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O sul-coreano Kang Byoung Yoong fala de sua paixão pelo Chapecoense

O autor de 'Pepino de Alumínio' estará em São Paulo nos dias 12 e 13 deste mês para participar do Encontro de Literatura Coreana e falar com estudantes de Literatura da USP

Kang Byoung Yoon, ESPECIAL PARA O ‘ALIÁS’

07 de setembro de 2019 | 16h00

Alguém havia me perguntado sobre “a minha literatura”. Respondi que desejava fosse ela igual ao futebol da Chapecoense. Quem perguntou, com um olhar de que não compreendia, me fitou por longo tempo.

A Chapecoense, o time de futebol brasileiro, experimenta a emoção da vitória no jogo de estreia da temporada fora de casa, superando o choque da “tragédia da queda do avião”. O acidente aéreo que a equipe sofreu, onde perdeu a maioria de seus integrantes, havia deixado em tristeza inconsolável muitos fãs de futebol do mundo todo. Mas, tendo vencido com muita dificuldade a dor, a seleção de Chapecó tomou mais uma vez o avião para um jogo fora de casa, e saboreou a vitória na estreia da Copa Libertadores contra o Zulia F.C.

Quando marcaram o primeiro gol após a incrível cobrança de falta perto da grande área, aos 33 minutos do primeiro tempo, os jogadores, todos juntos, homenagearam os colegas que já haviam partido. E derramaram lágrimas, olhando para o céu, depois de marcarem o segundo gol, de chute à distância, que definiu o jogo aos 24 minutos do segundo tempo. Era um presente de emoção, tanto aos colegas do além como aos fãs que carregam a tristeza em seus corações. 

Em março de 2017, uma notícia sobre o futebol sul-americano foi transmitida pelo noticiário televisivo, o que raramente acontece. Eu assisti à notícia sobre futebol, mas pude enxergar algo além do futebol.

Não sei até hoje o nome do jogador número 8 que, aos 24 minutos do segundo tempo, recebeu a bola por um passe baixo da lateral direita e a chutou direto para o gol. Mas não me esqueço até hoje de que, logo depois de ter marcado o gol, ele caiu de joelhos apontando as duas mãos para o céu, cheio de emoção. Antes disso, houve um gol aos 33 minutos do primeiro tempo, em que o jogador cobrou de canhota perto da grande área, um chute maravilhoso também; não tive interesse em saber o nome dele, pois somente a cena em que todos os jogadores da Chapecoense, juntos, de joelhos e com os ombros unidos, agradeceram aos colegas que partiram antes, lhes transmitindo sua alegria, ficou em minha mente. 

**

No dia 29 de novembro de 2016, um time brasileiro de futebol profissional tomou o avião para um jogo fora de casa. O destino era Medellín, na Colômbia. Não era um jogo comum, mas uma decisão de campeonato. O time adversário era o Atlético Nacional, outro gigante do futebol sul-americano. As duas equipes iam se encontrar na final da Copa Sul-Americana. Essa é uma das maiores disputas entre os clubes de futebol da América do Sul. É uma liga entre os clubes do continente sul-americano. Da mesma maneira que na Europa existe a Liga dos Campeões e a Liga Europa, eles têm a Copa Libertadores e a Copa Sul-Americana. 

Assim como o dia a dia é importante para cada pessoa, não há jogo que não seja importante para qualquer time. E se é um jogo de decisão de campeonato, nem se fala. Mas esse time tinha uma história por trás, um pouco diferente dos outros. Essa era a primeira final do clube em toda a sua história. Desde a fundação, em 1973, a equipe passara mais tempo na segunda divisão. Só em 2013 conseguiu chegar à Série A da primeira divisão, e dois anos mais tarde, em 2015, foi para a Copa Sul-Americana, uma liga dos clubes fortes. E em 2016 chegou à final. Era de fato uma nova estrela em ascensão no futebol sul-americano, e virou o assunto do futebol mundial. Frequentemente o comparavam com o Leicester City Futebol Club, o vencedor da Premier League daquele ano. 

O caminho para chegar à final foi também muito dramático. Nas oitavas de final, o time venceu o forte argentino CA Independiente nos pênaltis. Nas quartas de final, perdeu no primeiro jogo para o Junior da Colômbia, por 1 a 0, mas no segundo ganhou, com uma sensacional virada, por 3 a 0. Na semifinal, contra o clube argentino San Lorenzo, houve empate ao fim das duas rodadas. Seguindo o princípio de que o time de fora de casa tem a preferência em caso de empate, os brasileiros foram para a final. Em todos os jogos há milagres e dramas, mas a história desse clube era, em 2016, literalmente um espetáculo sem roteiro. Todos os jogos foram disputados com suor nas mãos. E chegaram à decisão depois de ter passado por tudo isso. 

