O rei da farinha

Joaquín Guzmán põe US$ 3 bilhões anuais de drogas nos EUA. Mas a chapa de 'El Chapo' está esquentando

Patrick Radden Keefe, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h07

Certa tarde de agosto do ano passado, em um hospital nos arredores de Los Angeles, uma ex-rainha da beleza chamada Emma Coronel deu à luz gêmeas. As duas poderão herdar parte de uma fortuna estimada em bilhões de dólares pela revista Forbes. O marido de Emma, que não estava lá na hora do parto, é um lendário magnata que superou uma infância de pobreza na zona rural para criar um negócio multinacional extraordinariamente bem-sucedido. Se Emma escolheu deixar em branco o espaço para "pai" nas certidões de nascimento, não foi por alguma disputa patrimonial. Mais provavelmente, ela estava apenas nervosa pelo fato de o marido, Joaquín Guzmán, ser o chefe do cartel mexicano de Sinaloa e ter sido apontado recentemente pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos como o mais poderoso traficante de drogas do mundo. A organização de Guzmán é responsável por quase metade das drogas ilegais levadas anualmente do México para os EUA. Ele pode perfeitamente ser o criminoso mais procurado neste mundo pós-Bin Laden. Mas sua mulher é cidadã americana e sobre ela não pesa nenhuma acusação. Assim, tudo que as autoridades puderam fazer foi observá-la agasalhar as filhas e se esgueirar para o outro lado da fronteira.

Conhecido como El Chapo (em espanhol, indivíduo baixo e atarracado), Guzman tem 55 anos, o que em narcoanos corresponde a cerca de 150. No México, ele é uma figura quase mítica que sobreviveu tanto a inimigos como a cúmplices. Segundo a Drug Enforcement Administration (DEA, agência americana de combate ao narcotráfico), El Chapo vende mais drogas hoje que Pablo Escobar vendia no auge da carreira. Em parte, esse sucesso se explica pelo fato de o maior fornecedor mundial de narcóticos e o maior consumidor serem vizinhos.

O cartel de Sinaloa compra um quilo de cocaína nos altiplanos da Colômbia ou do Peru por cerca de US$ 2 mil. No México, esse quilo já vale mais de US$ 10 mil. Cruzando a fronteira dos Estados Unidos, passa a custar US$ 30 mil no atacado. Fracionado em gramas no varejo, vai a mais de US$ 100 mil. E isso é só a cocaína. O Sinaloa também produz e exporta maconha, heroína e metanfetaminas.

Calcular o tamanho exato do império de El Chapo é difícil. Estatísticas sobre economias subterrâneas são especulativas. Por isso, aceitaremos como base a estimativa do Departamento de Justiça americano: os cartéis colombianos e mexicanos arrecadam anualmente entre US$ 18 bilhões e US$ 39 bilhões com vendas de drogas nos EUA (só essa variação já faz pensar). Mas mesmo quando se tomam os números mais baixos disponíveis, Sinaloa desponta como um player titânico no mercado negro global. Na avaliação mais sóbria da RAND Corp., por exemplo, a receita bruta de todos os cartéis mexicanos com exportação de drogas para os EUA alcança apenas US$ 6,6 bilhões. Pela maioria das estimativas, porém, Sinaloa se apoderou de uma fatia de pelo menos 40% desse mercado (talvez até 60%), o que significa que a organização de El Chapo Guzmán teria um faturamento anual da ordem US$ 3 bilhões.

A guerra das drogas no México já cobrou 50 mil vidas desde 2006. Mas o que a cobertura desse derramamento de sangue costuma ocultar é quanto o negócio das drogas se tornou eficiente. Um estudo acurado do cartel de Sinaloa, baseado em milhares de documentos legais e dezenas de entrevistas com traficantes e autoridades no México e nos EUA, revela uma operação global (o cartel atua em mais de uma dezena de países), muito ágil e, sobretudo, extraordinariamente complexa.

