O senador no olho do furacão

No Iraque, Suplicy distribuiu autógrafo de Pelé, cantou Bob Dylan e, adivinhe, discorreu sobre a Renda Básica

O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2008 | 01h06

Em sua edição de 28 de outubro de 2007, o Aliás informava: "Suplicy vai à guerra". Convidado pela Assembléia Nacional do Iraque, Eduardo Suplicy levaria ao país a sua proposta, adivinhe, da Renda Básica de Cidadania. O conceito, uma quase obsessão do senador petista, baseia-se em experiência implantada no Alasca, onde 50% dos royalties provenientes da exploração do petróleo são distribuídos igualmente entre os habitantes. A idéia vinha sendo acalentada por Sérgio Vieira de Mello, no curto período em que o brasileiro foi o representante especial da ONU para o Iraque, onde morreu vítima de um atentado em 2003.Entre os dias 16 e 18 de janeiro (a curta estada é uma exigência das normas de segurança), Suplicy esteve em Bagdá. A seguir, o seu diário de bordo. *"Assim que chegamos, por volta das 10h da manhã do dia 16 de Janeiro, fomos cercados por seis seguranças com armas de fogo semi-automáticas. Eles já tinham feito uma varredura em todos os lugares do grande saguão do aeroporto. Para percorrermos o caminho até a Zona Verde de Bagdá, vestimos capacetes e coletes à prova de balas. Uma empresa inglesa de segurança fora contratada pelo governo brasileiro para nos escoltar durante o período de permanência no Iraque. No lugar onde fomos acomodados, cada quarto, muito simples, estava protegido contra potenciais morteiros - havia pilhas de sacos de areia nas janelas e sobre os telhados."Nawfal Assa Mossa Alssabak, vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Iraque, um iraquiano que reside no Brasil desde a década de 1980, me acompanhava na viagem. Era a primeira vez que Alssabak voltava a Bagdá, onde nasceu. Ele estava desapontado: não conseguia reconhecer a cidade, que considerava a mais bonita do mundo. Muros de concreto com 4 metros de altura impedem que se aviste o horizonte. Um sinal da divisão que hoje marca o Iraque."Eu tinha a convicção de que essa seria uma das viagens mais significativas dos meus 66 anos de vida. Estava convencido de que o Iraque poderia implementar efetivamente a Renda Básica de Cidadania, um caminho para a pacificação do país. A convite da presidência da Assembléia Nacional do Iraque, eu estava lá para falar sobre isso. "Meu primeiro encontro foi com o representante especial da Secretaria-Geral das Nações Unidas para o Iraque, Staffan de Mistura - um ítalo-sueco que ocupa a vaga deixada pelo brasileiro Sérgio Vieira de Mello, morto no ataque ao escritório da ONU em 19 de agosto de 2003. Antes de deixar São Paulo, conversei com Carolina Larriera, a viúva de Sérgio, que também trabalhava no escritório quando um caminhão explodiu a poucos metros do prédio, matando 22 pessoas. Carolina me pediu que levasse um pouco de terra do Brasil para espalhar no local do atentado. Lamentavelmente, a construção se localiza fora da Zona Verde. Não tive como atendê-la. "O segundo encontro se deu com o presidente da Comissão Consultiva do Primeiro-Ministro, Thamir A. Ghadhban, que também foi ministro do Petróleo. Expliquei-lhe como o Iraque poderia seguir o exemplo do Alasca, que separa 50% dos royalties provenientes da exploração dos recursos naturais para criar um fundo permanente que pertence a todos os habitantes. Ele me apresentou mais razões para fazê-lo: o país havia ultrapassado a Arábia Saudita e passava agora a ocupar o primeiro lugar do mundo em reservas conhecidas de petróleo."Em conversa com o ministro do Planejamento, Ali Ghalib Baban, homem-chave na elaboração de políticas para o futuro, falei sobre economistas, filósofos e cientistas sociais favoráveis à idéia da Renda