Centro Cultural Coreano do Brasil
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O sul-coreano Kim Ki-Taek vem a São Paulo falar de 'Chiclete'ar

O escritor participa do Encontro de Literatura Coreana no dia 12 e faz palestra para estudantes da Faculdade de Letras da USP no dia 13

Kim Ki-Taek , Especial para o 'Aliás'

07 de setembro de 2019 | 16h00

1. Para mim, o início da escrita de poesia veio do temor de suportar a mim mesmo, de suportar a minha vida, de onde apoiar o fardo que minha vida colocou sobre minha carne. É complicado falar disso de forma direta aos outros, mas, estranhamente, no poema posso falar com naturalidade. Parece-me que no poema há mecanismos que desviam, que escondem efetivamente e, ao mesmo tempo, fazem revelar. Quando a vida que me pressiona e me faz sofrer está em mim, isso se transforma em algo que quero imediatamente expulsar do meu ser, algo que é pesado e quente e difícil, mas, se o lanço numa obra, torna-se algo suportável, ou insignificante ou cômico, às vezes até bem divertido. Enquanto não é identificado, é temível; porém, se aparece no poema, torna-se algo pouco considerável. Assim como o eu manifesto nas obras não sou eu, ou sou uma terceira pessoa ou um objeto, consigo manter uma distância objetiva para comigo mesmo. Na época do meu aprendizado, eu era tímido, medroso e muito introvertido, e alguns pontos fracos ou pequenos hábitos me causavam dores difíceis de suportar. Eu costumava me fazer sofrer, superdimensionando ao máximo, com minha imaginação, pequenas falhas minhas, ou considerando como já ocorridos fatos que ainda não haviam acontecido. Para mim era também difícil suportar a ideia de sobreviver com a minha carne ofertada unilateralmente e, ao mesmo tempo, manter a mínima dignidade. É verdade que esse autorretrato acaba aparecendo em minha poesia mesmo que eu não queira, mas através dela eu me mostro entre desvios, e me revelo escondendo-me ao mesmo tempo. Desse modo, ainda que eu exponha minha existência, a insignificância de minha vida, o ódio ou a desgraça, não há motivo para me encolerizar, ou sofrer ou me envergonhar por causa de meus poemas. Se não fosse assim, criar poemas teria sido para mim algo muito doloroso. Grande parte da alegria de escrever poesia vem da transformação em energia positiva de coisas que me fizeram sofrer interiormente. E essa energia pode se intensificar quanto mais sofrido é o viver.

2. Quando comecei a atuar como poeta, nos meus 30 anos, o que os críticos ou veteranos apontavam como característica mais notável da minha poesia era a observação e a introspecção microscópicas e a descrição detalhada dos objetos; pois os materiais de meus poemas são, em sua maioria, as pessoas comuns que encontro, os animais, os objetos, assim como os acontecimentos do cotidiano. Embora insignificantes, sinto interesse por essas coisas porque deve haver nelas uma força que me puxa. O objeto de maior interesse do meu poema se encontra mais nos episódios desenvolvidos em meu interior do que do lado de fora. O meu poema, em vez de lhes atribuir sentido, quer mostrar tudo como algo que está acontecendo bem diante dos olhos. E, ao querer expressá-los até se tornarem episódios vívidos, parece que persisto mais ainda em descrever todos os pormenores e detalhes dos movimentos e dos fenômenos. 

Sejam pessoas, sejam animais ou objetos, quando entram em mim, conectando-se a desejos ou instintos meus, eles se transformam e revelam alguns aspectos próprios que eu estava escondendo. Portanto, o meu poema parece ter interesse em várias coisas e em observá-las, mas na verdade isso pode ser visto como uma observação sobre mim mesmo, ou uma curiosidade a respeito das pessoas ou animais ou objetos – existências que possuem corpos físicos como eu. Assim, pode-se dizer que os animais ou os objetos que aparecem em minhas poesias são o prolongamento da observação sobre mim mesmo. Quando observo os corpos que suportaram a violência do exterior e do meio ambiente, e também as cenas de sofrimento, e o medo originário disso, noto com frequência que fico mesmo agressivo e persistente. Torno-me também cruel além do necessário diante de animais que foram transformados em meros objetos de exposição, ou que se tornaram comida. Deve ser porque não se trata de uma observação direta destes objetos, mas de mim mesmo, pela imaginação: o eu submerso neles. Vejo neles, que entraram no meu ser e se transformaram, forças que me oprimiram, que ameaçaram a minha vida e que fizeram atrofiar minha existência. E, também, quando os seres vivos ou objetos me seduzem, ou me exigem que os expresse, sinto que, atraído por isso, não me limito à existência que ocupa o meu corpo. Eu sinto, frequentemente, que no meu ser habitam muitos outros seres vivos que passaram pelo meu corpo em repetição de nascimento e morte, incluindo os animais. Como o desejo de comer ou de fazer sexo, como o medo ou a pulsão, sinto que eles se movem sozinhos, independentemente da minha vontade. 

