O Serra acordou!

Virtude ou vício; outra questão. O fato é que, em seu propósito de chegar à Presidência da República, José Serra tornou-se um exemplo de tenacidade - assim como Lula e Maluf, no passado. Enquanto houver ar, Serra respirará o sonho de governar o país. Embora já tenha tido duas oportunidades, o querer, pelo menos, é legítimo. Conheceu percalços e derrotas e não desistiu; ninguém lhe poderá negar a determinação. Resta saber se seus companheiros compreenderão assim.

CARLOS MELO,

07 de julho de 2013 | 02h10

Os acontecimentos dos últimos dias abriram buracos enormes num muro que parecia determinado a proteger a reeleição da presidente Dilma. Muita coisa mudou. Num processo marcado pela imprevisibilidade, as fendas no petismo tornam-se, agora, "janelas de oportunidade" para os adversários. E oportunidades para Serra são montanhas no caminho dos demais candidatos. O ex-governador se movimenta no PSDB e fora dele. Possui conexões e aliados que lhe darão estímulo e eventualmente abrigo se algum cavalo passar mais uma vez encilhado.

Seu maior problema, no entanto, é que o embate político do Brasil atual não reside na justeza ou não das pretensões pessoais. A disputa real se dá entre o futuro e o passado; entre a possibilidade de abrir novos campos de diálogo ou restringi-los ainda mais. Numa dinâmica mais célere e frenética, o futuro pede passagem para que a política sintonize a sociedade e a economia. Mas, ao mesmo tempo, o passado se ajeita para recompor seu espaço e status.

Neste momento, personagens novos e antigos vão às janelas olhar a paisagem e recalcular as possibilidades. Há o risco da radicalização do processo; pingo virar letra; reticências, abecedário. "O diabo na rua, no meio do redemoinho." Se até mesmo os tolerantes perdem a paciência e os pacientes se enchem de ansiedade, o que esperar de quem gosta de brincar com gasolina ao lado da fogueira?

A crise liberta todos os sentimentos e disputas pelo controle dos movimentos. No clima da Copa, Dilma, por exemplo, supôs "matar no peito". Influência, talvez, do "Pelé no banco", julgou ser a craque que não é. Zagueira esforçada, no máximo, errou o pé. Faltou tato - e a estrela de um Felipão. Na arquibancada, o PT ensaiou mobilizar a torcida e levou alguns sopapos. Custa admitir, mas o manejo da crise tem sido grave comédia de erros: improvisos e arrebatamento; nada mais que precipitação. Falta liderança e capacidade de persuasão; como também boas perspectivas na economia.

Os pronunciamentos e medidas de Dilma ficarão como uma narrativa desastrada. No plano da comunicação, apresentou-se primeiro como técnica entediada. Gerentes - pela ausência de carisma, tino e perspicácia - não dão bons presidentes. João Figueiredo passou à história como "ótimo segundo, péssimo primeiro". Esta nova sociedade, formada à sombra do sistema, ressente-se de uma Nova Política.

Foi mesmo inacreditável que tenha anunciado pactos (no plural) antes das reuniões para um pacto - o que deixa de ser pacto, torna-se imposição. Como diria a garotada que foi às ruas, Dilma foi "sem noção". A desarticulação do Planalto entrou pelo beco, perdeu-se no labirinto; expôs o governo aos minotauros de sua coalizão. Mais que acordar gigantes - tola metáfora ufanista -, Dilma e as ruas ressuscitaram o Lázaro que tem sido a oposição.

As circunstâncias são mesmo, na maioria das vezes, mais decisivas que os atores: a fortuna e a glória quase por acaso. O jogo ficou aberto: para Marina, enfraquecida pela falta de musculatura partidária, foi fortificante; para Aécio, que tateava uma oposição sem relevo, estimulante. Para Serra, que consideravam acabado, um revigorante. Para Eduardo Campos, equilibrando-se em ambiguidades, a possibilidade de tornar-se o "Amarildo" de um Pelé que não possa ir a campo.

Mas voltemos ao princípio: além do fantasma da inflação, o espectro de José Serra volta a rondar o ambiente político. Do alto da janela de um casarão de sonhos e reminiscências, o ex-governador encara novamente a luz do dia. Foi o último adversário de Dilma e o mais renitente crítico do petismo. É ainda quem mais acirra a polarização, um confronto de sectarismos que tanto interessa a Serra quanto a Dilma.

Mas remete mais esta eleição ao jogo jogado do passado, sem olhar para a frente, desconsiderando o futuro. Foi assim em 2010 e resultou neste 2013. Radicais lado a lado vibrarão com o que, por enquanto, é apenas uma hipótese, a hipótese José Serra. Afinal, a polaridade é combustível de espíritos e textos que se alimentam de calor constante; combustão para retóricas inflamadas. Mas, será a ressaca daqueles que, muito pelo contrário, foram às ruas imaginando beber o néctar do novo.

CARLOS MELO É CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER

 

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