Andres Staff/Reuters
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O rebelde desbocado

Presidente uruguaio desperta simpatia dentro e fora do país ao se pôr acima do bem e do mal, manusear a excentricidade e cultivar a marginalidade sem ligar para incongruências ou contradições

Danubio Torres Fierro, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2013 | 02h11

Durante parte do século 20 o Uruguai desfrutou de uma imagem positiva que somente foi manchada nos tempos da ditadura e ressurgiu, um tanto desgastada, com o retorno da democracia depois de uma transição levada a cabo com perseverança e sem alarde. Foi a fase da reconquista e da volta paciente à normalidade; um período que, além de dar lugar a algumas alternâncias políticas no poder, acabou se tornando uma fase de reconstrução, e que foi cancelada com o triunfo da Frente Ampla em 2003.

Agora, no início do século 21, essa imagem parece recuperar seu antigo brilho, estimulada - é o que se assegura implícita ou explicitamente - pela figura do presidente José Mujica. Tanto a imagem do século passado como a deste século se beneficiaram com um transcurso histórico disciplinado, sem grandes sobressaltos, e uma tradição política e um desenvolvimento social que tornaram o país um remanso em meio às turbulências regionais, um exemplo do exercício do Estado do bem-estar social e um caso excepcional no que diz respeito a uma legislação social generosa e avançada. A simpatia para com o país manifestada por seus vizinhos imediatos, uma simpatia clara e sem dúvida afetuosa, certamente tem por base também o fato de que o Uruguai é um território pequeno, com escassa população (3,4 milhões de habitantes), sem contrastes sociais violentos, com uma capital amável (Montevidéu) e praias cuja longa extensão culmina num balneário (Punta del Este) famoso.

No caso uruguaio, trata-se de um destino feito realidade. De fato, depois de ser uma área de transição entre duas colonizações (a espanhola e a portuguesa), surge, e se afirma, como um Estado-tampão cuja tarefa principal é apaziguar e esfriar as discórdias em uma vizinhança com frequência ruidosa. Grã-Bretanha, Brasil e Argentina, cada um a sua maneira, mas os três em conjunto e em uníssono, tinham muitas razões para promover o nascimento desse Estado singular: para assegurar e manter seu equilíbrio interno, a região precisava desse enclave estratégico e tranquilizador. E o Uruguai, nesse quadro geopolítico, cumpriu cabalmente seu papel: criou uma sociedade institucional responsável, na qual o sentimento de pertencimento é quase uma forma de parentesco e em que se vive numa espécie de estado de alerta emotivo e moral, com uma consciência crítica da enorme dependência externa. Uma sociedade em que a política é uma religião pública que diariamente, incansavelmente, ousa dizer seu nome. Todos opinam, todos são sábios e todos têm razão nesse reino laico, vastamente tentacular. Todos, e tudo, têm uma noção política arraigada que não cede espaço a nada que não seja ela mesma. E tem mais. Ao se transformar, no início da sua evolução, numa democracia com características modernas, que aboliu de uma vez por todas o que restou da democracia primitiva, o Uruguai criou, num sentido estrito e amplo, uma sociedade aberta, plural, tolerante e razoavelmente educada. Assim, nessa atmosfera de ideias e sentimentos, não foi surpresa, nem motivo de escândalo, o fato de em 2004 a coalizão Frente Ampla chegar ao poder. Ela já havia tido sob seu comando a prefeitura de Montevidéu, e 20 anos após a transição membros das esquerdas que formaram esse partido já integravam a equipe que dirigia o país. Nesse contexto, o rompimento do bipartidarismo tradicional foi a crônica de uma crise anunciada: a fadiga e o desgaste daquelas facções eram patentes.

