O que vai ser quando crescer?

Brasil não deve desperdiçar receita do ‘crescimento moderado com desenvolvimento social’, diz especialista chinês

Ivan Marsiglia

12 de junho de 2010 | 14h17

A divulgação dos números da economia brasileira no primeiro trimestre surpreendeu analistas. A expansão de 9% do Produto Interno Bruto (PIB) do País, não distante do desempenho da China (11,9%), fez os mais eufóricos falarem em "crescimento chinês". Vuvuzelas e rojões no Ministério da Fazenda. Mas logo veio o cartão amarelo do Copom, que devolveu a taxa Selic aos dois dígitos: 10,25%. O Brasil acelera e pisa no freio ao mesmo tempo, reclamou um ex-presidente do BC.

 

Contanto que o motorista não deixe o carro se desgovernar, tudo bem. É o que diria, se também fizesse uso de metáforas automotivas, o pesquisador Zhou Zhiwei, secretário-geral do Centro de Estudos Brasileiros do Instituto de Estudos Latino-Americanos em Pequim. Na segunda-feira, em um artigo no diário chinês Global Times, ele defendeu a exportação do modelo de "desenvolvimento social equilibrado" do Brasil, concebido nas gestões Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, para outros países emergentes.

 

"Um crescimento moderado com desenvolvimento social é mais sustentável", diz Zhou, chinês de 35 anos, nascido na Província de Hunan, terra natal de Mao Tsé-tung, que fala e escreve fluentemente português. Doutor em relações internacionais pela Academia Chinesa de Ciências Sociais e pesquisador visitante da Universidade de São Paulo entre 2007 e 2008, ele prefere falar na qualidade do crescimento.

 

Na entrevista a seguir, o professor alerta que a última década de expansão exuberante do PIB chinês trouxe benefícios para a população, mas também pôs o país em uma encruzilhada - expressa pela exploração da mão de obra barata e pela dependência das importações de alimentos e matéria-prima. Afirma que, para continuar sua arrancada rumo ao desenvolvimento, o Brasil deve fazer as reformas tributária e trabalhista e otimizar seus investimentos públicos. E avalia, sobre a derrota brasileira no Conselho de Segurança da ONU nas sanções ao Irã, que Brasília forçou a ultrapassagem: "Será difícil o Brasil se tornar um poder mundial se nem sequer obtém consenso com os países vizinhos".

 

Nos últimos dias, falou-se em 'crescimento chinês' do Brasil. Como o sr. compararia os modelos de desenvolvimento dos dois países?

A China está em um momento diferente do Brasil. Após meio século de políticas de substituição das importações, o Brasil terminou seu processo de industrialização. A China, não. O modelo de desenvolvimento chinês se caracteriza por altas taxas de crescimento. Mas, ainda que o governo sustente que há equilíbrio entre a economia e o social, a China enfrenta muitos desafios - no que diz respeito à desigualdade e pela alta dependência do comércio externo. O Brasil, após anos de superinflação, instabilidade macroeconômica e desigualdade crescente, parece hoje dar mais atenção ao equilíbrio entre crescimento e desenvolvimento social. É um grande progresso.

 

Por que o modelo brasileiro deveria servir de referência para outros emergentes?

Porque a maioria desses países enfrenta o dilema entre crescimento econômico e desenvolvimento social. Um modelo equilibrado é importante para realizar as duas tarefas ao mesmo tempo. Se é fato que o crescimento econômico é a base do desenvolvimento social, o último deve ser o objetivo e destino do anterior. Crescimento sem promoção da igualdade seria em vão. No Brasil, o governo Lula é uma continuidade do de FHC em termos de políticas macroeconômicas, e estabilidade é o mais importante. Pois, ainda que o Brasil tenha sacrificado um pouco sua taxa de crescimento nos últimos anos, conseguiu melhorias nos problemas sociais, diminuiu a pobreza, aumentou sua população de classe média. Um crescimento moderado com desenvolvimento social é mais sustentável.

 

Que balanço o senhor faz de uma década de crescimento econômico exuberante na China? O que mudou na vida das pessoas?

A China conseguiu grandes progressos em uma década de alto crescimento. O mais importante foi o fortalecimento de seu status na estrutura econômica mundial - o que ficou demonstrado na última crise financeira. A vida das pessoas também melhorou bastante em relação ao que era 30 anos atrás. Como o Relatório de Desenvolvimento Humano da China 2007/2008 feito pela ONU indica, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que era de 0,53 em 1975 chegou a 0,781 em 2006 - nível próximo dos países de alto desenvolvimento humano. A posição em que a China ficava no ranking do IDH em 1991 era 101º; em 2007, era 81º. Somos o país cujo IDH sobe mais rapidamente no mundo. Entretanto, problemas ocorreram no meio desse processo, como o baixo consumo interno, desigualdades regionais, polarização entre ricos e pobres, ineficiência no uso de energia e o agravamento da questão ambiental. A China está em uma encruzilhada em seu desenvolvimento. Por isso, o governo propôs o conceito de "desenvolvimento científico": para estimular um processo mais completo e sustentável, com base nos interesses do ser humano - que deve ser o ponto de partida e o objetivo de chegada de todas as políticas. É preciso levar para toda a sociedade os benefícios da prosperidade.

