O síndico da ilha da fantasia

A biografia do homem mais ambicioso da Cuba pré-revolucionária mostra como a porção rica vivia antes de Fidel

Michiko Kakutani, The New York Times

14 de agosto de 2010 | 16h00

Império. Com uma ‘capacidade quase sobrenatural de ganhar dinheiro’, Lobo juntou a maior coleção de documentos napoleônicos fora da França

 

 

A imagem glamourosa e um pouco indecente que muitos fazem da Cuba pré-revolucionária é formada pelos filmes e pelo teatro. Havana é o animado e romântico refúgio onde a recatada e pudica Sarah Brown começa a se encantar pelo charme malandro do ousado apostador Sky Masterson em Eles e Elas. Havana é também onde Michael Corleone se encontra com colegas da máfia para repartir o controle do lucrativo ramo dos cassinos em O Poderoso Chefão 2. A cidade é a Paris do Caribe, a Monte Carlo das Américas, um lugar onde, nas palavras do personagem Hyman Roth, de O Poderoso Chefão, os hotéis eram "maiores e mais luxuosos do que qualquer uma das espeluncas em que nos hospedamos em Vegas", onde os turistas americanos bebericavam drinques exóticos, assistiam a apresentações eróticas e cambaleavam bêbados pelas ruas de uma das cidades mais festivas do planeta.

 

Como nos lembra o jornalista John Paul Rathbone em seu fascinante novo livro, The Sugar King of Havana (O Rei do Açúcar de Havana), a Cuba pré-revolucionária era também um santuário aristocrático no qual os membros das classes mais altas - como a mãe do próprio autor, que era filha de um próspero empresário do ramo das lojas de departamentos - passavam o tempo no iate clube, no clube de campo e em bailes de gala. Cada rua era repleta de casas de estuque branco. Havia um latifundiário tão rico que viajava de Nova York até lá usando seu trem particular e seu navio, e eram muitas as extravagantes festas de debutante e os casamentos ainda mais luxuosos.

 

E então, subitamente, com Fidel Castro, tudo mudou de uma hora para a outra: "Foi então que todas as festas com convidados de gravata-borboleta, mulheres de vestido elegante, as debutantes nos elaborados vestidos de seda branca, algodão e tule; os extravagantes espetáculos no Tropicana; a máfia, seus cassinos e o famoso ator americano bêbado num pequeno bar da Velha Havana chegaram a um abrupto fim, levados pelo vento, e os traços e histórias que deixaram para trás evoluíram até se tornarem lendas."

 

Em seu livro, Rathbone, editor do Financial Times e antes responsável pela coluna Lex, conta a história da Cuba pré-revolucionária por meio do prisma do magnata que foi conhecido como o Rei do Açúcar: Julio Lobo, na época, o homem mais rico do país, uma figura que "se tornou um exemplo do modo de vida que existia em Havana antes da fuga do ditador Fulgêncio Batista, em 31 de dezembro de 1958".

 

Delírio. Apesar de Rathbone - que cresceu ouvindo as histórias da mãe sobre "aqueles delirantes anos de elegância e decadência" - ocasionalmente romantizar Lobo e o mundo no qual ele viveu, o autor nos traz um retrato extremamente detalhado desse homem complicado e atormentado, ao mesmo tempo que entrelaça habilmente uma breve história da Cuba moderna e a saga particular do protagonista. Ele transmite ao leitor uma imagem clara do mundo cintilante e cada vez mais violento que o "novo mago do açúcar" e sua família habitavam, capturando simultaneamente os profundos deslocamentos emocionais do exílio e os perigos e a persistência da nostalgia.

 

Brilhante homem de negócios e pioneiro do comércio selvagem, Lobo era tido como "dotado de capacidade quase sobrenatural de ganhar dinheiro". De acordo com Rathbone, no auge de seu império, Lobo era responsável por quase metade dos 6 milhões de toneladas de açúcar produzidas anualmente por Cuba na época e "sua fortuna pessoal era estimada em US$ 200 milhões, o equivalente a US$ 5 bilhões atuais". Os dons de Lobo como financista eram tão lendários que o governo de Fidel Castro chegou a lhe pedir que trabalhasse para o novo regime.

