O tiro que liquidou a Era Vargas

Há exatos 60 anos, sob forte pressão da oposição, um dos presidentes mais controversos da história se suicidava, causando uma tempestade no País

Gabriel Manzano, O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2014 | 16h00

Passava um pouco das 8 da manhã quando um tiro de revólver, forte e seco, ecoou pelas salas e corredores do Palácio do Catete, a sede do governo no Rio antes de Brasília existir. “Subimos apressadamente para o quarto onde o presidente se achava”, recordou o então ministro da Justiça, Tancredo Neves. “Encontramos o presidente de pijama, meio corpo para fora da cama, o coração ferido e dele saindo sangue aos borbotões. Alzira (Vargas) de um lado, eu do outro, ajeitamos o presidente no leito, procuramos estancar o sangue, sem conseguir”, contou Tancredo, anos depois, ao repórter Carlos Heitor Cony.

Alzira guardou do pai uma derradeira lembrança. “Saí correndo feito uma doida e me joguei sobre o corpo dele. Ainda estava vivo e tive a impressão de que me esboçava um sorriso.”

Era uma terça-feira, 24 de agosto de 1954. Getúlio Dornelles Vargas, 72 anos, gaúcho de São Borja, levado ao poder pela Revolução de 1930, capo supremo da feroz ditadura do Estado Novo, derrubado pelos ventos democratizantes do pós-guerra e três anos e meio presidente da República, reagia com esse tiro às pressões militares para que renunciasse. Foi na mira. O tiro solitário desencadeou, no minuto seguinte, uma tempestade como poucas na história política do Brasil.

Meia hora depois, o ministro da Fazenda, Osvaldo Aranha, atordoava o País ao dar a notícia e ler, na Rádio Nacional do Rio, a famosa carta-testamento na qual Getúlio teria dito “Saio da vida para entrar na história”. Há longas novelas sobre como essa frase entrou no texto, do qual foram guardadas duas versões.

O tiro no peito de Getúlio despertou choro, fúria e quebradeira nas ruas. Nocauteou a oposição, encerrou um capítulo crucial da história política brasileira – a Era Vargas – e empurrou o País para uma crise que nem a posse de Juscelino Kubitschek, em 1956, arrefeceu. Era o desfecho trágico de uma batalha sufocante entre governo e oposição que fermentava havia tempos e se tornou dramática 19 dias antes, em 5 de agosto. 

Foi na noite do dia 5 que asseclas de Lutero Vargas, filho do presidente, ajudados por Gregório Fortunato, segurança pessoal de Getúlio, armaram um atentado contra o adversário mais temido do presidente, o jornalista e político Carlos Lacerda, líder da União Democrática Nacional (UDN). Acertaram-lhe apenas um tiro no pé, mas mataram um major da Aeronáutica, Rubens Florentino Vaz. “Lacerda levou um tiro no pé, eu levei dois pelas costas”, lamentou-se desanimado o presidente, como que pressentindo o inferno que se avizinhava. Da Tribuna da Imprensa, Lacerda acionou a metralhadora giratória: “Perante Deus, acuso um só homem como responsável por esse crime. Esse homem é Getúlio Vargas”. 

Mas 19 dias de intenso tiroteio são pouco para explicar um conflito tão insolúvel como o que então separava o governo de seus dois inimigos mortais – a UDN, Lacerda à frente, e as lideranças militares que haviam derrubado sua ditadura em 1945.

Getúlio nunca deixara de ser, para udenistas, militares e boa parte da classe média urbana de então, o líder que havia antes namorado o fascismo e montado uma polícia política para perseguir, torturar e matar adversários no Estado Novo. Reforçando, na democracia, a imagem de “Pai dos Pobres”, ele era agora rejeitado porque abria espaços para a esquerda e os sindicatos, defendia um forte peso do Estado na economia e esfriava as relações com os Estados Unidos. Na outra ponta dessa rejeição, a UDN trombeteava diariamente, na Câmara e nos jornais, denúncias de corrupção que definiam o governo como um “mar de lama”. 

Foi nesse clima de guerra que os pistoleiros de Gregório Fortunato deram um tiro no pé do maior inimigo de Getúlio. O barulho foi enorme. A Aeronáutica abriu um inquérito – afinal, o major morto era da corporação. A confissão de um motorista expôs a participação de auxiliares do presidente e levou a crise para dentro do Catete. Em 22 de agosto, o Manifesto dos Generais – que tinha entre os signatários Castelo Branco, Juarez Távora e Henrique Teixeira Lott – pedia que ele renunciasse. “Daqui só saio morto”, reagiu um Getúlio já isolado e enfraquecido.

A discussão do manifesto noite adentro, no dia 23, no Catete, foi dramática. Às 3 da manhã, decidiu-se que Getúlio se licenciaria do cargo. Às 5h, generais informaram que não aceitariam nada menos que a renúncia. Às 6h, o irmão de Getúlio, Benjamim Vargas, foi convocado para depor. Às 7h, os militares informaram que a renúncia deveria ser imediata. Exausto, Getúlio encerrou a reunião. Dispensou os ministros, presenteou Tancredo com sua caneta Parker – uma despedida – e recolheu-se ao quarto. O revólver estava em um criado-mudo ao lado da cama. 

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