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'O Tempo Desconjuntado' revela outra faceta do criador de 'Blade Runner'

Não só de robôs e replicantes vivia Philip K. Dick

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado

02 Junho 2018 | 16h00

Um dos maiores autores de ficção científica do século 20, o tema obsessivo de Philip K. Dick foi a natureza da realidade. O real nunca é aquilo que seus protagonistas pensam que é. Em O Tempo Desconjuntado, o herói chega a citar o bispo Berkeley, filósofo padroeiro do solipsismo, segundo o qual toda percepção é subjetiva e, portanto, não existe realidade independente. Ou seja: cada umbigo, uma sentença. Em geral, a ficção científica fuça o futuro, a ciência e a tecnologia, com aprendizes de feiticeiros cujos laboratórios vão pelos ares. Um precursor foi Frankenstein, escrito por uma Mary Shelley ainda quase lolita (19 anos). 

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Ainda hoje a ficção científica é vítima de um pedantismo obtuso, considerada um “gênero menor” (como o policial). Além da mera ignorância, um dos motivos desse estrabismo é que, no início do século 20, revistas americanas pulp foram o principal viveiro da ficção científica.

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Mas o estigma reducionista fica ainda mais indefensável com as bodas de ouro entre ficção científica e distopia, que carimbaram o Zeitgeist hodierno. As utopias (“lugar nenhum”, termo cunhado por Thomas More mas que já abarca a República de Platão) nunca renderam um mísero parágrafo ficcional que prestasse. Pudera: ela representa uma sociedade perfeita (todo mundo boceja de felicidade), e a literatura vive de conflitos. 

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O primeiro uso da palavra “distopia” foi num discurso do filósofo liberal John Stuart Mill no Parlamento britânico, em 1868. Ele anatematizava o oposto da utopia: um lugar nefasto. Nós, de Ievguêni Zamiátin; Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley; 1984, de George Orwell; e Fahrenheit 451 foram entronizados como clássicos dessa estirpe. 

Philip K. Dick estava com a faca e o queijo na mão, pois tinha tanto de oracular como de lelé da cuca. Fez terapia a vida inteira, passou por internações e tentativas de suicídio e emborcou doses cavalares de anfetamina enquanto escrevia. Chegou a concluir 11 romances em um ano, além de uma obra mastodôntica intitulada Exegesis, de 8 mil páginas, publicada apenas em 2011. 

Morreu em 1982, aos 53 anos, na maior pindaíba. Três meses depois, Blade Runner, filme de Ridley Scott baseado numa obra sua, foi lançado. Depois, veio Minority Report - A Nova Lei, do magnata Steven Spielberg, outro repuxo do tinteiro de Dick. 

O Tempo Desconjuntado, de 1958, é um dos primeiros romances relevantes do autor, numa época em que ele ainda se contorcia para entrar no mercado “convencional”, não ficção científica. Daí que, no início, o livro pareça um romance de costumes sobre os EUA suburbanos dos anos 1950 – com o dedinho lúgubre da Guerra Fria. O protagonista, Ragle Gumm, vive com a irmã, o cunhado e o sobrinho. Quarentão solteiro, ganha a vida faturando há três anos um concurso de um jornal local – trata-se de escolher um quadrado certo em uma grade de 1208. 

Na grife Philip K. Dick, porém, as aparências enganam como camaleões trapaceiros. Aos poucos, as fissuras vão estilhaçando a coesão do real. A família Ragle nunca ouviu falar em Marilyn Monroe. Lendo no jornal sobre as filmagens de O Príncipe Encantado, com a diva ao lado de Laurence Olivier, o cunhado especula: “Deve ser uma fraude”. Como se não bastasse, o número de degraus da escada da casa começa a variar...

Ragle Gumm é um embrião dos protagonistas de Dick, invariavelmente ludibriados, drogados, hipnotizados, paranoicos – e, talvez, a única pessoa na posse da verdade, que aliás os oprime. A realidade consensual é sempre volátil e porosa: um conjunto de memórias implantadas, uma alucinação induzida por drogas, um lapso de tempo, uma simulação militar secreta, uma ilusão projetada por megaempresas ou ETs, ou um teste aplicado por Deus. Um cardápio digno de um McDonalds com três estrelas Michelin. 

A distopia de Dick é mais atual que a de Orwell. Distopias dizem respeito tanto ao presente quanto ao futuro. O mundo contemporâneo não é o dos totalitarismos monolíticos (com exceção da Coreia do Norte), mas dos algoritmos ubíquos, robôs informáticos, da inteligência artificial e da burrice dos reality shows. Da erosão da privacidade e da supressão sistemática do silêncio (como alertou George Steiner). Não há mais verdade, pois (como postula o desconstrucionismo, mas não Einstein), tudo é relativo – exceto o relativismo. 

Não, não rolou um Grande Irmão, que vê tudo o tempo todo. Mas smartphones e PCs deixam um rastro de informação que cochicham nossos desejos ao Facebook, a Amazon, ao Google. O mundo online é menos um sistema do que uma ecologia, uma metástase de nichos tribais que incluem pessoas fictícias geradas por realidades espúrias. Quando Ashley Madison, site para maridos que querem pular o muro, foi hackeado, descobriu-se que milhares de perfis femininos eram falsos, “fembots” programados para enviar mensagens aos marmanjos. Um estudo mostrou que 15% das contas do Twitter são imposturas. Biografias na Wikipédia são adulteradas.

Este universo, em que caiu na rede é peixe, é o de Dick, não de Orwell. E, se O Tempo Desconjuntado ainda é um romance imaturo, e que por isso mesmo meio que pega no tranco, não deixa de expor o mais arrepiante calafrio do gênero: o fato de que a maioria das distopias começa como utopia.    

*Paulo Nogueira é autor de 'O Amor é um Lugar Comum' (Intermeios) 

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