O senador e sua 'reductio ad Hitlerum'

Comparar a Hitler equivale a criar cabide de emprego

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2009 | 01h52

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A semana começou com um patético show de vitimização do presidente do Senado. Num discurso tão breve quanto indignado, Sarney acusou este jornal de mover contra ele uma "campanha sistemática", que comparou à "prática nazista" de denegrir a honra e a dignidade das pessoas. Não satisfeito com a hipérbole, anexou-lhe outra, equiparando-se aos judeus "levados à câmara de gás" pelos nazistas. Ninguém chorou. Pior: ninguém levou suas palavras a sério.

 

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Pena, pois o chororô do Titio Noel do PMDB justificaria um novo processo de cassação, desta vez por quebra de decoro argumentativo. No âmbito da oratória, comparar alguém a Hitler ou alguma instituição ao Terceiro Reich virou delito tão grave quanto fazer do Senado um cabide de empregos para parentes e apaniguados.

O nazismo foi um movimento e, depois, um regime político sem paralelos, único em sua ambiciosa e implacável crueldade. Quando o injetamos numa discussão, estamos evocando a mais sistemática e acabada forma do Mal. Não faz sentido transformá-lo em símbolo ou referência para tudo que nos desagrade ou enfureça, a menos que estejam em pauta os genocídios comandados por Pol Pot e Milosevic ou os regimes de Pinochet e Kim Jong II, por exemplo. Mas não há como sustar a permissividade comparativa. Nessa semana até o logotipo da campanha antifumo do governo de São Paulo foi comparado, na internet, a uma suástica.

Na sexta-feira da outra semana, o comentarista político Michael Gerson, do Washington Post, reclamou em sua coluna do uso gratuito das palavras nazista, nazismo e correlatos, em alta desde que o novo plano para o setor de saúde proposto pelo governo Obama entrou em discussão no Congresso. A queixa de Gerson procede, mas não é recente, longe disso, a tendência de certos políticos para desqualificar ou mesmo calar seus adversários com a ultima ratio dos polemistas destemperados. À provável exceção dos anticomunistas mais ferrenhos, não há quem não considere a pecha de nazista o maior dos opróbrios, o insulto supremo.

Artifício retórico presuntivamente empregado para esquentar o debate ou até mesmo iluminá-lo com um provocativo alerta (não foi outra minha intenção ao aproximar, neste espaço, o clima triunfalista da convenção dos republicanos que sacramentou a candidatura Sarah Palin, um ano atrás, da histórica convenção do Partido Nazista em Nuremberg), só excepcionalmente não se reduz a uma gratuidade semântica, a uma "reductio ad Hitlerum", irônica apagogia inventada pelo filósofo alemão Leon Strauss na qual se enquadram todas as comparações reducionistas com Hitler e o nazismo, cujo efeito sobre qualquer discussão costuma ser letal. Como prosseguir um bate-boca subitamente envenenado por parâmetros tão incomparáveis?

Ainda que ocasionalmente irrompa em invectivas de liberais e esquerdistas de todos os matizes, a "reductio ad Hitlerum" é vício mais encontradiço entre os neoconservadores, inclusive entre aqueles ideologicamente influenciados por Strauss. Se bem que muitos direitistas permaneçam fiéis à velha taxonomia anticomunista (o que significa que alguns setores continuam estigmatizando os democratas de "socialistas" empenhados em sovietizar a América), a maioria trocou de demônio. Parafraseando Timothy Noah, agora são os liberais que testemunham diariamente a ressurreição de Hitler.

Cartazes xingando Obama de nazista, portados por radicais da minoria republicana que não aceitam a reforma no sistema de saúde do país, foram vistos em diversos pontos da América nas últimas semanas. Insuflados por políticos de inacreditável desonestidade intelectual e comentaristas (Rush Limbaugh, Charles Krauthammer, William Kristol, Chuck Grassley) que se esforçam para fazer da leviandade uma virtude, eles invadiram reuniões e debates públicos sobre a reforma com uma truculência assustadora.

Pareciam programados para um linchamento. Alguns vieram armados. Outros pediram sangue. "Chegou a hora de regar a árvore da liberdade", cobrava o cartaz de um manifestante, malversando uma frase histórica de Thomas Jefferson: "A árvore da liberdade precisa ser regada de vez em quando com o sangue dos patriotas e dos tiranos". Chocada, a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, não resistiu à tentação de comparar os manifestantes a uma horda fascista. Fascista é uma categoria conceitualmente mais elástica do que nazista e, até prova em contrário, foi bem aplicada por Pelosi.

Tanto é assim que até hoje não inventaram uma "reductio" para o fascismo, nem uma regra para desautorizar analogias com o populismo nacionalista, antiliberal e autoritário implantado por Mussolini na Itália e disseminado por Portugal, Espanha e outros países. Além da "reductio" straussiano, o nazismo motivou o jurista Mike Godwin a celebrizar na internet a Lei das Analogias Nazistas. "Quanto mais se prolonga uma discussão, maior a probabilidade de que nela se faça uma comparação com Hitler e o nazismo", diz a lei, em vigor há quase uma década.

Goodwin recomenda que se evitem falácias para não enfraquecer ou anular o impacto das comparações válidas. Diversos grupos de debates acrescentaram-lhe corolários, aceitos por seu criador, que também aprovou a regra pétrea sugerida por um site segundo a qual toda discussão deve ser suspensa quando algum participante incorrer numa analogia descabida - e o autor da analogia declarado perdedor. Se válida no Senado, Sarney teria sido interrompido no meio de sua "reductio ad Hitlerum".

Imagem infeliz

SEGUNDA, 17 DE AGOSTO

Sarney acusa o Estado de adotar "uma prática nazista" contra ele ao informar, na edição do dia anterior, que a Aracati/Holdenn Construções pagou por dois imóveis usados pela família em SP. O senador não explicou a relação da sua família com a empreiteira.

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