O que pensam os especialistas

"A idade não é o único critério que define um transplante"

O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2009 | 01h13

PAULO MASSAROLLO

CHEFE DO SERV. DE TRANSPLANTES DE FÍGADO NA SANTA CASA - SP

Quando o Ministério da Saúde decide que crianças e adolescentes terão prioridade na fila de transplantes, fica claro que a medida atende a um anseio da sociedade. O atendimento prioritário aos mais novos está inclusive previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente. Além disso, crianças podem sofrer danos irreparáveis caso não realizem o transplante num curto espaço de tempo. Mesmo com a nova regulamentação do Sistema Nacional de Transplantes, não é correto dizer que a idade seja o único critério que define um transplante. Cada caso deve ser analisado separadamente. No que diz respeito às doações de rim, por exemplo, a compatibilidade imunológica entre o doador e o receptor é fator primordial na hora da escolha. Já em relação à doação de fígado, muitas vezes o mesmo enxerto é divido entre a criança e o adulto. Em vez de criar uma competição entre os pacientes, o órgão passa a ser compartilhado. A idade é um fator, sim, que pode definir um transplante. Mas outros fatores também pesam na decisão.

"É natural que tenham prioridade aqueles com expectativa de vida maior"

MARCO SEGRE

PROF. EMÉRITO DE MEDICINA LEGAL E BIOÉTICA DA USP

A resposta à pergunta é favorável à postura do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, referente à priorização de crianças e adolescentes nas filas de candidatos ao transplante de órgãos vitais, como fígado, rins, coração, pulmões e pâncreas. A reflexão não é tão complexa assim: parece justo que tenham prioridade - para continuar vivendo - aqueles com uma expectativa de vida maior. Essa aparente desvalorização da maioridade, e da senectude, pode até mesmo ferir nossos sentimentos, culturalmente provenientes da ideia de uma sociedade mais igualitária. Poder-se-á inclusive alegar que, com a morte de um adulto, perde-se um cabedal de conhecimentos e de experiências que uma criança e um adolescente certamente ainda não possuem. O fator afetivo pesa, entretanto, como em qualquer decisão, fazendo-nos propender a proteger prioritariamente essas crianças e esses jovens. Enfim, embora o anúncio de mudanças no sistema de transplantes venha a despertar grande polêmica, parecem-me bastante numerosos os pontos favoráveis a essa medida.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.