MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO
MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO

O sóbrio Pinga, um dos maiores empresários do País, vai pendurar as chuteiras

Realizador de 15.128 shows no país quer terminar a carreira com um espetáculo particular feito por seu amigo, Roberto Carlos

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

04 Junho 2016 | 16h00

Pinga foi um goleador que não perdia viagem. Sua carreira começou nas glórias da Portuguesa de Desportos, em 1944, e terminou no rival Juventus, em 1963, com uma passagem pelo Vasco da Gama entre 1953 e 1961. Seu nome está anotado até hoje como o maior goleador da Lusa, com 190 gols. Por alguma semelhança física e outras que ninguém imaginava existir há 60 anos, no município sergipano de Propriá, seu nome foi emprestado a José Carlos Mendonça, outro goleador que não perdeu viagem.

Pinga tem 76 anos. É alto, bem humorado e tem uma memória prodigiosa. Foi batizado assim por um padre, nos tempos em que estudou em um colégio salesiano. O sacerdote o achou parecido com seu ídolo no futebol e passou a chamá-lo assim, Pinga, mesmo que o garoto jamais ingerisse uma gota de álcool. Desde que fez uma virada em sua vida, se tornando um empresário produtor de shows, os números de suas goleadas são impressionantes. Só de Roberto Carlos, Pinga fez até hoje 285 espetáculos.

Ao todo, considerando todas as realizações de sua Pinga Promoções Artísticas, somam-se 15.128 shows. De Chico Buarque a Chiclete com Banana, Caetano a Frank Aguiar, Maria Bethânia a Polegar, Odair José a Nelson Ned, Robben Ford a Raça Negra, todos fizeram shows via Pinga por capitais e interiores. Chico Anysio fez 289 espetáculos. Antonio Marcos foi contratado 221 vezes. Elba Ramalho cantou sob seus cuidados em 401 palcos.

Ao chegar a seus 76 anos, Pinga quer a aposentadoria. Deve atuar de forma mais tranquila, apenas aceitar alguns artistas, mas está cansado da estrada. Quer agora se despedir com um show feito para ele mesmo por um velho contratado, o maior deles, o cantor Roberto Carlos, para quem já enviou uma comovente carta com a solicitação. Roberto ainda não respondeu. 

São muitas memórias que levam Pinga a querer Roberto em seu palco. Elas começam em julho de 1966, quando o empresário assiste Wanderley Cardoso e Rosemary em Aracaju. Contaminado imediatamente pelo vírus do palco, ou de seu bastidor, passou a imaginar qual cantor poderia render um show melhor do que aquele. “Só me veio à cabeça o Roberto Carlos”, lembra.

Pouco tempo depois, cruzou com um empresário de Roberto que passava pela cidade de Aracaju rumo ao Recife. Antes da capital pernambucana, o homem decidiu aproveitar a viagem para vender mais alguns shows de Roberto na região. Depois de conhecer Pinga por meio de um programa de rádio, o empresário pediu 8 milhões de cruzeiros por um show ou 12 milhões por dois. “Eu aceito e pago logo”, disse o aventureiro Pinga. Para ter algum lucro, ele deveria lotar os ginásios, pagar a conta com o empresário de Roberto e ficar com o troco.

A noite de estreia de Pinga foi um fracasso. No estádio municipal de Aracaju, com 10 mil lugares reservados aos fãs do rei, apenas 1.287 foram ocupados. Os anos 60 ainda não havia adolescentes liberados pelos pais para irem a um show de Roberto em estádio. Um prejuízo retumbante, agravado pela fuga de um sócio que sumiu com parte do dinheiro. Uma nova investida de Pinga seria então com o grupo Renato e seus Blue Caps. Quando faltavam três dias para o show, um apagão deixou a cidade sem luz e Pinga, sem o chão. Não houve show e o prejuízo voltou a amargar no bolso do empresário. Mais uma tentativa, desta vez com Renato e seus Blue Caps e Martinho da Vila. Ná véspera da apresentação, morre o arcebispo de Aracaju e o coração de Pinga também ameaça parar.

Pinga, então, decidiu parar, jogou a toalha, teve saudades dos anos em que trabalhava com o pai nas farmácias da família. Ficou assim por quatro anos, até o dia em que lhe visitou o empresário do cantor Nilton Cesar. “Não me interessa”, dispensou Pinga, mas o homem insistiu e ele resolver ir para o jogo de novo. O que seria um show foi multiplicado em seis e a vida de Pinga deu seu primeiro salto. “Ganhei tanto dinheiro que não parei mais”, ele lembra.

Pinga chegou a ter seis artistas se apresentando em um único dia de 1979. Perla, Maria Bethânia, Caetano Veloso com Gilberto Gil, Chico Anysio e Ney Matogrosso. Um de seus reencontros com Roberto Carlos foi em um momento dramático do cantor. Logo depois da morte de sua mulher, Maria Rita, em 1999, Roberto ligou para Pinga pedindo que ele lhe arranjasse 20 shows em 30 dias. Queria afogar a tristeza no palco. Mas, no meio da estrada, a ficha caiu e o rei foi ao chão. As 20 apresentações se tornaram apenas 11, feitas não em 30 dias, mas em um ano. Ao final da dolorosa temporada, Roberto se negou a receber a renda de dois espetáculos. “Esses são para o Pinga”.

A longa relação rendeu poucos episódios que revelassem a Pinga as estranhezas de Roberto. “Só houve um dia, quando estávamos na estrada e o carro quase atropelou um cachorro. Roberto mandou parar e foi falar com o animal, perguntou a ele se queria ir ao hospital. Ele começou a falar e eu pensei: ‘o bicho é doido mesmo’”.

Ronnie Von foi outro susto. “Foi o artista que, proporcionalmente ao cachê, mais me deu lucro”. Em 1977, Pinga esteve com o amigo, o grande empresário Marcos Lázaro, que o alertou: “Faça o Ronnie que você não vai se arrepender”. Pinga sorriu. “O Ronnie estava acabado”. Mas aceitou, convencido de que, depois de participar do programa Qual é a Música, de Silvio Santos, Ronnie voltaria às alturas. No meio da turnê, o cantor perdeu a voz. Mesmo com Pinga, só dizia o que queria dizer escrevendo. A situação não fez com que um dos shows fosse cancelado, e eles se viram obrigados a subir ao palco. “Se não fizerem isso, vão quebrar tudo”, alertaram os promotores. A saída, pensada por Pinga, foi um de seus maiores gols. Ronnie dublava uma voz que, na verdade, era a de seu guitarrista.

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