O Torquemada caipira da Guerra Fria

Há cem anos nascia Joseph McCarthy, maior caçador de bruxas comunistas dos tempos modernos

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2008 | 18h35

Quando Joe Raymond nasceu, em 14 (ou 15, segundo outras fontes) de novembro de 1908, numa fazenda do interior do Wisconsin, Egbert Roscoe Murrow acabara de completar 7 meses de idade, também na roça, só que da Carolina do Norte. Seus destinos se cruzariam algumas décadas mais tarde, não na 2ª Guerra Mundial, de que Joe participou como fuzileiro naval e Egbert como jornalista radiofônico, mas em outra, desenrolada nos EUA, diante das câmeras de TV dos anos 1950. Nessa, Joe era o vilão, um Mussolini caipira, e Egbert, rebatizado Edward, o mocinho que nunca deixou de ser em nenhuma frente. Como na outra guerra, o bem afinal triunfou sobre o mal. Joe, portanto, perdeu.Num ano rico em centenários ilustres como 2008 (faz cem anos que Machado de Assis morreu e cem que Simone de Beauvoir, Guimarães Rosa, Cartola, Merleau-Ponty, Lévi-Strauss, Jacques Tati e Cartier-Bresson nasceram), um, em particular, me chamou a atenção: os cem anos do macarthismo; vale dizer, o centenário da mais célebre e encarniçada caça às bruxas dos tempos modernos.Ora, direis, que me equivoco redondamente, que a laica inquisição da Guerra Fria que teve o senador Joseph (Joe Raymond) McCarthy como padroeiro e Torquemada-mor poderia estar fazendo, no máximo, 91 anos, caso a balizássemos pelas primeiras perseguições aos movimentos de esquerda pelas forças repressoras do governo americano. Ou 70 anos, pois foi em 1938 que o Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas (Huac, na sigla em inglês) iniciou, com outro nome, suas atividades. Ou, então, 61 anos, considerando-se que o Huac acendeu suas primeiras fogueiras em Hollywood a partir de 1947. Menos discutível seria a conta que adiaria para daqui a 25 meses o cinqüentenário do macarthismo, efetivamente deslanchado em 9 de fevereiro de 1950, quando, no clube das mulheres republicanas de Wheeling (Virgínia Ocidental), McCarthy fez seu histórico discurso sobre a infiltração comunista na América, afirmando trazer no bolso uma lista com 205 subversivos empregados no Departamento de Estado. Por conta dessa leviana bravata (a lista nunca existiu) é que a expressão mccarthyism foi criada pelo cartunista Herblock, do Washington Post, em 29 de março daquele ano. Se abandonarmos o campo da história tradicional, aquela que nos ensinou que a Revolução Francesa estourou em 1789, a Soviética em 1917, a 2ª Guerra Mundial em 1939 e a nossa Revolução de 30 em 1930, descobriremos outros marcos para os eventos citados: datas heterodoxas, mas nem por isso menos dignas de crédito. Ou melhor, tão respeitáveis quanto a que estabeleceu que o século 20 não começou em 1900, nem sequer em 1901, mas em 1914, quando a 1ª Guerra Mundial sepultou de vez o século 19. Se existe a história contrafactual e suas questionáveis fantasias, por que não tolerar a existência da história parafactual? Parafactual, procrônica, ou que nome mais adequado lhe possa ser dado. Uma coisa é imaginar o que teria acontecido ao mundo se Adolf Hitler tivesse seguido uma frutuosa carreira de artista plástico; outra é deslocar para 1889 o nascimento do nazismo, já que foi naquele ano que seu pai ideológico veio ao mundo. A Revolução Francesa foi, como todas as revoluções, uma soma de vários fatores e acontecimentos, mas também fruto do rumo que tomaram as vidas de seus três principais líderes. O que nos permite estimar que a Bastilha começou a ruir não em 1789, mas entre 1743 (quando nasceu Marat) e 