3. “Chiclete”, a poesia-título (do livro lançado aqui pela editora 7Letras), é uma daquelas em que se manifestou o interesse pelos outros que se movem sozinhos em mim, independentemente da minha vontade. O chiclete é mastigado pelos dentes mas é diferente da comida, que é triturada, engolida e digerida. O chiclete é mais uma brincadeira do que propriamente comida. A sensação de mascar chiclete é semelhante à de mastigar carne. Sua elasticidade, parecida com a da carne, macia e pegajosa, e a resiliência, que não o deixa ser triturado até o fim, tornam essa brincadeira divertida. Essa elasticidade e essa resiliência são tão vívidas que até parece que o sentimos se contorcer sob nossos dentes. Isso estimula o instinto oculto nos dentes, ou seja, a agressividade e o prazer de mastigar. É isso que desperta e move a velha memória oculta nos dentes; a velha memória de matar e comer outros seres vivos para garantir a sobrevivência, durante um longo período de tempo, é o instinto de vida esculpido no corpo de seres vivos. Esse desejo nos exige algo que satisfaça a falta que nos faz o ato de coçar os dentes. Pode-se dizer, então, que mastigar o chiclete é a brincadeira que essa memória inventou. 

O chiclete possui uma elasticidade que conserva o seu estado próprio, e por isso não é destruído. Essa elasticidade exige dos dentes uma mastigação mais forte e cruel. A razão de se considerar que mascar chiclete pode ser uma brincadeira é que ali só há o ritmo repetitivo de mastigar e ser mastigado, sem que exista como resultado o matar e morrer, ou o vencer e perder. O chiclete intermedeia o desejo de mastigar a carne do outro. Aquele que come desperta o velho desejo dentro dele e come o desejo, e aquele que é comido estimula o desejo de comer daquele que come. O desejo daquele que come age diligentemente, mas não é satisfeito ao final. A elasticidade, característica própria da vida, transforma a violência dos dentes em textura macia. Transforma a violência em carne. Torna alegre o comer e ser comido. Essa brincadeira termina quando aquele que come se cansa ou se aborrece. A brincadeira de mastigar o chiclete habita em mim, me move, me dá ordens e às vezes me substitui, fazendo-me relembrar os seres que não são eu e ao mesmo tempo são. Naquele momento, minha existência, que habito com inúmeros outros dentro do meu ser, não é mais singular, e sim plural. 

4. Sinto frequentemente que a energia poética, de me regozijar no momento em que me comunico com as coisas e me torno um com os objetos, secou. Eu me tornei um ser que depende da cidade, do apartamento, do carro, do smartphone e de vários aparatos de conveniência; meus sentidos instintivos se retraíram muito, e a afinidade com a natureza foi quase perdida. O meu corpo e a minha mente estão sendo arrastados sem parar pelo cotidiano, e os meios de comunicação não permitem momentos de tédio ou de desvio do olhar, preenchendo sem piedade toda folga no tempo. Agora o meu ser talvez esteja aleijado, com dificuldades para escrever poesia. Ainda assim, os poemas continuam vindo, e estou fitando o meu corpo sem entender. Por que eles ainda estão vindo? O que é, afinal, o poema que vem do meu corpo e da minha mente? Talvez porque ainda há seres vivos presos – sejam pessoas, sejam animais ou mesmo monstros – que querem sair das trevas do fundo do meu ser, receber a forma e o nome e a língua adequados a eles, e ir para onde estão o sol e o vento. Talvez não seja eu quem os expõe, mas eles que saem sozinhos. Quando escrevo poema, parece que eles pressionam minha imaginação e se empenham com força para sair do meu corpo. Em suma, o que o meu poema faz é observar friamente o meu próprio ser, impossibilitado de escrever poesias líricas, como se fosse um objeto ou uma outra pessoa. Porque meu corpo é o lugar onde se revela, sincera e vividamente, a verdadeira figura da vida e do mundo em que eu vivo, ou vivemos.

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