O silêncio intolerável

Mais um infeliz sai do anonimato para repetir a velha saga humana de ser também uma besta

Luiz Felipe Pondé*, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2007 | 22h14

Mais um jovem normal, de uma família normal, matou colegas normais, uma diretora normal de escola e, como é normal nesses casos, se matou ao final. Uma das coisas mais banais de nosso mundo é como aceitamos o que se repete. Aliás, a máxima "a verdade é uma mentira repetida cem vezes" não é mera racionalidade publicitária nazista, ela é científica. No limite, ela revela nosso ser profundo: temos uma vocação (piorada pela sensibilidade democrática) para repousar na inércia da maioria. O fato aconteceu em um dos lugares onde a Humanidade deu certo: a Finlândia. Quando isso acontece num paraíso da Humanidade (onde os sentimentos seriam harmônicos com a correta política dos "valores"), os amantes do produto emancipação entram, apenas por um momento, em pânico. Porém, os fanáticos se recuperam logo. Há poucos meses a Finlândia figurou na mídia como sistema educacional modelo, prova inexorável de que seria possível uma política pública em grande escala formando pessoas melhores: a educação em grandes quantidades nos salvará a todos. Todavia, a marca da Humanidade eternamente triste e louca resiste às utopias. Um dos grandes paradoxos da condição contemporânea é nossa guerra ao sofrimento e parece ser ele um dos fatores mais poderosos na experiência humanizadora verdadeira. Não é a felicidade que nos torna mais humanos, essa é uma das grandes mentiras do projeto moderno. Mas não se deduz daí, por vício típico das ciências humanas, que devamos produzir sofrimento em grandes quantidades.Existem modos mais ou menos sofisticados de banalizar fatos e ambos marcados pelo instinto animal de tornar-se maioria. Um modo sofisticado é quando sociologizo algo: quantos por cento de armas à disposição de quantos por cento de adolescentes existe na Finlândia? Alguma psicóloga especialista em adolescentes que filmam a si mesmos, e depois matam colegas e diretoras de escola, nos ensinará que nosso monstro na realidade não era um monstro, mas sim sofria de uma síndrome que o levou a esse comportamento. Controvérsias sobre a natureza genética ou psicossocial da síndrome se estabelecerão como sendo o saber oficial acerca desse tipo de jovens que filmam a si mesmos e depois matam colegas e diretoras de escola. Outros estudos indicarão o índice por amostragem de bairros e renda familiar: qual a renda per capita das cidades onde isso acontece? Logo algumas sacerdotisas do feminismo perceberão que talvez apenas homens façam isso e que estamos diante da velha e cruel estrutura patriarcal formando suas vítimas, e que a solução seria uma reengenharia dos gêneros. Os mais místicos investigarão se esses jovens são carnívoros ou vegetarianos. O que uma visão quântica de mundo teria a nos dizer sobre o átomo imprevisível que age na cabeça desse tipo de jovem? Outras culturas matam jovens a cada lua cheia. O que haveria de tão especial nesse caso? Puro etnocentrismo. E quantos jovens de baixa renda foram assassinados naquele exato momento na periferia de Lagos, na Nigéria? Quem disse que há mil anos jovens não faziam a mesma coisa em terras européias? Nunca poderemos garantir que jovens não se filmarão e não matarão colegas e diretoras de escolas por pura falha da mecânica humana. Podemos, talvez, aumentar as câmeras preventivas que filmam os jovens que um dia poderão filmar a si mesmos e matar colegas e diretoras de escola. Os psicopatas nos chegam já com manuais de como são produzidos. Enfim, a ciência pode ser um dos modos mais sofisticados de tornar algo irrelevante, depende de como a utilizamos. Hoje em dia ela se reproduz pelo mundo, submetendo qualquer outra forma de cognição à sua indústria política da verdade, se travestindo de disciplina cética. Temo que a experiência da irrelevância científica seja uma das formas necessárias para suportarmos um mundo que nos sufoca na saturação do mito da "consciência crítica". E o saber das ciências sociais, em grande parte, pode ser inútil, como disse Norbert Elias: nada se pode deduzir como comportamento social cientificamente fundamentado. Talvez seja melhor assim: uma das piores coisas do mundo são comportamentos deduzidos a partir de verdades psicossociais. É neste sentido que os totalitarismos são científicos, e não porque neles existam loucos que fazem experiências biológicas.Prefiro que alguém escreva um conto sobre o intolerável que nos habita, e como ele saiu correndo pelas salas de aula matando colegas e a diretora da escola na Finlândia. E aqui, confio mais nas Humanidades (e sua natureza difusa, sem o culto do "Homem") do que nas ciências humanas. As primeiras representam a humilde tentativa humana de enfrentar sua condição humana desesperada, enquanto as segundas calculam nosso progresso. Acho que devemos relegar este infeliz ao seu anonimato de onde saiu para repetir, assim como um animal louco, a velha saga humana de ser também uma besta. As verdadeiras estrelas dessa peça trágica são os colegas e a diretora, e aqueles que choram por eles. Nos quartos vazios onde antes se ouvia música barulhenta e agora habita o silêncio intolerável do filho morto, na labuta cotidiana de uma mulher cujo rosto foi reduzido a pó e que buscava arrancar algum sentido em meio à dura experiência do tornar-se humano (supondo, é claro, que a diretora fosse uma mulher de boa vontade) parece-me estar a indagação mais significativa de um fato como este: o intolerável mostra sua face e com isso nos humaniza. A escola é hoje um espaço dilacerado pelo formalismo cego, pela burocracia asfixiante das maiorias, pelas pedagogias repetitivas da felicidade e do sucesso. Esta assombrada escola na Finlândia recebeu a visita ancestral do mal. Reconhecê-lo, parece-me, é sempre um ato civilizador: alunos e professores acordaram pela manhã, tomaram café, foram para a escola e viram o monstruoso diante de si, e ele tinha uma normal face humana. Façamos silêncio diante dela. *Luiz Felipe Pondé é filósofo, professor de pós-graduação de ciências da religião e do departamento de teologia da PUC-SP. Leciona também na Faap e é professor convidado do programa de ciências da saúde na Escola Paulista de Medicina. Autor, entre outros, de Crítica e Profecia: A Filosofia da Religião em Dostoievski (Editora 34) e Do Pensamento no Deserto (Edusp, ainda no prelo)QUARTA, 7 DE NOVEMBROUm dia de Columbine O estudante Pekka-Eric Auvinen, de 18 anos, abriu fogo em uma escola de Tuusula, Finlândia, matando sete colegas, a diretora, e matando-se em seguida. O assassino anunciara o banho de sangue em um vídeo. A Finlândia é um dos países mais pacíficos do mundo.

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