Básica. O ministro explicou então como o Iraque tem analisado as diversas experiências dos principais países produtores de petróleo. Mas, devido à destruição causada pela guerra, boa parte dos recursos tem sido destinada à reconstrução - inclusive dos próprios mecanismos de extração do petróleo."O ex-primeiro-ministro e líder da coalizão principal do Conselho de Representantes do Iraque, Ibrahim al-Jaafari, nos recebeu para uma conferência e um jantar na sua casa. Havia mais de 40 autoridades presentes. Tive a palavra por cerca de 50 minutos, o suficiente para explicar as vantagens da proposta da Renda Básica na promoção do senso de solidariedade entre xiitas, sunitas, curdos, cristãos, judeus e outros grupos. Enfatizei que tudo estaria em acordo com o Alcorão e com os escritos de seus seguidores, e que os ensinamentos dos princípios da justiça e igualdade no Islã são similares àqueles do cristianismo. "Falei ao grupo sobre como se desenvolveram no Brasil o Programa Bolsa Família e outros que o precederam desde os anos 1990. Ao final, comentei ter lido uma entrevista do técnico Jorvan Vieira, brasileiro que dirige a seleção nacional de futebol do Iraque, campeã dos Jogos Asiáticos de 2006. Jorvan disse que, no começo, foi difícil para os xiitas passarem a bola para os sunitas. Mas, a partir do momento em que ele conseguiu harmonizar, o time não perdeu mais. Antes de embarcar para o Iraque, pedi a Pelé que autografasse duas camisetas: uma do Santos e outra da seleção brasileira. Dei a camisa do Santos para Jaafari."No dia 17 de Janeiro, fomos recebidos na residência do presidente do Conselho de Representantes, Mahmud al-Mashhadani. Ele usava a tradicional vestimenta árabe, e justificou a escolha de me receber em casa porque, como brasileiro, eu era o exemplo de uma sociedade na qual pessoas de diferentes origens podem viver em harmonia. "Contei ao presidente Mashhadani sobre o discurso que fiz no Senado brasileiro, em setembro de 2002, quando o governo dos Estados Unidos ameaçava atacar o Iraque. No pronunciamento, pedi ao presidente George Bush que prestasse atenção às recomendações de Martin Luther King Jr.: nunca deveríamos beber do cálice da violência, do ódio, da vingança e da guerra; deveríamos sempre enfrentar a força física com a força da alma. Depois, pedi permissão a Mahmud al-Mashhadani para cantar a canção de Bob Dylan com a qual concluí aquele meu discurso. Finalizei: ?How many roads must a man walk down...?. E dei-lhe a camisa da seleção - ?Desejo Paz para o Iraque, Pelé?."Durante esses dias em Bagdá não me senti em nenhum momento sob ameaça. Mas a imprensa iraquiana registrou, em 18 de janeiro, que dois morteiros caíram a 1 km de distância da residência de Jaafari. Na semana seguinte, duas mulheres suicidas explodiram-se no mercado popular de Bagdá, matando 73 pessoas e ferindo mais de 100. "No retorno ao Brasil, Carolina Larriera me convidou para participar da recepção, no Rio de Janeiro, ao Prêmio Nobel da Paz José Ramos-Horta, presidente do Timor Leste. Contei a Ramos-Horta sobre minha viagem ao Iraque. Durante quase uma hora, falamos a respeito da Renda Básica de Cidadania. Uma nova nação como o Timor Leste, com 1,1 milhão de habitantes e uma renda mensal em torno de US$ 100 milhões provenientes da exploração de gás e petróleo, também poderia criar um fundo que seria capaz de pagar uma renda a cada habitante do país. Ramos-Horta me convidou para ir ao Timor explicar a idéia ao primeiro- ministro, Xanana Gusmão, e ao Parlamento. "Na segunda-feira passada, José Ramos-Horta foi vítima de um atentado. Enquanto escrevo este artigo, ele se recupera de várias cirurgias para a extração de balas e estilhaços no estômago e no pulmão."

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