O Robin Hood da História

Morre Howard Zinn, 'biógrafo' da América que dava voz a escravos, operários, sindicalistas e desajustados de variada espécie

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2010 | 07h19

Clio, a musa da história, descuidou-se, e lá se foram, no espaço de uma semana, três grandes historiadores: um da Argentina (Tomás Eloy Martínez), outro da literatura brasileira (Wilson Martins), e o mais sui generis "biógrafo" da América, Howard Zinn.

Conforta saber que ao menos Zinn morreu de repente, do coração, sem prévia agonia hospitalar. "Pensei que ele era imortal", confessou a colunista do semanário The Nation Patricia Williams. Infelizmente, ele era apenas longevo: 87 anos. Não tão longevo quanto Studs Terkel, que durou até os 96, e Eric Hobsbawm, que caminha para os 92.

Terkel e Hobsbawm seriam naturalmente lembrados a propósito de Zinn não apenas pela longevidade, mas sobretudo por suas afinidades eletivas, digamos assim. Hobsbawm tem uma visão marxista, Terkel era um liberal populista, ouvinte e termômetro dos "rostos na multidão"; dois olhares atentos ao mood e às ações das camadas populares, duas perspectivas demofílicas, ainda que filosoficamente distintas.

Nem marxista, nem populista, Zinn foi o mais bem-sucedido (ou o mais célebre) historiador revisionista dos Estados Unidos. Sua magnum opus, A People"s History of the United States, já vendeu mais de 1 milhão de exemplares desde o lançamento, em 1980. Como antecipa o título, é a história dos Estados Unidos com outra sorte de protagonistas, narrada pela perspectiva do lado oposto às tribunas de honra, onde se sentam as elites políticas e econômicas, pelo viés das reformas democráticas geradas por sucessivas ondas de movimentos sociais.

Porque tirava dos ricos e poderosos (políticos, generais, banqueiros, industriais, etc.) a voz que, sem demagogia, dava aos pobres (escravos foragidos, operários, líderes sindicais, desajustados de variada espécie), Zinn foi uma espécie de Robin Hood dos historiadores e inspiração até para seus colegas de ofício no Brasil, muitos dos quais perseguidos, presos e cassados pela ditadura militar, pela audácia de contar uma "nova história".

Prolífico, deixou uma batelada de livros, além de dezenas de ensaios (notadamente para o semanário The Nation) e cartas (especialmente para a New York Review of Books), nenhum com a originalidade e o contagiante vigor de sua história da América protagonizada pelos "pobres e oprimidos". Falava com autoridade da pobreza, da guerra e do racismo, pois trabalhara nos estaleiros de Nova York durante a Depressão, pilotara bombardeiros durante a 2ª Guerra e ajudara no parto do movimento pelos direitos civis, na Geórgia.

The People"s History of the United Artists, que eu saiba jamais traduzido no Brasil, era o livro que Will Hunting, o prodígio matemático do MIT encarnado por Matt Damon no filme O Gênio Indomável, a certa altura dava ao seu terapeuta como se fosse um talismã. Mas quando A. J., filho de Tony na telessérie A Família Soprano, chegou em casa com outro exemplar, vibrando por haver descoberto em suas páginas que Cristóvão Colombo fora um escravocrata e dizimara várias tribos de índios, a recepção foi bem diferente. "Nesta casa, Colombo é um heroi, e fim de papo!", berrou-lhe o pai, que por certo desconhecia também os relatos pós-colombianos do padre espanhol Bartolomeu de Las Casas.

Zinn foi um dos pioneiros da campanha pelos direitos civis e um dos primeiros a protestar contra a Guerra do Vietnã, engajamentos que lhe custaram, em décadas diferentes, dois empregos: um no Spelman College, de Atlanta (Geórgia), a mais antiga instituição de ensino exclusivamente para moças negras do país (Alice Walker, autora de A Cor Púrpura, foi sua aluna), outro na Universidade de Boston - mais um baita desconto nos valores da aposentadoria.

Suas aulas e palestras eram disputadas como um clássico esportivo. Simpático, vibrante, torrencial, seduzia até os policiais incumbidos de prendê-lo em marchas cívicas e passeatas de protesto. Como resistir a um sujeito dócil, avuncular e sorridente, que argumentava estar ali, ou seja, numa manifestação pública, "não para perturbar a paz, mas para perturbar a guerra"?

Em outubro, o cantor negro Harry Belafonte fez uma leitura de A People"s History of the United States, em Washington. Dois meses depois, o History Channel exibiu o documentário The People Speak, adaptação oblíqua do best seller de Zinn, com a participação de Matt Damon (vizinho do historiador em Boston), Morgan Freeman, Danny Glover, Josh Brolin e Bob Dylan. Como Zinn parecia vender saúde, não foram homenagens pé na cova, mas espontâneas manifestações de respeito e apreço pela permanência da obra do historiador, também personagem de um documentário, Howard Zinn: You Can"t Be Neutral on a Moving Train, que quase ficou entre os finalistas do próximo Oscar.

Zinn simpatizava com o socialismo, ou melhor, com a utopia socialista, mas nunca se deixou levar por dogmas e ilusões ideológicas. Sonhava e sempre lutou por uma sociedade mais justa e gentil, "com os pés no chão", dizia, como convém a um radical pragmático. Se tivesse vivido na França dos anos 30, militaria no Front Populaire. Seu mestre indiscutível foi o decano da desobediência civil, Henry David Thoreau, que na metade do século 19 recusou-se a pagar impostos em protesto contra a escravidão e a guerra dos Estados Unidos com o México.

Topava dormir em tendas, acampava na lama, não media sacrifícios para "um bom e necessário protesto". Incansável, na véspera de aposentar-se, liderou uma manifestação dos alunos contra uma medida discricionária do reitor da Universidade de Boston. Se houver uma nuvenzinha no céu para certo tipo de dissidente, Zinn terá toda a eternidade para jogar conversa fora com Thoreau, Eugene V. Debs, Susan B. Anthony, Emma Goldman, I. F. Stone, Norman Mailer, enquanto espera pela chegada de Noam Chomsky e Gore Vidal. Essa é sua turma.

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