Como estavam a caminho de se tornarem campeões, a determinação dos jogadores era imensa. Mas tudo isso sofreu um forte abalo, pouco tempo depois. Partiu-se em pedaços. Foi estilhaçado de tal forma que não havia como ser reconstituído. E restou apenas a tristeza. O avião, rumo à Colômbia com os jogadores, caiu. Nesse acidente aéreo morreram 71 pessoas. Apenas três jogadores sobreviveram. Foi o pior acidente aéreo desde aquele de 1958, “o desastre de Munique”, que matou os jogadores do Manchester United. E ficou conhecido como o “desastre da Chapecoense”. 

Mas uma nova história tem início nesse pior momento. 

Começaram a aparecer muitas mãos em socorro ao clube que sofrera a tragédia. O Atlético Nacional, o outro finalista, desistiu do campeonato e deixou o título para a Chapecoense. Cristiano Ronaldo doou uma quantia enorme aos familiares dos jogadores, para consolá-los. Craques lendários como Ronaldinho e Eidur Gudjohnsen se dispuseram a jogar de graça pelo time. Os outros clubes rivais decidiram emprestar seus jogadores gratuitamente. E foi oferecida uma condição radical: a Chapecoense se tornaria isenta de rebaixamento. 

Mas o time rejeitou esses favores. Em vez disso, optou pela dignidade. O vice-presidente do clube, que substituiu na direção o presidente falecido, formou uma nova equipe com jogadores da reserva e jovens da base, mais alguns emprestados de outros clubes, para enfrentar as ligas. Eles marcharam pelos campos com as 71 estrelas no peito do uniforme. A cada gol marcado, dividiram a glória com os que foram antes deles para o céu. E, em março de 2017, pegaram o avião para mais um jogo fora de casa, depois de vencer vários desafios, como dizia a reportagem. E deram a muitos um presente especial.

“Um presente de emoção, tanto para os colegas no céu, quanto para os fãs que guardam tanta tristeza”.

Em novembro daquele mesmo ano, encerraram o drama com um final feliz. Garantiram a permanência da equipe na primeira divisão, vencendo mais uma vez de virada no 35.º jogo da Série A, e o resultado final da temporada foi de 15 vitórias, nove empates e 14 derrotas – um total de 54 pontos e o oitavo lugar na liga, produzindo assim o milagre da Chapecoense. 

***

Eu desejo que a minha literatura seja como “o milagre da Chapecoense”.

Não, eu sonho.

Que possa vencer o medo e permaneça como ela é em sua natureza,

Que possa mostrar não só a literatura, mas algo além dela,

Que possa receber salva de palmas por uma jogada limpa, e não por pena ou encorajamento,

Que possa transformar em alegria miraculosa o suportar das dores e tristezas extremas, 

E, acima de tudo, que possa encerrar com um final feliz as tormentas vencidas com lágrimas e dificuldades. 

Ouso sonhar com uma literatura assim. Como o futebol da Chapecoense. E, para me aproximar de uma literatura assim, não cesso de ler ou de escrever. Assim como os jogadores da Chapecoense não param de correr até hoje na Arena Condá. 

****

Se alguém me perguntar sobre a “minha literatura”, responderei ainda que desejo que ela seja como o futebol da Chapecoense. Quem me perguntou irá me fitar por longo tempo, sem entender o que eu disse, mas não importa. 

/ TRADUÇÃO DE YON JOO YEO

KANG BYOUNG YOONG NASCEU EM 1975 EM SEUL, COREIA DO SUL. PUBLICOU, ENTRE OUTROS, OS ROMANCES ‘NOVITA’, ‘HISTÓRIA DE UM HOMEM IMAGINÁRIO’, ‘DOCUMENTÁRIO VULGAR SOBRE A CASTRAÇÃO DO SR. Y’, ‘BEIJO E BANANA’, ‘DEDOS QUE COÇAM’ E ‘PEPINO DE ALUMÍNIO’, ESTE LANÇADO NO BRASIL PELA TOPBOOKS. TAMBÉM TEM EDITADOS OS ENSAIOS ‘LIUBLIANA: A CIDADE PARECIDA COM MINHA ESPOSA’, ‘TE AMO DEMASIADAMENTE’ E ‘AS FRASES QUE ANDAM PELA CIDADE’.

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