Nada se manifesta em excesso no Uruguai e tampouco nada, ao realizar-se, satisfaz. A moderação (que é um outro nome do arielismo de José Enrique Rodó), para o bem e para o mal, é a norma. No início de 2010, José Mujica sucedeu a Tabaré Vásquez na presidência. Se, em 2003, a eleição de Vázquez implicou a descoberta de uma figura capaz de assegurar um equilíbrio entre as diferentes correntes políticas que integram a coalizão da Frente Ampla e os setores sociais distintos que a apoiam, aglutinando todos sob seu governo e colocando-os num centro equidistante dos extremos, em 2009 a eleição de Mujica parece ter se baseado num princípio de síntese similar - mas muito mais voltado (pelo menos nos discursos e nas promessas de campanha) para o que se costuma denominar uma esquerda pura e dura. Ex-guerrilheiro tupamaro (o que para alguns jovens sem lembranças dos anos de chumbo pode oferecer uma dose considerável de brilho épico), ex-presidiário, torturado pela ditadura militar, ex-ministro da Agricultura com uma atuação sem destaque no governo Vázquez, José Mujica e sua agremiação política, para aquela eleição histórica de 2003, haviam se afastado de seu passado e se convertido ao pragmatismo do real - e algo cada vez mais decisivo: haviam aderido à legalidade democrática e trabalhado por ela. Filhos perplexos do ciclo das ideologias agressivas estimuladas pelo período da Guerra Fria, de um lado, e da globalização mundial, de outro, eles eram também - e ainda são - filhos desertores, sem dúvida extraviados, de uma esquerda que desde o colapso soviético está abandonada por seus santos padroeiros e suas catequeses dogmáticas, fossem essas ortodoxas ou heréticas. Seu único deus protetor era - e ainda é - um ícone chamado Fidel Castro. Vale acrescentar neste ponto que, em tal itinerário bizarro, esses desgastados filhos da revolução nunca fizeram publicamente um mea-culpa e muito menos rezaram um ato de contrição. Disposto assim o cenário para 2003, a pergunta que se fazia era: devia-se temer o político José Mujica como se temia o homem Mujica (e o personagem que ele incorporava)? Não devemos esquecer que, nesse contexto, ele representa o caso típico de uma transferência do prestígio das ideologias para o prestígio de um caudilhismo com cores populistas.

Há algo chamativo no personagem que José Mujica criou para si e desperta simpatia tanto dentro como fora do Uruguai, em particular entre os vizinhos do Cone Sul. Mujica decidiu ser um personagem que tem as raízes históricas nas imediações geográficas, que manuseia a excentricidade, age como rebelde, cultiva a marginalidade e gosta de ser desbocado sem prestar muita atenção às incongruências ou às contradições. Um personagem que reúne, ou gostaria de reunir, os traços nobres do herói e do rebelde que caracterizam aquele José Artigas, contrabandista nas outrora confusas fronteiras entre Uruguai e Brasil, militar famoso que defendeu o que na sua época era uma causa verdadeiramente democrática, procurou instaurar um sistema federal de governo e alcançou, apesar da derrota final, o status de "fundador da orientalidade".

Aqui precisamos avançar um pouco mais. A capacidade de ressonância do personagem cultivado por Mujica se alimenta, de modo marcante, de uma dimensão mítica e ao mesmo tempo mistificadora. Como sabemos, no inconsciente coletivo da América do Sul existe a atração por personagens que se apresentam como figuras com existência fora das normas e repudiam, ou quase, a autoridade. Personagens como o clássico gaúcho Martín Fierro, que declara desobediência a qualquer tipo de legalidade; como Facundo Quiroga, de Faustino Sarmiento, que encontra seu destino trágico na resistência persistente de homem que matou; personagens, enfim, como Antônio Conselheiro, de Os Sertões, que mobiliza os sertanejos, muitos deles cangaceiros, em favor de uma força retrógrada que põe em ridículo a república. Civilização de um lado, barbárie de outro: eis a fórmula consagrada que resume, em nossas terras onde a história está mais viva pelo fato de ser mais recente, essas questões.

Nessa esquina da história (da história que se repete e, ao fazê-lo, passa da tragédia para a comédia) situa-se o presidente Mujica. Ele tem a seu favor um fato que vem se juntar às simpatias que corteja e das quais se beneficia. Trata-se de um senhor de idade avançada que deliberadamente se coloca acima do bem e do mal, que se permite todas as transgressões - e, zênite do sublime, encarna uma versão uruguaia (a clássica viagem da tragédia à comédia, outra vez) de um Rei Lear que gostaria de achar a verdade verdadeira num mundo carregado de significados inextricáveis, um Lear que troveja contra os escândalos do mundo e se empenha em ser fiel a sua voz mais íntima, perdido na ruidosa imensidão cósmica. Como não se comover com personagem tão patético? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

DANUBIO TORRES FIERRO É ESCRITOR, CRÍTICO LITERÁRIO URUGUAIO. DIRETOR DA EDITORA , FONDO DE CULTURA ECONÓMICA NO BRASIL

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