O templo à grandeza estilhaçada

Com sua fundação, que vai ser fechada, Sarney se auto-homenageou pelos '50 anos de vida pública'

Luiz Seraphico*, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2009 | 02h00

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Velho hábito arraigado é o da autoridade distribuir, entre favoritos, pedaços, glebas, marcas, condados, sesmarias e capitanias. No Brasil, a coroa portuguesa usou e abusou dessas dádivas. Quando a Primeira República morreu nas mãos do golpe militar de 1930, eis que os novos donos do poder, conduzidos por Getúlio Vargas, entreviram nessa prática corrupta e personalista a maneira de saciar seus apaniguados com sinecuras que, além de tudo, eram da confiança do poder central.

Como a carreira de José Sarney começa antes do suicídio de Getúlio, pode-se dizer que data mais ou menos daí o comando que esse potentado tem do Maranhão. Pode-se afirmar que ele exerce até hoje, já bem no século 21, um derradeiro vestígio da dominação do Estado Novo, já que se insinuou e acabou enfeixando poderes no triste Estado. E é por aí que devemos começar a análise dos excessos de culto à personalidade que se permitiu chegar ao ponto de erguer um templo à própria grandeza, num prédio público. José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, que mudou de nome para José Sarney, talvez pelo gosto de se esconder de suas origens, é um homem melífluo, maneiroso, inteligente e vaidoso. Sua carreira de político jeitoso só fez crescer desde os dias em que, nos quadros da UDN, assumiu como deputado federal o comando da maioria janista nos idos de 1960.

É esse político profissional que, apesar dos problemas que o envolvem, anuncia com orgulho, no Senado que preside, "50 anos de vida pública". Seu poder se avantajou no auge da última ditadura militar, quando se "elegeu" governador, no período 1966-71. Claro está que se compôs com os militares enquanto foram fortes, só se afastando da Arena, em dissidência, quando se criou a possibilidade de ser candidato a vice de Tancredo Neves, em 1984. Quando a doença fatal de Tancredo foi conhecida, encontrava-me em Brasília e pude ver de lá a dor e a decepção do nosso povo quando Sarney tomou a faixa que o general Figueiredo se recusou a lhe passar. Um sentimento de inferioridade poderia ter se exacerbado nele nessa ocasião, pois já havia entrado na Academia Brasileira de Letras ridicularizado por tantos, como Millôr Fernandes e Paulo Francis. Isso só se faz acentuar, ao perceber nos olhos de nosso povo e na liderança do MDB, a decepção de ter que formar o primeiro governo livre desde 1964 com um ex-comensal do sistema deposto.

De 1985 a 1990, com seu célebre jaquetão, assistiu ao próprio desgaste e à decepção que oscilou entre o Plano Cruzado e outras frustradas tentativas de reformar nossa economia que terminaram em triste moratória. Encerrado esse período, mas não sua trajetória discutível, eis que surge a aventura de erguer o próprio panteão.

No Brasil faz falta um lugar de veneração que outras tantas nações criaram para seus heróis. Brasília possui um Memorial JK. Existe um velho Memorial dos Andradas em Santos. Tancredo tem um panteão-museu em São João D"El Rey. Nenhum desses memoriais, porém, foi edificado estando o homenageado ainda vivo. Nunca se viu falar de o próprio homenageado criar uma fundação para sua glória, tomando para isso um convento como o das Mercês, tombado pelo Patrimônio Histórico devido a seu valor arquitetônico inestimável e sua antiguidade. Pois foi o que se deu com José Sarney.

Quando nasceu, a fundação que os jornais anunciam que vai ser fechada destinava-se, ainda que teoricamente, à Memória Republicana, o que é não só justo, como recomendável. Mas quando a visitei, em 2003, ela já era a Fundação Sarney e se dedicava exclusivamente a "Sua Excelência", como me explicaram monitores presentes. Leio agora na imprensa que havia doadores, entre eles empresas como a Petrobrás, que teriam desistido de participar da dita fundação em razão da "exposição com que a instituição passou a ser tratada por alguns órgãos da mídia". Claro que cada um contribui com o que acha correto, mas considero desprimoroso o homenageado ser presidente de uma instituição que visa a glorificá-lo.

Leio também que a referida fundação teve suas prestações de contas rejeitadas entre 2004 e 2007, por decisão de 27 de julho de 2009. A Promotoria de Fundações e Entidades Sociais foi a responsável pela rejeição. Não se sabe que repercussão essa infeliz situação pode ter. Pode-se concluir apenas que se perdeu a noção de oportunidade e a proporção, tentando avançar o juízo da nação sobre a passagem de José Sarney pelo poder. Ele será, provavelmente, lembrado como um dos últimos representantes de uma época comumente designada de coronelista.

Nosso universo político muito frequentemente se deixa atrapalhar por excessos no uso dos aparatos de glorificação. Ainda que o mausoléu seja uma referência útil para a veneração de grandes figuras, é preciso conceituar as que o são. Grande lição fica da vida de d. Pedro II, que, depois de ter sido injustamente banido, teve seus restos mortais solenemente transportados para Petrópolis, no centenário de nossa Independência, sendo os mesmos colocados na Catedral de São Pedro de Alcântara, para isso edificada. Tal homenagem espontânea foi feita na administração de Epitácio Pessoa, sem a intromissão de qualquer parente ou figura próxima do imperador. Paz aos mortos é o que se pode desejar. Fiquem estas linhas, como um tributo à celebração de Finados.

*Advogado, ex-professor da PUC-SP e da USP, é autor, entre outros, de São Cristóvão e a Herança Perdida, livro sobre os reflexos da Proclamação da República no Brasil atual (Arauco Editora)

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