Adam Hunger | USA Today Sports
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O tango do herói vencido: e agora, o que será de Messi?

Ao ouvir que aquela era a despedida do craque, a torcida argentina uniu-se em um inusitado coro: ‘Fica, Messi’

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2016 | 06h00

Em meio a uma semana muito movimentada do futebol, com jogos da Eurocopa e do Campeonato Brasileiro, o assunto principal foi mesmo Lionel Messi, o melhor jogador do mundo, que perdeu a sua cobrança da penalidade máxima na decisão da Copa América entre Chile e Argentina. Perdeu junto a vontade de jogar pela seleção.

As imagens do argentino, ajoelhado e curvado sobre si mesmo no final da partida, viralizaram. Assim como suas declarações de que não voltaria a vestir a camisa albiceleste. “Não é para mim”, resumiu.

Havia mais de um paradoxo envolvido em todo esse tango sofrido. Muito antes desse jogo, Messi volta e meia era cobrado por não jogar por seu país o mesmo futebol que o consagra no Barcelona. Como havia saído muito cedo da Argentina, via-se acusado de “sentir” pouco a camiseta albiceleste, pois criado no exterior e adotado pelo clube que lhe rendeu títulos, dinheiro e fama mundial. Mas sua reação ao pênalti perdido, responsável direto pela derrota argentina, não foi de indiferença.

Pelo contrário. Poucas vezes se viu craque tão abalado por uma derrota como Messi no campo norte-americano onde se disputou a Copa América Centenário.

Vamos redimensionar as coisas. O título da Copa América, em si, era tão importante assim para que perdê-lo fosse considerado uma tragédia? Claro que não. A Copa América está a anos-luz de distância de uma Copa do Mundo, em termos de importância e significado. Além do mais, esta era uma Copa América comemorativa, fora da sua periodicidade normal, e incluindo outros países na disputa. Pouco mais que um torneio amistoso. Perdê-la não era para tanto tango e tragédia.

No entanto, um jogo, ou um torneio, é ele e mais o seu contexto. Desse modo, a final Argentina x Chile não pode ser tomada de forma isolada.

Havia a pressão sobre a Argentina por 23 anos sem títulos. E, sobre Messi, em particular, pesava a desconfiança de sempre, de não render com a camisa da seleção o mesmo futebol jogado no Barcelona.

Além do mais, acirrava-se uma disputa interna na Argentina: quem é maior? Maradona ou Messi? Isso, numa semana em que Messi chegava aos 55 gols pela seleção, superando a marca de Batistuta. Mas, como sabem até as traves dos estádios, os números falam, mas não dizem tudo. Quem vai esquecer aquela Copa do Mundo de 1986, ganha por um Maradona em fúria e estado de graça, jogando um futebol tanto divino como possesso, marcando o considerado mais lindo gol das Copas e fazendo outro, de mão, e contra a Inglaterra, que havia massacrado seu país na Guerra das Malvinas?

Nessa disputa, tanto em termos de resultados reais como de proezas imaginárias, Maradona saiu-se vitorioso no momento em que Messi, à maneira de Roberto Baggio na Copa de 1994, isolou sua cobrança de pênalti, mandando a bola acima do travessão. Um tipo de “grossura” que raramente acomete gênios da bola e só pode ser creditada a um descontrole emocional momentâneo. Ao errar sua cobrança, e dessa forma tão grotesca, Messi foi, justa ou injustamente, marcado como aquele que falha no momento decisivo.

No entanto, sua reação provocou uma contrarreação na Argentina. Se Messi não tivesse dito nada, ou apenas lamentado a derrota, talvez o que se ouvisse no país vizinho fossem as queixas de sempre, de “que não era Argentino”, “não dava o sangue pela seleção”, “não sabe cantar o hino” e etc. Mas, ao ouvir que aquela era a despedida do craque, os argentinos, ou a maioria deles, uniram-se num inusitado coro de “Fica, Messi”, engrossado pelo próprio presidente da república, Mauricio Macri, e por Diego Maradona.

Há, claro, o sentimento gerado por uma história encerrada de forma abrupta – e com gosto de derrota. Aquela simpatia pela dignidade dos vencidos, que John Ford explorou tão bem em seu cinema. Por outro lado, os argentinos sabem, de maneira objetiva que, sem Messi, sua seleção é apenas um bom time, porém comum. E Messi, é o que se supõe, estará ainda em plena forma na Copa da Rússia em 2018. Não jogá-la parece um desperdício imperdoável.

Desse modo, do fundo de sua derrota mais sofrida, do seu abismo, ele conseguiu a proeza de unir o país em torno dele, como a um Messi(as) hesitante, que ainda possui chances de redenção e de dizer a última palavra nessa história toda.

Desse modo, resta ver se persistirá em sua decisão ou voltará atrás para disputar o resto das Eliminatórias, ir à Copa e, na Rússia, tentar triunfar por fim, o que seria sua vitória absoluta sobre os céticos e os “maradonistas” empedernidos. Ainda tem um tempo para refletir sobre tudo, pesar prós e contras e decidir se vai para a última cartada.

Convenhamos, é uma aposta e tanto. Tentadora para um jogador do tudo ou nada – como foi Maradona, um homem de personalidade barroca. Jogar tudo numa única bola e, conforme o resultado, sair com a vitória límpida ou a derrota acachapante. Mas será esse o temperamento de Messi?

Do ponto de vista da razão, tudo parece muito mais simples. Analisa-se ou se julga alguém pelo conjunto da obra, não por fatos isolados. A carreira de Messi, em seu todo, é estupenda. Sua regularidade espanta. Seu repertório de jogadas é imenso. Grande armador e de precisão cirúrgica na hora da conclusão, minimalismo que o torna um clássico.

Ainda assim, o fato de Messi não ter sido decisivo em partidas finais da seleção mereceria alguma consideração extra. Não foi uma vez nem duas. Foram quatro finais perdidas. E, nesta última, ele foi diretamente responsável pela derrota ao desperdiçar a sua cobrança de pênalti. Fatos isolados? Acidentes? Ou símbolos de um jogador fantástico, mas que cede à pressão? Interprete-se como se quiser.

Em tudo isso, resta o fato de que, nas disputas esportivas, os marcos definitivos, como o triunfo em uma grande disputa, são sempre necessários. Antes dessa Copa América alguns comentaristas, messianistas devotos, diziam que Messi nada mais tinha a provar e que seria o mesmo ganhasse ou perdesse.

Não é assim. Por mais que tenham feito no passado, ídolos estão sempre à prova a cada nova competição, como se começassem de novo a cada nova disputa. Eles são os primeiros a saber dessa cruel verdade, do princípio não cumulativo dos méritos, dessa injustiça fundamental, típica do esporte mas não exclusiva dele.

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