JORGE SILVA/REUTERS
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O Sistema por dentro

O celebrado programa musical do maestro Gustavo Dudamel faz por merecer o título de ‘Orquestra Venezuelana de Escravos’?

João Marcos Coelho, O Estado de S. Paulo

06 Dezembro 2014 | 16h00

“O futuro da música está na Venezuela.” A frase pronunciada pelo maestro Simon Rattle, titular da Filarmônica de Berlim, em sua primeira visita a Caracas para conhecer El Sistema, nos anos 1990, virou slogan. Seu antecessor na Filarmônica de Berlim, o italiano Claudio Abbado, foi igualmente enfático. Visitou várias vezes Caracas, regeu a Orquestra Jovem Simón Bolívar. “Uma experiência que mudou minha compreensão da música. Ela salva vidas”, declarou no livro-DVD L’altra voce della musica (Saggiatore, 2006). 

Exportado para 60 países, inclusive o Brasil (o Neojibá, na Bahia, é ligado ao projeto mãe), El Sistema nasceu em 1975 numa garagem na periferia de Caracas, onde 11 alunos integravam o embrião do projeto. Estudavam e tocavam sob o comando de José Antonio Abreu. Por extenso, Sistema quer dizer Fundação do Estado para o Sistema de Orquestra Juvenil e Infantil da Venezuela. 

Um projeto de inclusão social pela música simples e direto. Desde os 2 anos de idade as crianças convivem com um instrumento musical. Além das aulas, também se dá o suporte social para a família e a criança a fim de que ela tenha condições de tocar numa das centenas de orquestras sinfônicas infantis e juvenis. Mais de três dezenas delas já são profissionais, presentes nos 90 centros do Sistema distribuídos por toda a Venezuela. Embora não haja números e estatísticas confiáveis, estima-se em mais de 1 milhão as crianças que já passaram pelo Sistema nestas quatro décadas. Elas estudam seis horas por dia, seis dias por semana. Outro milhão de crianças participam em outros países. Estimativas também apontam para 400 orquestras infantojuvenis em 24 Estados da Venezuela e um orçamento de US$ 110 milhões (os números conhecidos mais recentes são de 2010). 

O conceito central é que o futuro da música e o resgate social passam pela instituição da orquestra sinfônica. Por isso, seus produtos mais reluzentes, hoje com imensa projeção mundial, são um maestro e uma orquestra: Gustavo Dudamel, de 33 anos, e a Orquestra Sinfônica Jovem Simón Bolívar (recentemente, retirou o “jovem” do nome). Aos 18 anos, ele assumiu a direção da orquestra. Ambos estrearam em CD já pela mais ilustre gravadora clássica, a Deutsche Grammophon, e na primeira temporada se exibiram nos mais seletos palcos europeus. Hoje, Dudamel é o sexto regente em faturamento no ranking dos titulares das orquestras norte-americanas, com um salário anual de US$ 1,43 milhão como titular da Filarmônica de Los Angeles (o primeiro é o italiano Riccardo Muti, titular da Sinfônica de Chicago). 

Centenas de visitantes do universo musical – de jornalistas especializados a músicos de muitos países, passando por dirigentes e gestores – vocalizaram o mesmo fascínio. Todos saúdam seu duplo êxito: social, pelo resgate da população mais pobre por meio da arte; e a qualidade musical. Numa retribuição até certo ponto lógica, que se repete em todo concerto, os jovens músicos da Simón Bolívar adotam o gesto patriótico de se enrolarem na bandeira de seu país enquanto tocam temas populares venezuelanos nos extras. Aparentemente, o maestro Abreu, que fundou o Sistema antes de Hugo Chávez implantar o socialismo bolivariano na Venezuela, soube negociar com não só a sobrevivência como a transformação do Sistema em ferramenta de propaganda do regime.

Por isso, é improvável, mas possível, que o maestro Abreu supere Hugo Chávez e seja daqui a alguns anos tema de tributo semelhante ao anunciado essa semana: o governo patrocina a estreia de um balé em Caracas em homenagem a Chávez, contando sua vida desde sua condição de menino pobre vendendo na rua doces em forma de aranha até a ascensão ao poder no país. Ao contrário de Chávez, que conviveu com uma oposição expressiva em seus 13 anos na presidência, espanta o nível de unanimidade em torno do maestro Abreu e El Sistema. Não parecia haver descontentes nesse imenso coro. 

