O quilombo de José

Às vésperas do 20/11, sociólogo festeja a única universidade com maioria negra no País: a sua

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2007 | 02h04

Diz que negro é que nem morcego: não entra em festa de pássaro porque mama e não entra em festa de mamífero porque voa. José Vicente usa o chiste para ilustrar a situação do negro à porta da universidade: ele não ingressa na escola pública porque sua qualificação é acidentada, nem entra na particular por falta de cascalho, grana, money. Diante de tamanho dilema, José Vicente matutou o seguinte: o negócio é virar o desenho de ponta-cabeça. Criar uma universidade em que pelo menos 50% dos estudantes sejam negros. É assim, ou não é. Em vez de esperar que uma instituição de ensino adote o sistema de cotas, metade das reservas já está lá para quem se autodeclarar da raça. A matutação foi há seis anos. Em dezembro terminam as aulas da primeira turma de Administração da Unipalmares. São 160 alunos, 140 deles negros, que vestirão black-tie na festa de encerramento de curso no Jockey Club paulistano, em março. Outras formaturas, com mais estudantes de Administração e outros de direito, vêm por aí. A Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares abriga 1.400 jovens, dos quais 1.120 negros autodeclarados, na maior proporção de jovens negros numa instituição de ensino superior da América Latina. José Vicente não foge à raça: autodeclara-se negão. Negão caipira de Marília. Nasceu a cerca de 500 quilômetros da capital paulista e se forjou sob infindáveis pés de café. A família toda - pais e cinco irmãos - era de bóias-frias, também explorados nas lavouras de algodão e cana. O pai morreu quando o caçula, José Vicente, o Zezinho, tinha 1 ano. Morreu com 45, 50 anos, não se sabe de quê. De velhice, talvez. Meio século era, na época, o prazo médio de validade do trabalhador do campo. Poucos anos depois a família se desconjuntou e cada filho foi morar com um tio. A Zezinho coube o tio Benedito, que arrendou um pedaço de terra em Limeira, também no interior de São Paulo, para plantar horta. Num certo período do dia o menino ajudava a vender alface na cidade ou ia cortar árvore para montar lenha. No outro, tentava retomar os estudos. Certa feita a professora disse, depois de uma leitura não sei das quantas: "Muito bem, Zezinho, você lê como um deputado". Mas o aprendiz de parlamentar abandonou o cargo, sem pedir licença. Para escapar da tia, que batia de chicote, ele fugiu pro meio do mato e ficou escondido numa manilha pluvial por dois dias. "Não foi pra isso que fizemos a revolução!" Foi caçado, com cedilha, e devolvido para a mãe.Em Marília, moraram encostados no Morro do Querosene, que a comunidade insistia em chamar de Morro da Querosene. Era onde o pobre comprava o combustível para suas lamparinas. Também era a confluência dos caminhões de bóias-frias, das prostitutas, dos marginais. O grande barato: conversar sobre a roça de amanhã avaliando a oferta dos "gatos", os agenciadores que arregimentavam os bóias-frias a troco de banana. No Morro do Querosene, Zé Vicente se aculturou. "Foi onde realmente começou minha efervescência social subterrânea."O moleque ainda entregou leite, vendeu chuchu e biscoito maisena e foi cobrador de biscates antes de voltar para a lavoura, agora abanando amendoins. "Aquele sol, a fome, as costelas doendo, eu repetia pra mim mesmo: ?Vou ser uma grande personalidade e jamais volto a trabalhar num treco desses, nem um filho meu vai trabalhar nesse negócio?". A saída foi a banda marcial da cidade, onde tocava bumbo. Participante da banda tinha bolsa na Associação de Ensino de Marília e a possibilidade de viajar o Brasil, com uma pisadela no Paraguai. A banda dava status, era chamariz para o mulherio. Para conquistar as moças de vez, ele começou a fazer poesia, compor música. Uma das canções terminou em quinto lugar num festival. José Vicente, ô, José Vicente, você achou que dava para viver de poema, rapá...Um oficial da PM lhe abriu o olho: "Com todo esse porte, você seria um ótimo força pública e ainda ganharia cinco vezes mais do que se trabalhasse na fábrica de biscoito". A fábrica era o top da linha de produção na cidade. José Vicente virou foi soldado em São Paulo. Mas aquilo era circunstancial, porque ele sofria com o policiamento ostensivo. "Alguns ficaram encantados com a imagem de super-herói que o Tático Móvel dava, mas revólver na cintura era terrível para um poeta." Refez o segundo e o terceiro colegial e entrou na Faculdade de Direito da Universidade Guarulhos. Conseguiu emprego de escrivão de plenário na Justiça Militar. Já na bica para virar segundo-sargento, teve de decidir entre o Direito e a carreira policial. Não carecia se vingar de