O que pensam os especialistas

>>"Mais uma hipocrisia alimentada pela turma do politicamente correto"

O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2009 | 00h41

RODRIGO BRAGA

EDITOR DE ESPORTES DO "JORNAL DE SANTA CATARINA" (BLUMENAU)

Essa polêmica está carregada de hipocrisia. Não consigo ver nada de errado em um time estar mais motivado a buscar o objetivo maior do esporte, o triunfo, mesmo que por meio de ajuda financeira de um terceiro interessado. Tampouco aceito a comparação com suborno. Se motivação a mais é ilegal, então acabemos com os discursos melosos no vestiário, recortes de jornal, palestras de autoajuda e todas as motivações extras. Tem outra: um time apenas cumprindo tabela é um desanimado por natureza. Logo, o adversário será favorecido por esse estado de espírito. Então, o que há de errado em dar um motivo para que os dois times entrem em campo em condições iguais em termos de interesse? A mala branca faz parte do futebol, não é ilegal nem imoral e não merece esse circo. Muitos pensam assim, mas têm pavor de defender em público coisas que não sigam a maldita ditadura do politicamente correto. Fazem-se de chocados, pregam um moralismo de fachada e dão espaço para as malas de verdade, como a turma do STJD, aparecer. Por isso o futebol anda tão chato.

>>"O atleta que aceita dinheiro para se esforçar está aberto a outros pecados"

JOSÉ REINALDO G. CARNEIRO

PROMOTOR DE JUSTIÇA EM SÃO PAULO

A retomada da discussão sobre a mala branca é compatível com um país de legislação amorfa. Por aqui nada parece ser crime. Cambismo, violência e fraude esportiva ainda não emplacaram no Estatuto do Torcedor. A máfia do apito (esquema de manipulação de resultados desvendado em 2005) permanece impune. Apesar desse cenário, não tem sentido condicionar o jogador a receber incentivo externo para vencer partidas. A superação de esforços para a vitória, sempre acompanhada de premiações internas, já é algo implícito no contrato de trabalho que eles celebram com o clube. Basta pensar ao contrário: quando o torcedor vai ao estádio de futebol, age com a perspectiva de que seu clube do coração dará o melhor pela vitória. Descobrir que ela possa ter escapado por falta de empenho (leia-se, ausência de recebimento da tal mala), interfere na crença sobre a seriedade do esporte. O atleta que aceita dinheiro alheio para se esforçar está aberto ao cometimento de outros pequenos pecados. No mínimo, atenta contra a fé no futebol.

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