 

A China ainda depende de importações de alimentos e matéria-prima. Até que ponto a economia se diversificou? O controle demográfico precisa ainda ser tão rígido?

A dependência das importações de alimentos e matéria-prima ainda vai durar muito tempo. Para resolvê-la, será preciso mudar o modelo, que demonstra ineficiência no uso de energia e recursos, e elevar a capacidade de inovação tecnológica. Em minha opinião, o controle demográfico não é a única saída para o problema. E, de fato, já começa a haver alguma flexibilidade na política de controle demográfico: há casos em que o casal que faz parte de uma família pequena pode ter dois filhos. Isso porque o governo passou a ter que responder ao problema do envelhecimento da população.

 

O que Brasil e China têm a aprender um com o outro?

Como disse, o crescimento moderado com estabilidade é o maior progresso que o Brasil conseguiu em relação aos ciclos de desenvolvimento anteriores, como na época de "milagre econômico" dos anos 70. Isso, aliado a um conjunto de políticas públicas como o Bolsa-Família, o Fome Zero, o Luz para Todos, o ProUni, etc. As deficiências, em minha opinião, dizem respeito ao atraso de reformas como a tributária e a trabalhista, à desigualdade regional, à falta de investimento público eficiente e à dependência de créditos internacionais por conta da alta taxa de juros do País. O Brasil pode aprender com a política bem-sucedida de investimentos públicos da China e com nossas políticas fiscais para atrair investimentos estrangeiros. Já a consciência ambiental no desenvolvimento talvez seja o que a China tem a aprender com Brasil.

 

Semana passada, a Foxconn, fabricante chinesa do iPhone, anunciou um aumento de 30% nos salários após o suicídio de dez de seus empregados. A busca de competitividade a qualquer custo virou um problema?

Esse é o maior desafio da China hoje. É preciso mudar o modelo de alta intensidade de mão de obra barata, aperfeiçoar a garantia dos direitos dos trabalhadores e fortalecer o papel dos sindicatos. O incidente da Foxconn põe em questão o sucesso do "made in China" e nos leva a pensar em como combinar eficientemente o grau de felicidade do cidadão com o desenvolvimento econômico do país. Será o grande ajuste do modelo econômico da China no futuro.

 

Se a situação trabalhista na China é alvo de críticas, no Brasil fala-se da educação. Qual é o diagnóstico do sr., que estudou aqui?

Trabalho e educação são direitos básicos e ambos os países estão tentando melhorá-los. Lembro-me de uma história contada pelo vice-presidente José Alencar sobre como ele ficara entusiasmado ao visitar a Escola Primária Shijiang Hutong, em Pequim - ocasião em que chorou ao mencionar o enorme gap entre a educação do Brasil e da China. Por que não trocar experiências sobre essas áreas?

 

O crash em Wall Street e a crise do euro trouxeram de volta o debate sobre o livre mercado. Qual deve ser o papel do Estado nas economias e que mecanismos de regulação internacional se fazem necessários?

Regulação do Estado e mecanismos de mercado são duas faces da mesma moeda. Para um sistema financeiro funcionar de forma saudável e eficiente é preciso aliar os dois fatores. Mas não há fronteira nítida e equilibrá-los é tarefa difícil, quase impossível.

 

Recentemente, o governo chinês criou um imposto de propriedade para inibir a compra excessiva de imóveis. A China está escaldada pela crise do subprime nos EUA?

O setor imobiliário na China vive uma bolha e essas políticas vieram, sim, para evitar uma "crise subprime chinesa". O primeiro objetivo desse setor deve ser a satisfação das necessidades de habitação do povo, não a especulação. E dados mostraram que, em um grupo de compradores de imóveis nas principais cidades, a proporção dos que o faziam para investimento ou especulação era de 46%. Em Pequim, Xangai e Shenzhen, chegava a 50%.

 

O sr. diz que a ação do Brasil na questão nuclear iraniana se deveu à tentativa de mudar de status de poder regional para mundial. Na última semana, o Conselho de Segurança da ONU aprovou novas sanções ao Irã e nem a China votou contra. Por quê?

A política da China na questão nuclear iraniana é defender o tratado de não proliferação nuclear, sem prejuízo do direito do Irã de desenvolver energia nuclear para uso pacífico. Pequim não acha que as sanções ao Irã signifiquem uma porta fechada para negociações, mas que os iranianos serão estimulados a voltar a elas. Em termos de diplomacia, acho que o Brasil conseguiu grande presença nos fóruns internacionais. Mas o País não colheu plenamente os frutos por conta da insuficiência de poder nacional. A política externa brasileira deveria se concentrar na integração regional, que pouco progrediu recentemente. Será difícil para o Brasil tornar-se um poder mundial se nem sequer obtém consenso com seus vizinhos.

 

A China tem mostrado uma diplomacia mais flexível, tentando desconstruir a imagem ruim que parte do mundo fazia dela. Esse novo 'soft power' pode contribuir para que o país avance em questões como a dos direitos humanos?

Com certeza. Os esforços que a China está fazendo em termos de diplomacia são no sentido de que o mundo ocidental conheça melhor a China, corrigindo as maneiras antigas de pensar e reconhecendo os progressos que o país tem obtido nas décadas recentes. O "soft power" é um bom caminho para que o mundo aprofunde seu conhecimento sobre a cultura tradicional chinesa.

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