"El Chapo sempre fala do negócio das drogas onde quer que esteja", disse um antigo confidente seu a um júri alguns anos atrás. Do remoto reduto nas montanhas onde se acredita que esteja escondido, El Chapo supervisiona uma rede logística que é, de certa maneira, tão sofisticada como a da Amazon - duplamente sofisticada, quando se pensa nisso, porque os traficantes precisam deslocar em segredo tanto seu produto como seus lucros e fugir constantemente da morte ou prisão. Por sua longevidade, lucratividade e alcance, o cartel de Sinaloa poderia estar entre as empresas criminosas mais bem-sucedidas da história.

El Chapo nasceu numa aldeia chamada La Tuna, nos contrafortes da Sierra Madre, no Estado de Sinaloa, em 1957. Sua educação formal terminou na terceira série e, quando adulto, ele tinha dificuldade em ler e escrever. Nos anos 1980 ele ingressou no cartel de Guadalajara, que era comandado por um ex-policial conhecido como El Padrino.

Em 1989, El Padrino foi preso pelas autoridades mexicanas e os remanescentes de seu cartel se reuniram em Acapulco para determinar que rota de tráfico cada capo herdaria. Segundo o livro El Narco, de Ioan Grillo, os cacos da organização de El Padrino se tornariam a base dos cartéis de Tijuana, Juárez e Sinaloa, e os antigos colegas logo se tornariam adversários num ciclo de guerras territoriais sangrentas que continuam até hoje.

O Sinaloa sempre se distinguiu pelos meios ecléticos que emprega para transportar drogas. Trabalhando com fornecedores colombianos, agentes do cartel transportavam a cocaína para o México em pequenos aviões particulares e em bagagens contrabandeadas para voos comerciais e eventualmente em seus próprios 747s. Eles usavam navios de contêineres, barcos de pesca, lanchas rápidas e submarinos.

Mas a maior contribuição de El Chapo para a evolução da atividade do narcotráfico foi... um túnel. No fim dos anos 1980, ele contratou um arquiteto para projetar uma passagem subterrânea do México para os EUA. O que parecia uma torneira do lado de fora da casa de um advogado do cartel na cidade fronteiriça de Agua Prieta era, na verdade, uma alavanca secreta que, quando acionada, ativava um sistema hidráulico que abria um alçapão oculto embaixo de uma mesa de bilhar no interior da casa. A passagem se estendia por mais de 60 metros por baixo das fortificações ao longo da fronteira, saindo no interior de um armazém que o cartel possuía em Douglas, Arizona.

O túnel acabou descoberto e El Chapo mudou novamente de tática, desta vez entrando no negócio de pimenta. Abriu uma fábrica de conservas em Guadalajara e começou a produzir milhares de latas com rótulo de "Comadre Jalapeños", recheando-as de cocaína, selando-as a vácuo e enviando para mercearias de donos mexicanos na Califórnia. Ele despachava drogas em jamantas frigoríficas, trens de carga e via FedEx. Mas o túnel para Douglas continua sendo sua obra-prima..

"A meta desses caras não é vender drogas", disse-me Tony Placido, que foi o principal agente de inteligência da DEA até se aposentar, no ano passado. "É viver para desfrutar do lucro." Assim, os traficantes mais astutos preocupam-se com o que Peter Reuter e Mark Kleiman se referiram , num ensaio clássico sobre tráfico de drogas, como "o risco marginal de prisão".

Há uma razão para a cocaína e a heroína custarem muito mais na rua que na porteira da fazenda: o comprador não está pagando pela droga, mas pelos riscos que todos assumiram para trazê-la até ele. Os traficantes frequentemente negociam, com detalhes contábeis, quem será responsabilizado em caso de perda de mercadoria.

A maneira mais segura de se esquivar de problemas no tráfico é distribuir propinas. Os cartéis da droga não pagam impostos, mas um gigante como Sinaloa paga regularmente a autoridades federais, estaduais e municipais quantias que podem rivalizar com os tributos oficiais mexicanos.