Mas este mês surgiu o primeiro. E sua motivação não é primariamente social ou política, embora também englobe isso, mas musical. Haverá muita gritaria contra; por isso, antes de conhecer suas radicais críticas ao Sistema, é fundamental saber que Geoff Baker não é nenhum arrivista. Professor de musicologia e etnomusicologia na Royal Holloway University of London, é emérito especialista na música da América Latina. Publicou extensivamente sobre a música no continente: estudou a música colonial no Peru em Imposing Harmony: Music and Society in Colonial Cuzco (Duke UP, 2008); editou o importante volume coletivo Music and Urban Society in Colonial Latin America (Cambridge UP, 2011); analisou o rap e o reggaetón em Havana em Buena Vista in the Clube: Rap, Reggaetón, and Revolution in Havana (Duke, 2011). Concebeu e dirigiu a série de seis documentários Growing in Music sobre métodos de aprendizado musical no Mali, Guiné, Cuba e Índia. Ao contrário dos milhares de curtas visitas de dias ou uma semana de ilustres estrangeiros guiadas pelos dirigentes do Sistema ao longo das últimas décadas, Baker viveu por um ano, entre 2010 e 2011, na Venezuela. Ou seja, percorreu o circuito “oficial” das visitas, mas em seguida mergulhou nas entranhas do projeto, entrevistando centenas de estudantes, músicos, monitores e integrantes das sete orquestras. Detalhe: todos falaram sob a condição de permanecerem anônimos, com medo de retaliações.

“Cheguei à Venezuela”, diz Baker ao Aliás, “com uma glamorosa visão positiva do Sistema. Estava fascinado pela ideia da transformação social pela educação musical e quis saber mais sobre esse milagre.” O que descobriu, entretanto, parece mais com aquele velho ditado: “Por fora bela viola; por dentro, pão bolorento”. Ou, como dizia o educador Rubem Alves, “em Minas, onde nasci, se diz que para se conhecer uma pessoa é preciso comer um saco de sal com ela”. O sal, no caso, foi o caldo de cultura do denso e bem documentado livro El Sistema – Orchestrating Venezuela’s Youth (Orquestrando a Juventude Venezuelana, em tradução literal), de 368 páginas, que acaba de ser lançado pela Editora da Universidade Oxford.

Suas conclusões são contundentes e desconstroem o mito do Sistema. Primeiro, as questões musicais. Num momento em que a educação musical começa a recusar o mero treinamento baseado na música europeia de concerto, El Sistema significa um passo atrás ao pregar a salvação das crianças pobres e marginalizadas por meio da música sinfônica tradicional. Assim, funciona como gigantesca usina de fornecimento de músicos treinados, mas não artistas com visão mais aberta e criativa de sua arte. “Vejo El Sistema como um programa de treinamento, não educacional. Ele prefere a disciplina em vez da criatividade e do pensamento crítico. O maestro Abreu pronunciou uma frase sintomática a respeito: ‘Como educador, pensei mais em disciplina do que em música’.”

A ascensão meteórica de Dudamel e da Orquestra Simón Bolívar – propiciadas pelas declarações entusiásticas de Abbado e Rattle na abertura deste artigo – deve-se, segundo Baker, a uma azeitada máquina de propaganda e relações públicas. Mais que isso: a um negócio, uma corporação. Abbado e Rattle, as orquestras do Sistema e Dudamel eram todos contratados da mesma agência artística, a poderosa britânica Askonas Holt. Uma olhada no portfólio de artistas da agência mostra que até hoje ela representa todos os grupos do Sistema e Rattle.

Sua análise de Dudamel é dura, mas faz sentido: “Sem dúvida, ele tem talento”, diz, “embora alguns conhecedores profundos de música não estejam convencidos de sua qualidade. Mas sua ascensão meteórica está relacionada à narrativa histórica básica do Sistema sobre a salvação dos pobres pela música, pela estratégia efetiva de relações públicas do Sistema, pelo poder de Abreu para atrair padrinhos como Rattle e Abbado, à percepção da indústria de que ela enfim encontrou um salvador. E isso quer dizer alguém que aumenta as vendas de ingressos e CDs para novos públicos. Há ainda um fator, o exotismo, que sempre esteve presente na Europa desde o século 16: ‘Uau, vejam esses nativos, eles podem tocar nossa música tão bem como nós’”. 

