O que restou de concreto

Dezoito anos depois da queda do Muro de Berlim, sobrevive a força da resistência civil

Timothy Garton Ash, BERLIM, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2007 | 22h14

Lembrar, lembrar o 9 de novembro. Mas quem lembra? Se você não tivesse lido o topo deste artigo, saberia instantaneamente que me refiro ao dia em que o Muro de Berlim caiu, há 18 anos? As datas envelhecem mais rápido que nós, disse o poeta Robert Lowell. Isso quase sempre é verdade.Para uma geração anterior de habitantes da Europa Central, o 9 de novembro significava a Reichskristallnacht, a "noite do cristal quebrado", em 1938, quando capangas nazistas deixaram as ruas de Berlim cheias de cacos das vitrines dos judeus. Para aqueles ainda mais velhos, o dia lembrava a tentativa de golpe de Hitler em 8-9 de novembro de 1923. Cada 9 de novembro suplanta o anterior. Talvez daqui a alguns anos - que Deus não permita - haja uma tentativa de ataque terrorista em Berlim (fracassada, esperemos) num 9 de novembro, obrigando os alemães a decidir se chamarão o evento de 9/11, no formato europeu, ou 11/9, no formato americano.Na semana anterior, passei uma tarde com um velho amigo alemão-oriental mostrando a meu filho mais novo, que tinha 3 anos em 1989, os lugares onde o muro ficava. Não sobrou muita coisa: alguns poucos trechos de concreto velho e areia revolvida (outrora a "faixa da morte", onde candidatos a fugitivos da então Alemanha Oriental eram mortos a tiros), fotos granuladas de museu, um rude e enferrujado memorial. As ruínas de Persépolis são mais vivas. Para nós que estávamos lá, a experiência - tanto a sensação do longo aprisionamento de nossos amigos quanto o momento mágico da libertação - é inesquecível, gravada na memória, transformadora da vida; mas explicá-la a alguém que não estava lá requer o esforço de evocação de um romancista. "Para sentir como era" (Fuehlen, wie es war), diz a legenda de um jornal local sob a foto de crianças esticando os dedos para tocar uma réplica de plástico do muro, multicolorida e com iluminação interna, erguida por um artista coreano diante do Portão de Brandenburgo. Ou melhor: como não era.Esse caráter remoto não é só resultado da idade ou da distância física. No jantar, perguntei ao filho mais velho de meu amigo alemão oriental - que, aos 21 anos, escapou pela cortina de ferro perfurada rumo à Hungria e à Áustria no verão de 1989 e agora é um padre em Berlim Ocidental - o que seus paroquianos achariam se, no próximo domingo, ele fizesse um sermão baseado em sua experiência. Não muita coisa, disse ele. A congregação berlinense-ocidental provavelmente pensaria: lá vem ele de novo, nos importunando com suas reminiscências orientais. Como a família entediada quando o pai começa a contar, pela enésima vez, suas histórias de veterano do Vietnã ou da 2.ª Guerra Mundial.Mas imaginem o caso de uma jovem nascida na manhã de 9 de novembro de 1989 aqui em Berlim Oriental, onde escrevo este artigo, que portanto completou 18 anos sexta-feira. Como ela celebraria e refletiria sobre seu ingresso na maioridade? "Exatamente como alguém na Espanha ou na Grã-Bretanha", disseram meus amigos. A Espanha é provavelmente uma comparação melhor. Existe, é claro, uma sensação generalizada de que houve um passado negro e triste no país, antes do nascimento de várias pessoas - como a sombra da ditadura de Franco para uma jovem em Madri. Mas isso tem uma relevância apenas marginal para nossa vida hoje.Então, por que esse evento memorável, considerado por muitos historiadores o marco do fim do "breve século 20", desapareceu tão rapidamente da experiência viva? Talvez porque, ao contrário de, digamos, 4 de julho, ele não inaugurou algo grande que ainda está conosco (por exemplo, os Estados Unidos). Foi mais um grande fim do que um grande começo.Na manhã seguinte, havia grandes perguntas no ar. A Alemanha poderia (e deveria) ser pacificamente unificada? O comunismo, que abolira praticamente toda a propriedade privada, castrara o domínio da lei e substituíra a democracia pela "ditadura do proletariado", poderia (e deveria) ser transformado novamente em capitalismo? Como dizia a piada na época: sabemos que é possível transformar