Onde a corrupção falha, resta a violência. Sinaloa se destacou tanto pela selvageria como pela astúcia. Os mais violentos no momento seriam os Zetas, sociopatas desordeiros que têm prazer na crueldade física. Foram eles os acusados de jogar 49 cadáveres mutilados ao lado de uma estrada perto de Monterrey no mês passado. O Sinaloa é responsável por muita carnificina também, mas sua atitude ante a matança tem sido tradicionalmente mais discreta.

O que o Sinaloa faz dentro dos EUA é transportar drogas por rodovias para centros de distribuição regionais onde elas são repassadas para atacadistas de confiança, como os gêmeos Pedro e Margarito Flores, de Chicago. Como clientes preferenciais, os Flores com frequência pegavam drogas de El Chapo a crédito e só pagavam depois de ter vendido o produto. Esse sistema de crédito, conhecido como fronting (algo como adiantamento), repousa no inabalável pressuposto de que, no mercado americano, o mais idiota dos vendedores não teria dificuldade em vender drogas. Ajuda também o fato de que calote pode significar esquartejamento.

Em 2008, os gêmeos foram indiciados em Chicago e começaram a cooperar secretamente com a lei. No ano seguinte, um de seus contatos no Sinaloa - um jovem traficante chamado Jesus Vicente Zambada Niebla, ou Vicentillo - foi preso no México e extraditado para Chicago. Mas, numa virada surpreendente, Vicentillo argumentou que não pode ser processado porque, ao mesmo tempo que trabalhava para o Sinaloa, era também informante da DEA (agentes americanos admitem que houve discussões entre a DEA e Vicentillo, mas negam que havia um acerto de reciprocidade).

Considerando o julgamento, que está marcado para outubro, e o crescente clamor dos dois lados da fronteira pela sua captura, El Chapo pode estar mais encrencado hoje que em qualquer outro período de sua carreira. Em fevereiro, ele escapou de um reide de autoridades mexicanas na região de veraneio de Los Cabos. O partido do presidente Felipe Calderón está atrás nas pesquisas para a eleição presidencial do próximo mês e alguns acham que ele só ganha se El Chapo for morto ou capturado.

Além da ameaça de captura, El Chapo enfrenta também a ameaça da concorrência. Por algumas estimativas, os Zetas controlam hoje mais território mexicano que o cartel de Sinaloa. Pistoleiros Zetas fizeram incursões sangrentas em território de El Chapo, chegando a penetrar em cidadelas até então invioláveis do próprio Estado natal do capo, Sinaloa.

El Chapo e seus colegas nunca foram pacíficos. Mas para conter os Zetas, Sinaloa está recorrendo a novos graus de barbárie. Em março, o cartel desovou um punhado de cadáveres desmembrados em território Zeta e postou uma série de cartas abertas nos muros ao redor deles, ridicularizando os Zetas como "bando de bêbados e lavadores de carro". Cada mensagem estava assinada "Sinceramente, El Chapo".

Uma coisa que El Chapo sempre fez foi inovar. Enquanto se engaja numa diplomacia da violência ao longo da fronteira, o cartel está se expandido para novos mercados na Europa e na Austrália. Há indícios também de que o cartel esteja explorando oportunidades no Sudeste Asiático, China e Japão. Mas o maior cacife de El Chapo ainda está na conturbada fronteira entre México e Estados Unidos. Mesmo que o chefão seja morto ou capturado, um de seus associados muito provavelmente ocupará seu lugar e a infraestrutura de tráfico que El Chapo criou persistirá, canalizando o produto, colhendo os lucros e alimentando a consistente demanda no lado americano da fronteira - a que o historiador Hector Aguilar se referiu um dia como "o insaciável nariz norte-americano". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK  

PATRICK RADDEN KEEFE É COLABORADOR DA REVISTA THE NEW YORKER, BOLSISTA DA CENTURY FOUNDATION. FOI CONSULTOR POLÍTICO DO ESCRITÓRIO DO SECRETÁRIO DE DEFESA DOS EUA. ESTE ARTIGO É ADAPTADO DE MATÉRIA PUBLICADA EM THE NEW YORK TIMES MAGAZINE

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