O que pensam os especialistas

''Perder esse jogo é levar a rivalidade a um extremo doentio, desonrando-se''

O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2009 | 03h39

EMERSON GONÇALVES

AUTOR DO BLOG "OLHAR CRÔNICO ESPORTIVO", DO GLOBO ESPORTE

Entregar? Jamais! Gremistas pedem que seu time entregue o jogo, impedindo que o grande rival conquiste um título importante. É compreensível? Sim. É correto? Não. De forma alguma. Entregar o jogo, não importa o motivo, é negar o esporte, é ignorar a ética, é desprezar o regulamento, é colocar a paixão acima da razão. Se o coração tem razões que a própria razão desconhece, nem por isso podemos permitir que elas dominem nossas ações. Há limites para a paixão e é saudável e necessário que assim seja. Entregar esse jogo é levar a rivalidade a um extremo doentio, aviltando-se, desonrando-se, só para prejudicar o rival. Porém, mais que o efeito esportivo, preocupa-me a lição que está sendo passada a milhões de crianças e jovens. É essa a visão de mundo e comportamento que desejamos transmitir-lhes? Levar vantagem acima de tudo, mesmo à custa da própria honra? Assim, fica fácil entender o comportamento das autoridades "republicanas". Fica fácil entender os mensalões e outras excrescências que nos acompanham desde sempre.

''Exigir que o Grêmio vença é uma violência. Não é caso de moral ou ética''

DIOGO OLIVIER

REPÓRTER ESPECIAL E COLUNISTA DO JORNAL ZERO HORA

Quando escreveu acerca dos desejos e anseios das massas, Freud nem sequer cogitava aplicar suas teses ao futebol. Menos ainda ao Campeonato Brasileiro. Pois, se estivesse vivo, agora correria uma lágrima de emoção pelo rosto do descobridor do inconsciente. Poucos episódios comprovam de forma tão clara o conflito das duas lógicas, a da razão e da paixão, como o emblemático jogo entre Flamengo e Grêmio, no qual gremistas operam vigília cívica para seu time fazer de tudo no Maracanã - menos vencer e ajudar o Inter, o rival centenário, a ser campeão. Futebol é paixão. Paixão da torcida. E a paixão da torcida, ou das massas, como ensinou Freud, às vezes é cega. É evidente que está errado entregar o jogo. Mas, como esperar que uma horda de apaixonados por um time - seja ele Grêmio, Inter, Palmeiras, Corinthians, São Paulo, não importa - exija que seu clube lute por um título para o maior rival, se a paixão do futebol é entremeada justamente no tecido da rivalidade? Neste sentido, o Grêmio vencer o Flamengo é uma violência. Não há questão moral ou ética envolvida.

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