Angela Weiss/AFP
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O que significa uma vitória de Joe Biden para o mundo das artes

Biden sempre entendeu a arte como um motor econômico, impulsionador da ação política e de criação comunitária

Graham Bowley, The New York Times

07 de novembro de 2020 | 16h00

Joe Biden não é nenhum esteta. Como quase todos os candidatos presidenciais, embora alguns, depois de um período na Casa Branca, tenham decidido começar a pintar, com graus variados de sucesso.

Mas se o gosto de Biden tende para romances de Grishan e Crocodile Rock, segundo alguns líderes no campo das artes, ele sempre entendeu a arte como um motor econômico, impulsionador da ação política e de criação comunitária.

A atitude de Biden é “menos do ponto de vista do consumidor e mais no sentido do seu valor motivador e transformador das artes”, disse Robert Lynch, presidente e diretor executivo da organização American for the Arts. “Ele não é do tipo que diz ‘adorei essa peça musical’, mas está mais propenso a pensar no papel maior das artes na sociedade’”.

Os Estados Unidos já têm uma boa ideia da abordagem de Trump no tocante às artes, que para ele o mundo da cultura é habitat do liberalismo decadente e que prefere o apoio de celebridades como Ted Nugent, Lil Wayne ou Kid Rock.

A diretiva política cultural que tem sido a marca de Trump é no sentido de acabar com todo o financiamento para o National Endowment for the Arts e o National Endowment for the Humanities, duas grandes agências que, não obstante, sobreviveram apesar das opiniões conservadoras de que suas missões estão fora das responsabilidades principais do governo.  

Mas as perspectivas de Joe Biden com relação às artes e o tipo de impacto que sua presidência poderá ter sobre as organizações culturais têm recebido pouca atenção, particularmente numa campanha rancorosa dominada pela pandemia, problemas envolvendo a assistência à saúde e outros temas contenciosos.

Líderes de organizações culturais afirmam que quando senador por Delaware e depois vice-presidente, Biden foi um defensor consistente do financiamento público para as artes. No mês passado ele teve o endosso da Actor’a Equity Association, sindicato dos atores e administradores de teatro – a segunda vez na sua história que a associação  dá o seu aval a um candidato presidencial (ela apoiou Hillary Clinton em 2016).

“O vice-presidente compreende que as artes impulsionam as economias locais tornando-as fortes e saudáveis em cidades grandes e pequenas do país”, disse Kate Shindle, presidente do Actor’s Studio.

Jane Alexander, atriz que presidiu o National Endowment for the Arts de 1993 a 1997 lembra de ter caminhado com Biden da Union Station até o Capitólio logo depois de os republicanos ganharem o controle do Senado e da câmara nas eleições de 1994, mas sabia que contava com o apoio dele.

“Ele me disse, ‘você tem uma função muito dura’”, disse ele. “Lembro-me de ele ter se mostrado muito simpático com o trabalho que eu tinha de realizar e manifestou seu apoio à nossa organização o tempo todo”.

Assim, mesmo que nunca tenha colocado a cultura como foco do seu legado legislativo, como foi o caso de Edward Kennedy, Biden tem recebido uma nota alta dos executivos de artes. Como senador, foi um dos patrocinadores do projeto de lei de criação do American Folklife Center na Biblioteca do Congresso, apoiou iniciativas em favor da diplomacia cultural e em 2001 defendeu, junto com outros parlamentares aprovação de lei criando o Museu Nacional da Historia e da Cultura Afroamericana no Smithsonian.

“Tudo o que esperávamos que fosse aprovado, ele votou favoravelmente”, disse Lynch.

E a comparação com uma figura pública como Ruth Bader Ginsburg cuja ida à ópera era uma rotina, o perfil de Biden como um aficionado das artes é modesto, apesar de suas saídas com a família para assistir peças na Broadway. 

Como vice-presidente por oito anos, ele compareceu a pelo menos sete eventos no Kennedy Center, incluindo um programa da Orquestra Sinfônica Nacional, uma noite de gala na Washington Nacional Opera, uma master-class de teatro, um espetáculo de balé e o concerto de abertura do Ireland Festival em 2016, de acordo com  o porta-voz Eileen Andrews. A família Biden também organizou uma recepção para o Alvin Ailey American Dance Theater na residência do vice-presidente em Washington.

Como vice-presidente ele ajudou a negociar uma lei de estímulo à economia em 2009 após a crise financeira que incluiu US$ 50 milhões para as artes que muitas instituições consideraram cruciais.

“Havia muita resistência dos membros do Congresso, especialmente no Senado”, disse Nina Ozlu Tunceli, diretora executiva do American for the Arts Action Fund. “A única maneira de se conseguir essa ajuda foi um acordo entre Nancy Pelosi e a Casa Branca e Joe Biden foi o principal negociador pela Casa Branca e Pelosi na Câmara. O acordo foi redigido à mão no último minuto”.

O governo Obama foi o primeiro a assumir a presidência com uma plataforma para as artes. Até agora a campanha de Biden não apresentou algum programa similar com as políticas específicas para as artes. Mas a plataforma democrata reconhece o valor econômico das artes, e, numa entrevista em agosto que concedeu a Lin-Manuel Miranda, Biden foi mais longe.

“O futuro do que somos repousa nas artes. É a expressão da nossa alma”, afirmou ele.

Tradução de Terezinha Martino

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