B4U Motion Pictures
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O renascimento de Lollywood, a indústria do cinema paquistanês

Cinema do Paquistão floresceu durante a década de 1960 e entrou em declínio com a ditadura no país, mas ganha novo fôlego agora

The Economist

05 Maio 2018 | 16h00

As décadas de 1960 e 1970 constituíram a idade de ouro do cinema paquistanês. Centenas de filmes populares eram produzidos anualmente por Lollywood, indústria de entretenimento com sede em Lahore. Entre as grandes estrelas da época estavam o ídolo Waheed Murad e Sabiha Khanoum, conhecida como a primeira dama do cinema no Paquistão. Ambos ainda hoje são reverenciados. O filme Armaan (Desejo) de Murad, lançado em 1966, trouxe para o público a primeira música pop da Ásia Meridional, criando um novo gênero de música paquistanesa.

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Mas apesar de toda a sua glória, a produção de Lollywood entrou em colapso nos anos 1990. Em 2005, apenas 20 filmes produzidos localmente foram lançados no ano. A agitação política desencadeou esse declínio. O general Zia-ul-Haq assumiu o poder em 1977 num golpe militar e implementou um programa de islamização com base no qual os cineastas eram obrigados a cumprir com as regras de censura. Projetos eram banidos se considerados prejudiciais a todo tipo de interesse, incluindo decência, moralidade e o bem comum. Com pouco para mostrar e incapaz de competir com os novos recursos de entretenimento em casa, centenas de cinemas foram fechados.

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Uma situação que piorou. Mais tarde os produtores só podiam trabalhar se tivessem formação acadêmica e registro no ministério da Cultura. Foram introduzidos impostos pesados e o investimento desapareceu diante da queda dos lucros. Os filmes indianos foram proibidos e o número de produções em língua Urdu paquistanesa minguou. O público paquistanês, privado de opções de entretenimento, se acalmou com a chegada do videocassete, quando então floresceu um mercado negro de vídeos produzidos por Bollywood. Muitos paquistaneses cresceram assistindo a filmes pirateados que atravessavam as fronteiras.

Mas hoje uma nova geração de diretores e produtores lidera uma espécie de renascimento de Lollywood. O nome continua o mesmo, mas nada é como antes. A produção mudou de Lahore para a cidade costeira de Karachi. A proibição de filmes indianos foi anulada e estes filmes, mais os ocidentais que chegam, hoje mantêm os cinemas paquistaneses abertos. E os filmes realmente paquistaneses começam lentamente a retornar às telas.

Shoaib Mansoor é o diretor responsável pela retomada do setor cinematográfico do país, mas essa reputação em parte tem a ver com um marketing inteligente. Em 2007, seu filme Khuda Kay Liye (O Nome de Deus) foi anunciado como emblemático do ressurgimento oficial do cinema paquistanês. Foi um golpe magistral de relações públicas beneficiado pelo abrandamento do controle governamental e atendendo a um público sedento por filmes locais. Khuda Kay Liye aborda a vida de dois jovens paquistaneses após os atentados de 11 de setembro. O filme é mais sombrio do que as produções clássicas e a trama às vezes é confusa. Entretanto Mansoor foi de encontro a uma audiência ávida por produções modernas em língua Urdu e os cinemas lotaram.

Em seguida, ele produziu Bol (Falar) e Verna, de 2017. Os dois filmes tratam de problemas de gênero e Verna provocou um debate nacional. É a história de uma sobrevivente de um abuso sexual, tema que causou controvérsia depois que a censura paquistanesa se opôs ao que chamou de “conteúdo ousado” e pensou em proibir o filme. Isso desencadeou forte reação pública e coincidiu com protestos generalizados contra o estupro e o assassinado de Zainab Ansari, menina de sete anos. Quando finalmente chegou às telas, a crítica mordaz da misoginia no filme foi muito aplaudida. Mansoor geralmente foca mais no conteúdo do que no estilo, preferindo sempre a crítica social, às vezes excessivamente. Tanto Verna como Bol foram criticados pelo ritmo errático e a cinematografia fraca.

Mas seu exemplo tem sido seguido e aprimorado por outros diretores. Cake, de Assim Abbasi, foi lançado no final de março e é muito diferente dos filmes da década de 1960, conhecidos por seu melodrama e números de dança e música impressionantes, mas bem melhor. A trama gira em torno da vida de duas irmãs que cuidam dos pais enfermos. Uma vive no Paquistão e a outra acaba de voltar da Grã-Bretanha, cenário comum nos bairros ricos paquistaneses. Abbasi aborda a relação conflituosa das duas mulheres quando se reúnem para celebrar o aniversário de casamento dos pais, e nenhuma delas aplaca seu rancor nem exagera sua rivalidade. Cake foi o primeiro filme paquistanês a ter sua estreia em Leicester Square, em Londres.

Há ainda muito trabalho pela frente. O conselho de censura do Paquistão continua a ter poder de decisão sobre o que pode ser visto. E embora o número crescente de filmes subversivos seja estimulante, as consequências sociais da sua divulgação caem desproporcionalmente sobre as mulheres envolvidas. O papel-título de Verna foi interpretado por Mahira Khan, que tem sido alvo frequente de trolls sexistas online. Sharmeen Obaid-Chinoy, que produziu um documentário vencedor do Oscar, tem enfrentado problemas similares pelo seu trabalho sobre crimes de honra e ataques com ácidos dos quais mulheres são vítimas.

Mas apesar desses obstáculos, um ressurgimento finalmente vem se verificando em Lollywood. Novos diretores, como Abbasi, têm acesso a grandes orçamentos, artistas talentosos e roteiros que evitam os clichês. A nova onda do cinema paquistanês pode muito bem suplantar sua idade de ouro. / Tradução de Terezinha Martino

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