Música contemporânea no Sistema inexiste. “Suspeito que o maestro Abreu não goste da música do nosso tempo. Mas o mais importante é que os políticos e financiadores das plateias internacionais não gostariam de ouvi-la. Afinal, Mambo e Ode à Alegria fazem todo mundo chorar e abrir seu talão de cheques. O Sistema é um programa populista, por isso não dá espaço para a vanguarda ou o pensamento musical revolucionário. O negócio é confirmar o status quo, social e culturalmente. Abreu é um arquiconservador.”

Sem dar refresco, Baker conta ter ouvido de músicos que a Orquestra Simón Bolívar é conhecida na Venezuela como “Orquestra Venezuelana de Escravos”. “As orquestras que se preparam para as turnês internacionais ensaiam de 10 a 12 horas por dia, seis dias por semana.” É coisa para galés.

Bem, então El Sistema é um projeto eurocêntrico ao focar-se na orquestra sinfônica e no cânone europeu das obras-primas. Um colonialismo impossível de ser defendido hoje. “Seu eurocentrismo”, escreve Baker em seu livro, “é mais do que homenagear o passado europeu: a Europa ainda é vista como centro do universo da música clássica atual. A estética e as normas profissionais do Sistema são determinadas pela Europa, com a Filarmônica de Berlim como Olimpo ou Valhala a ser alcançado.” 

Talvez, entretanto, o motor mais profundo do Sistema não seja nem a inclusão social nem a qualidade musical. O business fala mais alto, sugere Baker. “Não concordo com a ideia de que El Sistema nasceu com a meta de ‘salvar as crianças’. Acredito que essa ideia se tornou central nos anos 1990, com a ascensão de Chávez. Abreu e Chávez fizeram um acordo: Chávez queria um programa educacional; Abreu conseguiu assim mais financiamento. Note que o Sistema não só sobreviveu, como se expandiu dramaticamente sob Chávez e agora, com Maduro. Abreu faria qualquer coisa para aumentar seu poder e consolidar seu projeto. Não podemos esquecer que Abreu e Chávez vêm de posições opostas no espectro político. Portanto, esse acordo era – e permanece – um fato extraordinário.” 

O Sistema age como corporação, uma espécie de Sistema Inc. A máquina de relações públicas estende o red carpet para os visitantes. Quanto mais importantes, maiores esforços e mais crianças são convocadas para tocar. É preciso arrancar lágrimas de todos os visitantes. Um músico venezuelano de primeira linha qualifica essas visitas como Disney Tours. É uma grande corporação piramidal, que depende da palavra de Abreu. “Portanto”, aponta Baker, “vai contra ideias contemporâneas progressistas sobre dinâmica de organização, desenvolvimento social, educação e formação para a cidadania democrática. Hiperdisciplina é uma boa maneira de produzir uma boa orquestra, mas ruim para educar as crianças a fim de torná-las flexíveis, músicos capazes de exercer o pensamento crítico e com consciência social. Além disso, ele se diz um programa de inclusão social, mas a instituição orquestra sinfônica não é inclusiva. Se você não consegue tocar Beethoven, é sacado. Há modos muito mais inclusivos, como os grupos de câmara, por exemplo. Mas o Sistema não está realmente interessado na inclusão social.” 

Baker dedica as últimas páginas de seu suculento livro a apontar alternativas ao Sistema. E encontra nos Pontos de Cultura do MinC brasileiro uma que elogia entusiasticamente. “Um novo paradigma está emergindo no Brasil: as pessoas comuns não têm mais de esperar o mestre para lhes dizer o que e como fazer. O centro lógico do programa é acreditar no povo e na cultura brasileiros como são hoje. Nos Pontos de Cultura, o governo não fornece cultura, serviço ou programa: seu foco está no potencial de ação dos próprios indivíduos e grupos.” 

Entre 2004 e 2013, o MinC, Estados e municípios parceiros destinaram investimentos de R$ 500 milhões para 3.663 pontos de cultura. Cada projeto envolve um custo de R$ 180 mil distribuídos por três anos, tempo considerado suficiente para uma ação cultural nascida da própria comunidade florescer e se consolidar. O pesquisador inglês festeja o projeto brasileiro em detrimento do Sistema: “Hoje, o momento cultural progressista na América Latina afina-se com iniciativas como os Pontos de Cultura. Estes abraçam a horizontalidade, a descentralização e a diversidade cultural, levam os cidadãos comuns a pensar, decidir e participar. Demonstram o radicalismo que o Sistema promete, mas não consegue entregar”. 

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João Marcos Coelho é jornalista, crítico musical e autor de No Calor da Hora - Música e Cultura Nos Anos de Chumbo (Algol)

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