1759 (quando Danton, um ano mais novo que Robespierre, saiu do ventre de sua mãe). Nesse período também nasceram Luís XVI e Maria Antonieta. Mas quem quiser retroceder a ascensão da burguesia e dos ideais iluministas até 1689, quando nasceu Montesquieu, tudo bem.Por igual perspectiva, a Revolução Soviética de 1917 teria germinado entre 1868 (quando a imperatriz Maria deu à luz Nicolai Aleksandrovitch Romanov, o último dos czares) e 1870 (quando Vladimir Ilitch Lenin levou seu primeiro tapa no traseiro); e a de 1930, quase 50 anos antes, pois Getúlio Vargas e seu adversário político Júlio Prestes nasceram, respectivamente, em 1883 e 1882. Mas voltemos ao centenário do macarthismo. Além de Joe McCarthy e Edward R. Murrow (que desmascarou o demagógico senador em seu programa de TV levado ao ar pela CBS em 9 de março de 1954 e recriado recentemente na tela no filme Boa Noite, Boa Sorte), outras 12 personalidades envolvidas na caça às bruxas nasceram em 1908. Coincidência ou fatalidade, foi um recorde, nem de perto acossado por outro ano. Por ordem de entrada em cena: a espiã Elizabeth Bentley (nascida no primeiro dia de 1908); o ator Lionel Stander; o físico nuclear Edward Teller; o romancista, roteirista, produtor e diretor de cinema Philip Dunne; o roteirista e diretor Robert Rossen; o roteirista Leo Townsend; os atores Paul Stewart e Jack Gilford; o escritor e roteirista A.I. Bezzerides; o cineasta Edward Dmytryk; o contista e roteirista Albert Maltz; a formidável jornalista (e terceira mulher de Hemingway) Martha Gellhorn. Por questão de poucos dias o ator José Ferrer e o cineasta Joseph Losey, ambos da primeira quinzena de janeiro de 1909, não ampliaram o recorde de 1908.Apenas dois eram adventícios: o húngaro Teller e o greco-armênio Bezzerides. Teller, uma das inspirações do Dr. Strangelove criado por Stanley Kubrick, assenhorou-se da paternidade da bomba de hidrogênio depois de dedurar o colega Robert Oppenheimer. Bezzerides escreveu os roteiros de vários filmes de ação da Warner, supostamente contaminados por mensagens engajadas. Parceiro de William Faulkner, Jules Dassin e Nicholas Ray, assegurou sua presença na história do filme noir com o script do apocalíptico A Morte num Beijo (Kiss me Deadly), dirigido por Robert Aldrich em 1955. Dunne, nova-iorquino de formação católica e liberal, pagou caro por suas atividades sindicalistas (foi um dos fundadores da associação dos roteiristas de Hollywood) e pela pronta defesa que montou, com John Huston e William Wyler, contra o assédio do Huac aos estúdios em 1947. Escreveu a quatro mãos o roteiro do épico bíblico O Manto Sagrado (1953), mas seu parceiro, Albert Maltz, em pior situação (como um dos "Dez de Hollywood", fora preso e proibido de trabalhar), acabou banido dos créditos - como acontecera em três outros filmes, um dos quais, Flechas de Fogo (1951), cujo premiado script só em 1997 deixou de ser atribuído exclusivamente a seu testa-de-ferro, Michael Blankort. Fazia então 12 anos que Maltz havia morrido. Dmytryk, outro dos "Dez de Hollywood", afinal bateu com a língua nos dentes (entregou Maltz e mais 25 ex-membros do Partido Comunista em atividade na indústria cinematográfica), atitude que também manchou a reputação da espiã Bentley e de Rossen, para ficarmos só entre os nascidos em 1908. Apesar dos pesares, dois sobreviventes da caça às bruxas quase emplacaram 100 anos, e pelo menos outros seis chegaram aos 80. Quem menos durou foi justamente McCarthy, aniquilado por uma hepatite alcoólica aos 48 anos. Convenhamos, a vida não é tão injusta assim.

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