta de uma política ambiental eficaz para acabar com a degradação da área verde do Rio de Janeiro. Não estão colocando portões nas favelas cariocas. O que está sendo feito é proteger um espaço vivo que deve ser preservado a qualquer custo. Vale lembrar que, inicialmente, o ecolimite era feito de cerca viva. Depois, cabos de aço e trilhos de trem tentaram isolar a mata atlântica. Infelizmente, o discurso da conscientização da população em relação ao meio ambiente não foi suficiente. Claro que a medida é drástica, mas somente atitudes radicais podem diminuir a devastação. As regiões comprometidas não devem ter casa, mansão ou barraco, isto é, a proibição da invasão independe da classe social. Preservar é como educar: implica impor limites. Sem contar que os benefícios do isolamento serão coletivos. Afinal, a mata pertence a todos nós.

?Eliminamos a possibilidade de construir um meio comum?

ALVARO PUNTONI

PROFESSOR DA FAU-USP E DA ESCOLA DA CIDADE

Construir uma barreira ou limite para as favelas, além de ser um elemento segregador, é uma ação infeliz que, se tem a pretensão de resolver a questão urbana ou ambiental, na verdade se esquiva dela. Lamentavelmente vivemos em um momento no qual é consenso que a melhor alternativa seria instalar o muro: fechar e isolar como solução para uma situação construída por nossa incapacidade histórica de discutir e desenhar uma sociedade mais justa e, portanto, com espaços que reflitam isso. Esquecemos que, ao cercarmos as comunidades, não estamos protegendo ou guardando, mas eliminando o diálogo e a possibilidade de construir um meio comum e coletivo da existência, além do próprio fortalecimento da urbanidade. Com a construção, geramos mais violência e insegurança. Fica uma pergunta: de que lado do muro estamos? Sempre temos de lembrar que do outro lado estamos nós mesmos. Está na hora de deixarmos de erguer os muros, de desfazer os que existem. Vamos evitar o desastre e conceber um futuro comum e, somente, melhor.

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