O RETRATO DE ESSENA O’NEILL

Ao denunciar a mentira da imagem que criou de si mesma nas redes sociais, a jovem australiana foi corajosa, mas incapaz de subverter a lógica da exposição midiática. ‘Uma Essena realmente revolucionária teria apagado o perfil. E submergido no anonimato que o tempo fugaz das redes impõe’, diz o historiador Leandro Karnal

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2015 | 16h00

 

 

 

Oscar Wilde descreveu um jovem de beleza sedutora. Dorian Gray impressionava a todos, mas guardava um segredo terrível no sótão. O rosto verdadeiro de Dorian estava numa pintura que envelhecia e mostrava os efeitos da vida dissoluta. O jovem que circulava pelo mundo londrino era falso. O encanto de Dorian era obtido à custa do envelhecimento da imagem. Talvez, sem querer, o texto de 1890 analisou o primeiro grande perfil em rede social do mundo contemporâneo.

Se a metáfora do embelezamento artificial do photoshop for válida, o processo é mais universal e antigo. Quando o livro de Wilde foi escrito, o império britânico era governado pela rainha Vitória. Ao assumir o trono, ela foi retratada a óleo diversas vezes, no brilho radioso dos seus 18 anos. Porém, a Vitória real era baixa e pouco graciosa. A natureza fora avara em distribuir atributos físicos à sobrinha do rei. Mas, nas pinturas, ela parecia muito melhor. Como sabemos? Muito cedo, ela conviveu com a invenção da fotografia e foi a primeira soberana inglesa a ser amplamente registrada. As fotos mostram o quanto a técnica dos pintores criava, melhorava, embelezava. Basta pesquisar e comparar Vitória a óleo e Vitória em foto. São seres diferentes. Talvez isso valha até hoje: fotos em preto e branco costumam melhorar quem é um pouco mais, digamos, experiente. Fotos em close, com máquinas de alta resolução, são um desafio para pessoas que vivem em patamares estéticos mais modestos.

Sabemos da importância da cenografia: sorrimos, encolhemos a barriga, mostramos o melhor ângulo, arrumamos a roupa. Todos esses gestos são herdeiros do belo Dorian Gray. Apagamos fotos que mostram resultados ruins. Divulgamos as que consagrariam o ideal de quem eu suponho ser e do que eu suponho que os outros gostarão que eu seja. Quem eu sou de verdade é sempre um desafio.

Por que estamos pensando nisso? Essena O’Neill é uma adolescente australiana comum. Passou grande parte da sua vida registrando e postando nas redes sociais os melhores resultados da sua imagem. Teve sucesso: chegou a meio milhão de seguidores. Bonita, melhorou tudo com boas roupas, luz adequada, ângulos corretos. O que ela fez com muito método é feito por quase todo mundo. Sentiu prazer com muitas curtidas e considerou-se popular. Dormia sorrindo com o êxito fugaz da rede e deve ter angariado muitas relações com a fama. Aprendeu cedo como o mundo é generoso com a beleza.

Um dia ela teve uma crise. O vazio das aparências a pegou, talvez. Entrou em contradição entre o que postava e o que sentia, entre quem era de fato e o que supunham que ela fosse. Essena real tornou-se inimiga da Essena virtual. Como a personagem de Oscar Wilde, ela atacou sua própria imagem. A adolescente passou a publicar legendas demolidoras, falando como tudo aquilo era falso e tinha sido ensaiado. Denunciou as muitas tentativas até acertar, as poses artificiais, o absurdo da cena zen meditando na praia ou da magreza conseguida com inclinações calculadas do tronco. Resultado? Virou uma celebridade ainda maior. Ela teve mais acessos e chamou a atenção do mundo. Por quê?

Temos uma raiz platônica e cristã na condenação da aparência. Usamos expressões ambíguas como “aquilo que somos por fora e por dentro”, como se meu sorriso fosse menos eu do que meu intestino ou como se minha humildade me pertencesse mais do que minha vaidade. Pessoas ponderadas e mais velhas recomendam a jovens bonitas: “cuide mais do seu interior”. Recriminamos quem se mira por horas em espelhos. Nossa crítica à vaidade aumenta à medida que os motivos para sermos vaidosos diminuem. Nosso envelhecimento é a fonte da nossa virtude. “Não tire tanta foto de si”, pois, é óbvio, eu já não quero mais tirar de mim.

Essena foi uma jovem submetida à pressão das redes sociais. Acreditou na personagem que ela elaborava. Foi uma boa atriz no papel de si mesma. Teria sido influência de alguma leitura ou aconselhamento a crise que ela demonstrou ao ser atacar publicamente como produto midiático? Ou seria um golpe publicitário? Ela teria visto como chance de expansão de curtidas uma reviravolta na sua trajetória? Este “sincericídio” que ela praticou seria fruto de medo, sabedoria, cansaço ou desejo de expansão da influência com outra personagem? Talvez nunca saibamos porque, provavelmente, ela também não sabe.