 

 

Vacilo. A vitória da revolução não fez o magnata dos cassinos tirar seu dinheiro do país

 

 

Lobo ajudou a financiar o Riviera e o Capri, "dois dos mais chiques hotéis-cassino abertos na década de 50"; namorou estrelas do cinema como Joan Fontaine e Bette Davis; e certa vez teria enchido uma de suas piscinas com perfume "para que Esther Williams, a estrela do filme Escola de Sereias, pudesse treinar suas coreografias quando visitasse a ilha". A descrição de Rathbone faz de Lobo um personagem quase folclórico: alguém que nadou no Mississippi, sobreviveu a tentativas de assassinato e certa vez foi "conduzido ao muro de fuzilamento e perdoado no último instante".

 

Mas Lobo foi mais do que um homem de negócios durão. Ele era também um ávido colecionador de arte e estudioso de Napoleão, tendo reunido o maior acervo de documentos sobre o imperador francês encontrado fora da França. E, apesar de se identificar com as ambições napoleônicas de conquista mundial, no fundo Lobo era um solitário, que celebrava os escritos de Emerson, Shakespeare e do filósofo estoico Epíteto.

 

Rathbone escreve que Lobo tentou encontrar uma forma de transmitir a seus empregados o controle de Tinguaro, seu engenho de açúcar favorito; que ele se opunha veementemente ao governo corrupto de Batista; e que até ajudou a financiar os rebeldes de Fidel Castro antes que as tendências comunistas do líder guerrilheiro se tornassem mais aparentes.

 

No pequeno mundo que era Cuba, onde os sócios de Batista, a máfia e os rebeldes muitas vezes eram ligados uns aos outros por meio de "uma densa e complexa rede de laços", diz Rathbone, Celia Sánchez - que se tornaria a confidente de Castro, sua secretária particular e suposta amante - era por acaso a filha do dentista de uma das propriedades de Lobo no leste da ilha. Ela trabalhou com a filha do magnata, María Luisa, "em programas sociais fundados por Lobo para ajudar lavradores de cana em situação de indigência" e "permaneceu próxima da família Lobo durante a revolução", apesar de suas diferenças políticas.

 

Presunção. Diferentemente de alguns latifundiários e empresários que tiraram seu dinheiro de Cuba no início da revolução, Lobo "continuou a investir em Cuba até o fim", escreve Rathbone. "Em parte, isso foi presunção da parte dele. Lobo ignorou os primeiros sinais de problemas, como uma bomba que danificou Tinguaro em 1957. Em parte, acreditava, como tantos outros, que poderia controlar Fidel, ou que os americanos - a apenas 150 km de distância - o fariam. Conversas que Lobo disse ter mantido com Allen Dulles, chefe da CIA, podem tê-lo convencido disso. Em parte, Lobo continuou a investir na ilha porque os acontecimentos avançaram tão rapidamente que logo se tornou tarde demais para voltar atrás."

 

Em outubro de 1960, pouco depois de uma reunião com Che Guevara, Lobo entrou num avião lotado e rumou para o México, e de lá para Nova York. Levou consigo apenas uma pequena mala e a escova de dentes. Deixou para trás seus quadros de El Greco, seus palácios, sua vasta fortuna.

 

Na década de 1970, Lobo levava uma vida pacata em Madri, gastando o dinheiro que as filhas enviavam todos os meses e também aquilo que obteve com a venda dos últimos documentos napoleônicos que uma delas conseguiu tirar de Cuba. Morreu em 30 de janeiro de 1983 e seu corpo, vestido com uma guayabera e envolto na bandeira cubana, foi sepultado em Madri. Na época, de acordo com Rathbone, a maioria de seus amigos e inimigos já estava morta ou vivendo no exterior e "somente um punhado de enlutados compareceu ao enterro".

 

* Tradução de Augusto Calil

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