O risco de vestir a faixa de a mais feliz do mundo

A alegria premiada pode aplacar a indignação?

Lobão*,

25 de outubro de 2009 | 01h14

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Quando filosofamos sobre uma violência que assola o Rio de Janeiro há mais de 30 anos e percebemos sua progressão sistemática durante todo esse período, somos obrigados, em primeiro lugar, a fazer um exame de consciência e procurar com toda a honestidade a razão da nossa incapacidade crônica de aprender com os próprios erros. O que faz uma cidade não conseguir se enxergar? Para analisar os acontecimentos da semana que passou eu não gostaria de nivelar a conversa sob a égide da indulgência, do narcisismo, do bairrismo, da festividade retrógrada nem do cinismo. Uma das causas da minha retirada do Rio deveu-se justamente ao fato de estar cansado e constrangido de continuar vivendo num lugar cuja paralisia provocada pela autocomplacência vinha da sensação de que o carioca é um ser à parte. Além de me irritar profundamente, isso me transformava num cúmplice passivo de toda aquela coisa, milimetricamente arquitetada para aniquilar qualquer tipo de mudança. Afinal eu não via um sinal sequer em direção a uma transformação relevante de atitude capaz de apontar para uma radical virada de mentalidade, para uma revisão completa nessa autoimagem caricata de gente fina, delicada e cheia de bossa de que tão ingenuamente nos ufanamos a flanar pela zona sul.

 

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Pois bem, uma jornalista de um jornal carioca, no início de setembro, me mandou um e-mail pedindo que eu falasse sobre o fato de o Rio ter sido eleito pela revista Forbes a cidade mais feliz do mundo. "Soube que você saiu há pouco tempo daqui porque não estava satisfeito... Um abraço", comentou a jornalista, após o simpático pedido. Misteriosamente, a matéria implodiu e acabou não saindo nada; portanto, como desconfio que o ponto gravitacional esteja bem próximo do assunto abordado neste texto, aqui está a resposta:

 

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"Que bacana!!! Então, já que deu na Forbes, muda tudo! Eu posso até voltar correndo, varado de luz, redimido... com o carimbo da Forbes de... FELIZ !!! O mais feliz do mundo!!! EEEEE! Devemos decretar uma semana de feriado, convocar uma micareta e fechar a Vieira Souto pra comemorar esse feito! Mas, falando sério, esse tipo de felicidade me assusta um pouco. Uma felicidade meio perversa, meio postiça, meio indulgente. Tem uma bossa nova que eu fiz dizendo mais ou menos assim sobre nossa índole, sobre nossa paisagem: "Tudo aqui descontroladamente lindo como um gol acidental... Tão suicida essa forma invertida de felicidade... E a gente continua comemorando coisa alguma sempre a sorrir".

"Talvez essa tal felicidade esteja nos condenando à eterna permanência da precariedade, pois aplaca nossa indignação, estupra nosso luto, mina a vontade de sermos melhores, impossibilita qualquer tentativa de engendrar profundas e necessárias transformações da imagem que temos de nós mesmos e, infelizmente, acaba por facilitar a tal da autofolclorização, caindo na gratuidade insólita, boba e até cruel da carnavalização.

"Agora tentem visualizar alguns eventos típicos e patológicos que costumam permear a maneira de ser de um determinado tipo de carioca:

1) Aplaudir o pôr do sol no Posto 9 como um Michelângelo das areias, extasiado com a beleza de sua paisagem particular, como uma extensão de si próprio, travestindo um êxito exclusivo da natureza em mérito pessoal.

2) Frequentar passeatas contra novas regras mais restritivas para o carnaval de rua, mesmo com a cidade fedendo cada vez mais nos dias de folia.

3) Sair pra brincar nos blocos da vida depois de mais uma chacina.

4) Possuir um fascínio mórbido pelo fenômeno da reinvenção regressiva, muito em voga nos dias de hoje, a investir sofregamente na promoção de festivais como o de marchinhas de carnaval, de uma obsolescência comovente, em meio a refrões natimortos, rimas anacrônicas, piadas oligofrênicas e arranjos idiotas.

5) Regurgitar com muita dignidade, chiquê e retrocesso uma bossa nova anêmica, que de nova não tem mais nada, só pose.

6) Viver na fixação obsessiva e pouco potente do universitário de esquerda, incapaz de expressar aquilo que realmente é, um invejoso da singeleza da pobreza, um aspirante a vanguardista de um passado que jamais vivenciou, um tipo corriqueiro da classe média/bamba/fake/sambista de araque, a emular grotescamente o bamba real da tradição, a jactar-se como o legítimo defensor e representante da raiz, da raça e da cultura, mesmo sem a gente ser planta, não ter raça nem delimitação pra expressar o que bem entender, ou quem sabe pra relaxar depois de uma praia, sentar com a rapaziada num fim de tarde pra levar um lero num boteco da Lapa, em cima de uma poça de sangue, cujo cadáver acabou de ser removido? Style!

"Se vocês acham isso uma vantagem, só me resta torcer para que usufruam ao máximo desse momento de singular alegria. Torço também para que no próximo concurso o Rio se torne um campeão de gentileza, um lanterninha da violência, um exemplo de elegância, de qualidade de vida, que sejamos reconhecidos pela honestidade sem esperteza, por sermos um povo que tenha uma autocrítica mais severa, um povo de fibra que, sem perder suas belas características, seja também cosmopolita, apto a se transformar, aberto para a cultura do mundo, um povo que em sua retumbante alegria seja menos narciso e, de preferência, mais sério.

"É isso aí. Me perdoem pela sinceridade e um abraço de um carioca que, mesmo distante, mesmo discordante, mesmo revoltadíssimo, continua, apesar de não tão feliz assim, torcendo apaixonadamente por melhores rumos de sua cidade e de seu povo".

Conheço a alma da minha cidade, amo a minha cidade e muito me entristece o estado das coisas. Nós cariocas precisamos urgentemente nos reinventar. E, com mais humildade e inteligência, construir um destino ensolarado e realmente feliz que o Rio e o carioca tanto merecem.

*Músico nascido e criado em Ipanema, morador do Sumarezinho, em São Paulo, desde 2008

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