um aquário em sopa de peixe; mas é possível transformar a sopa de peixe novamente num aquário? Dezoito anos depois, essas questões foram respondidas. Sim, é possível. Passando de carro pelo centro de Berlim Oriental, notei uma loja alternativa, de estilo hippie, que trazia escrita na porta uma paródia das famosas placas em Berlim na Guerra Fria, que diziam: "Você está deixando agora o setor americano" (Berlim Ocidental, ou seja, atravessando para o setor soviético, ou Berlim Oriental). O aviso paródico dizia: "Você está deixando agora o setor capitalista". Mas isso não é verdade. Mesmo entre os incensos e colares daquela loja alternativa, reinava o capitalismo.A prova definitiva do triunfo do capitalismo pode ser vista num chamativo anúncio em cores que enfeitou as páginas da Economist e do Financial Times nos últimos dias. Ele mostra um Mikhail Gorbachev pensativo, sentado no banco traseiro de um carro. Pelo vidro de trás, é fácil enxergar um dos poucos trechos remanescentes do Muro de Berlim. Ao lado de Gorbachev está uma bolsa de couro da Louis Vuitton, a marca de luxo para a qual essa figura histórica e herói de nosso tempo agora faz propaganda. Dezoito anos depois, isso me parece um ícone perfeito da época em que vivemos.Então o que permanece daquela incrível noite de novembro, quando as pessoas fizeram a própria história ao dançar no Muro? "Was bleibt?", perguntou, pesarosa, a escritora alemã-oriental Christa Wolf. À parte nossas memórias que se desvanecem, existe, acredito, pelo menos uma coisa que sobrevive e tem futuro. A queda do muro talvez seja a imagem mais famosa do triunfo do que chamamos em inglês de "resistência civil" - isto é, a ação popular não violenta. Ela foi antecedida por grandes manifestações pacíficas em Leipzig e outras cidades alemãs-orientais. Como me disse um trabalhador alemão-oriental na época: "Veja, isso mostra que Lenin estava errado. Lenin dizia que uma revolução só pode ter sucesso com violência, mas essa foi uma revolução pacífica".A "revolução das velas" alemã-oriental, como alguns a apelidaram na época, teve predecessoras, das campanhas não violentas de Gandhi e Martin Luther King ao Solidariedade na Polônia. Ela também tem muitas sucessoras, da Revolução de Veludo em Praga, ocorrida dias depois, à África do Sul, Eslováquia, Sérvia, Ucrânia e, mais recentemente, os protestos liderados por monges budistas em Mianmar (rotulada precipitadamente de "revolução açafrão") e as atuais manifestações de advogados de ternos sóbrios no Paquistão (deve-se esperar um rótulo de "revolução dos advogados", supondo que ele ainda não tenha sido usado por nenhum jornalista).Estou envolvido num projeto de pesquisa fascinante, liderado por Adam Roberts, meu colega da Universidade de Oxford. O estudo analisa muitos desses casos de uso da resistência civil e tenta explicar por que alguns deram certo e outros, não. Coragem, imaginação e a organização hábil de protestos pacíficos não bastam se outros fatores de poder (o Exército e a polícia, uma potência colonial, Estados vizinhos, a mídia internacional, forças econômicas) não forem suficientemente presentes, benignos ou receptivos. Você precisa de seu Gorbachev, seu Helmut Kohl, suas câmeras de televisão ocidentais e, não menos importante, seus líderes partidários que se rendem sem um tiro disparado por ódio; mas você também precisa dos cidadãos nas ruas, com suas velas, suas faixas, seus cantos criativos e a força absoluta e pacífica da multidão. Sem eles, não há revolução. Com eles, é possível mudar o rumo da história mundial, mesmo face a uma superpotência nuclear. Assim, a data pode se desvanecer, mas o exemplo vive. * Timothy Garton Ash é professor de estudos europeus na Universidade de Oxford e autor de um relato em primeira mão da revolução de 1989, The Magic Lantern (A LanternaMágica), publicado em várias línguasSEXTA, 9 DE NOVEMBROPedra sobre pedra O Muro de Berlim caiu há 18 anos, marcando o fim da divisão da Alemanha. Hoje, há uma luta para preservar o que sobrou dele e, assim, conservar uma parte da história do país. Já foi empenhado 1,8 milhão no projeto e outros 2 milhões devem ser investidos.

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