ninguém, como o aspira André Matias. Pediu baixa. Queria ser de outra elite. Formou-se.Na OAB, participou da Comissão de Direitos Humanos e, depois, da Comissão do Meio Ambiente. Todas as vezes que saía da Justiça Militar passava em frente da Escola de Sociologia e Política (ESP). "Che não morreu, viva Stalin, que muvuca, era minha cara aquilo ali!" Inscreveu-se. O lema da Sociologia e Política era o seguinte: se o cara não consegue intervir para mudar a sociedade, não serve para nada. Então um grupo começou a discutir que negro daqui, que negro de lá, que a capacidade de mutação do ser humano é algo fabuloso, que estímulos certos podem dar uma força descomunal, que negro e morcego estão muito distantes entre si...Criaram o Cais, cursinho pré-vestibular que visava a ajudar os jovens afrodescendentes a entrar na universidade pública. Rodaram as apostilas num mimeógrafo, alugaram um espaço do próprio bolso na ESP e abriram as portas com 120 jovens. "Em seis meses, estão chegando à USP os primeiros negros", bradavam. Menos. Bem menos. Nenhum deles passou. O Cais emborcou em sete meses. Acharam que era o caso, então, de selecionar um grupo de jovens negros, muitos com passagem pelo cursinho, e bater nas universidades pedindo bolsas. Conseguiram 15 da Metodista de Piracicaba e mais 15 da Metodista de São Paulo. O aluno entrava com 30% do valor. Logo estavam com 450, em diferentes cursos e instituições. Uma massa crítica substancial.Veio, então, um filho de Deus perguntar por que não criavam uma universidade com maioria negra. Ninguém discutia cotas nessa época. Pareceu brincadeira, coisa de maluco. Mas vai daqui, vai de lá, pediram auxílio para a Metodista, que doou o projeto. Espelharam-se nas experiências americanas (são 117 as universidades do gênero nos EUA), mas não quiseram radicalizar. Lá é escola para negro ou escola para branco. A turma de José Vicente propôs uma mescla. "Caso contrário, não dá liga, temos que botar as duas partes para interagir e construir os fundamentos da tolerância, do respeito, da igualdade, da auto-estima etc., etc. e tal." A primeira metade das vagas seria destinada aos negros autodeclarados. A outra, a todos os demais filhos de quem quer que seja.No ato da inscrição, o candidato escreve se é negro ou não. José Vicente não entra no mérito da veracidade dos fatos. "Negro é quem se autodeclara assim; se o cara estiver mentindo, no mínimo ajuda a melhorar a estatística." Ele recorre ao IBGE para explicar a matemática que tem na cabeça. Segundo o instituto, os negros aglutinam pretos e pardos, o que corresponde a 46% da população brasileira. Por esse critério, depois da Nigéria, o Brasil é o país com mais negros neste mundo.Apesar da política de eqüidade da Unipalmares, aproximadamente 80% dos alunos se dizem negros. "Provavelmente porque é a primeira vez na história nacional em que eles se vêem protagonistas." José Vicente traz à tona mais números para mostrar a participação exígua dos afrodescendentes nos degraus de cima: a TV Cultura tem 60 conselheiros, apenas 1 negro; são 368 desembargadores em São Paulo, nenhum negro; somente 26,4% dos funcionários contratados nas 500 maiores empresas do País são negros; a USP possui 5.400 professores, 4 deles negros (na Unipalmares são 28). A mensalidade, na Universidade Zumbi dos Palmares, é de R$ 260, e 40% dos alunos fazem estágios no sistema financeiro ou em grandes corporações. Dos que se formam agora, 38 foram efetivados. Os alunos têm aula de inglês com profissionais do Alumni e disciplinas como a de Antropologia, Raça e Etnia. Fala a professora Elisabete Aparecida Pinto, que ministra a matéria no curso de Direito: "Quando se mexe com a energia da potência, o aluno vê que pode ser porta-voz da própria história". Fala José Vicente: "No Brasil vigora o racismo do cinismo e da ambigüidade, enquanto nos EUA a discriminação é mais evidente". Qual ele prefere? O caipira de Marília acentua o friso entre os olhos e encorpa a voz de tenor. Diz, usando o dedo indicador, que no racismo americano coloca-se um revólver entre os olhos do negro. No racismo à brasileira, a arma toca a nuca. Entre a guerra franca e a velada, ele fica com a última. Porque, aos 48 anos, depois de ter vivido dos dois lados do balcão, de bóia-fria a reitor, de soldado a advogado da Justiça Militar, vê que existem ferramentas eficazes para mudanças de comportamento. Ferramentas de outra natureza. Holofote"De repente vem um negro e põe a educação de pé. Você acaba virando 'o' cara" Intervenção"Queríamos que a Unipalmares tivesse estatura. O ideal seria erguê-la na Av. Paulista"Troféu Raça Negra"Nos 500 anos do Descobrimento, não tinha negro na agenda. Daí criamos o prêmio"

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