A resposta é pouco relevante. O mais importante é a atenção que o mundo deu ao fato, sinal de que, autêntica ou não, Essena dialogou com pontos delicados das redes sociais.

O choque é antigo: entre o real e o ideal, damos braçadas sem muito rumo. Há cenografia intencional nas fotos que estão sobre nosso aparador na sala. Retratam a família que desejaríamos ter nos seus momentos de estetização, harmonia ou sofisticação turística. Não há fotos das discussões, da dor, de como engordamos ou de como foram tediosas nossas cenas em casa. Lá somos todos sorrisos, belos, felizes e com uma vida interessante. Fotos familiares são desejos embalsamados.

A estátua da Vênus de Milo agrada a mais gente do que o quadro A Origem do Mundo, de Courbet. O mármore mostra uma mulher idealizada, sem pelos e perfeita. O quadro é uma genitália cruamente exposta, real e desafiadora. Achamos mais palatável o que mente mais, idealiza mais ou cria uma alternativa ao peso imperioso da natureza e da realidade. Sei que a mulher exposta na revista masculina é fruto de um esforço técnico para reduzir imperfeições e aplainar caprichos da mãe natureza. Mas não é exatamente por isso que eu compro a revista? Se eu quisesse realidade, olharia para o lado. A imagem virtual funciona como o álcool: eu não bebo apesar de o álcool produzir relaxamento, aumento de confiança e até desnorteio. Bebo, exatamente, por isso. Os corantes tornaram-se tão indispensáveis à indústria da alimentação como o photoshop para as imagens públicas das redes sociais. O fundo da caverna de Platão é confortável, tem gente por perto com valores similares, a luz não cega e o que vemos é agradável.

Rilke, poeta, definiu o belo como o grau do terrível que toleramos e que desdenha destruir-nos. É uma definição linda e enigmática. As redes sociais jorram o belo por todos os poros. Flores, sorrisos, o pôr do sol, praia, corpos, festas, animais de estimação fofinhos e muita alegria. Ah, e as comidas que impressionam. As imagens são nosso álcool estético, nosso ópio em fótons. Não as vemos apesar de elas não serem tão sinceras, mas exatamente porque não são. À custa de repetição, essa beleza torna-se nosso roteiro de vida e de experiência de mundo. Com o tempo, toda a chatice daquela noite de Natal será conservada apenas pela linda foto da mesa posta e pessoas sorrindo. E a mariposa da minha memória, ávida de luz, vai se fixar naquilo, produzindo uma vida feliz como construção/reconstituição do passado. Toda memória é um diálogo do presente com o passado e um processo de criação. A luz certa, a roupa adequada e um claro sorriso ajudam muito a fixar esse momento, o único que desejo guardar.

Essena fez uma apoteótica carreira postando imagens melhoradas e preparadas. Seu sucesso foi gigantesco. De repente, por motivos pouco claros para o grande público, caiu no oposto e passou a duvidar da sua imagem e a revelar os andaimes da construção. Como Ícaro, despencou rápido do sol para o impacto do mar.

O que seria mais notável no processo? Essena estetizou uma personagem e, depois, tentou desconstruir, mas mantendo as fotos das redes sociais. Com isso ela reafirmou como nosso mundo é dependente da imagem. Ao dizer antes “esta sou eu” e agora “esta não era eu de verdade” e postando fotos nas duas situações, ela continua na mesma gramática de produção de sentido. O real ou o imaginário são, duplamente, dependentes da imagem no mundo líquido. A legenda pedindo curtidas ou denunciando a armação é, igualmente, suporte do único mundo possível.

Essena mostrou que Dorian Gray pode rasgar o retrato do sótão, mas nem esse gesto teatral o ajudará a responder quem ele é de fato. Essena é virtual, porque ninguém desta geração consegue pensar o mundo fora do virtual ou sem ele, ao menos. Uma Essena revolucionária teria simplesmente apagado o perfil. Bastaria não postar por um mês e ela teria submergido no anonimato que o tempo fugaz das redes impõe. Mas isso teria sido demais. Nem a nova Essena, a autêntica (?), aguentaria tamanho desprendimento. Ela foi capaz de um gesto muito corajoso, mas não foi capaz de subverter a própria lógica da exposição midiática. Isso talvez já não esteja ao alcance de uma jovem criada no século 21. Essena sorria com as curtidas de suas fotos planejadas. Continua sorrindo com a Essena que desnuda a rede. Ela foi protagonista nas duas situações. A jovem possui, agora, dois retratos de Dorian Gray: o belo e o decadente. Ambos pertencem a ela e foram pintados por ela. Em resumo: mentira e verdade, para existirem, têm de ser fotografadas e postadas.

LEANDRO KARNAL É HISTORIADOR E PROFESSOR DE HISTÓRIA CULTURAL DA UNICAMP

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