O teste de Michelle

Resta saber se os EUA aceitam a idéia de uma primeira-dama negra. Não é uma questão trivial

Martin Kettle, do The Guardian, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2008 | 00h16

Durante mais de quatro anos, o meio político americano gastou trilhões de pessoas/horas e empenhou bilhões de palavras de análise avaliando se os Estados Unidos estão prontos para eleger um negro presidente. Outras incontáveis palavras serão escritas sobre esse mesmo tema antes de 4 de novembro - e mesmo depois, quer Barack Obama ganhe ou perca. No entanto, bastou Michelle Obama subir na plataforma do orador em Denver para deixar claro, antes mesmo de ter aberto a boca, que existe, e sempre haverá, uma segunda questão em jogo nesta eleição - quase, mas não tão importante, quanto a primeira: os Estados Unidos também estão prontos para eleger uma primeira-dama negra?Não é uma pergunta trivial. Já houve muitos discursos de políticos afro-americanos em convenções de ambos os partidos ao longo dos anos - sobretudo nas democratas. De modo que o terreno estava preparado para a idéia de que algum dia um afro-americano acabaria fazendo o discurso da nomeação presidencial. Mas o terreno não estava igualmente preparado para uma afro-americana fazer o teste para ser a primeira-dama da nação. Com toda mística existente, a mística conservadora, que cerca esse papel - perguntem a Hillary Clinton, safra 1992, se têm alguma dúvida sobre isso -, Michelle Obama é pelo menos tão pioneira quanto o marido. Exceto para um pequeno público de especialistas políticos, Michelle Obama é também uma total desconhecida como pessoa. Assim, ela teve duas tarefas a realizar no discurso que fez na convenção, dias atrás: primeiro, romper com todos os estereótipos raciais que ainda estão presos a um posto como o de primeira-dama. E, segundo, apresentar-se ao eleitorado pelo que ela é. Qualquer juiz imparcial seguramente dirá que Michelle fez o segundo com fantástico charme e segurança. Eu acho que ela também se saiu com muito brilho no primeiro quesito, mas seria ingênuo ignorar que isso não será fácil.As duas perguntas obviamente repercutem uma na outra. Se os EUA estão prontos para Michelle Obama e para o retrato de Barack Obama que ela ofereceu em seu discurso, além dos muitos vídeos que pontilharam a agenda da primeira noite da convenção democrata, então parte das questões culturais que fizeram desta uma eleição única pode bem ser respondida a favor do candidato democrata. Nesse contexto, o mais interessante que aprendemos sobre Barack Obama na noite de Michelle é que na primeira vez em que ele a convidou para um encontro, há anos, ela o despachou. O charme de Obama, em outras palavras, não arrasta tudo que aparece à sua frente. É possível resistir a ele. Ele é como, de resto, somos todos. Paradoxalmente, essa "resistibilidade" ajuda Obama porque o torna mais humano.Para muitos estrangeiros, a tradição do processo eleitoral americano de também se concentrar na mulher do candidato parece algo suspeito. Seria uma prova, talvez, da falta de seriedade do processo todo. Em alguns contextos, vira um cabide esnobe para os anti-EUA pendurarem seus casacos. Mesmo para muitos americanos, a idéia de que a mulher do candidato (como ainda tem sido em todos os casos significativos) precise fazer um teste público com o marido é certamente peculiar, também. Não foi sempre assim. Até o século 20, aliás, nem mesmo o candidato nomeado precisava fazer discurso na convenção, muito menos sua mulher. Mas a audição presidencial é hoje, irremediavelmente, um assunto familiar. Mulher, filhos, irmãos e irmãs, parentes em geral- todos têm um papel a interpretar. Pode-se desejar que não seja assim - mas desejar não faz acontecer.Por esses critérios, Michelle Obama fez um trabalho imensamente habilidoso. Ela teve que persuadir os céticos de que não era, como reza o estereótipo, mais uma mulher negra irada. Ela o fez com superioridade moral, ressaltando que as lutas do passado estavam chegando ao patamar da fruição na candidatura de Obama - o orgulho era inconfundível e justo, diga-se -, situando essa colocação na retórica hegemônica do sonho americano. É aí que a corrente da história se encontra com a nova onda de esperança, como sublinhou Michelle, em "obamês" fluente, antes de concluir sua fala: "É por isso que eu amo este país". E fez a platéia ficar de pé. Nesse momento soube-se que ela havia feito o melhor que se poderia ter esperado dela. Missão cumprida. Por enquanto.

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