O tribunal implacável da chuva

O tribunal implacável da chuva

Cada vez mais documentais, desastres naturais mostram além do clima e da natureza e solapam promessas pretensiosas e politiquismo de boteco

José de Souza Martins

10 de abril de 2010 | 10h44

 

Os muitos mortos, desaparecidos e desabrigados das chuvas destes dias no Rio de Janeiro acrescentam mais do que dor aos nossos sentimentos coletivos. Acrescentam humanas dúvidas em face de contas que totalizam os indevidamente mortos, os que morreram antes do tempo ou os que passaram a viver sem motivo, como o homem que perdeu toda a família e cuja parentela é agora a solidão; ou os que perderam boa parte dos seus e já não sabem o que fazer com o vazio que lhes restou. Os fantasmas de nossas tragédias não entram no censo de nossas repetidas perdas. Se entrassem, este país seria outro e a vida e não o voto teria prioridade nas políticas públicas.

 

Os desastres naturais revelam muita coisa, na sua súbita ocorrência, nas reações impróprias e improvisadas, fora do roteiro teatral que assegura a eficácia das máscaras dos que poderiam evitar-lhes as consequências. A tragédia não fica explicada no simplismo de uma frase descabida e sem graça dita pelo presidente da República no conforto do Copacabana Palace: "Quando o homem lá em cima fica nervoso e faz chover, só temos a pedir para Ele parar a chuva". É estranha a teologia de Luiz Inácio. A começar pelo fato de que o de "lá de cima" não é homem e o cá de baixo e lá do alto do poder é ele mesmo, que nessa frase se demite dos deveres litúrgicos da função que ocupa neste momento de luto coletivo. O Ser, ao qual atribui a culpa pelo desastre, não é um ente manhoso que sai do sério e castiga pessoas pobres e inocentes, crianças desamparadas por seu capricho e sufocadas pelo mar de lama que não evitou. Luiz Inácio foi convencido, um dia, a trilhar o caminho do poder por catequistas da política que lhe ensinaram que o Ser lá de cima é Deus e, se não me falha a memória, foi-lhe apresentado como o Deus da opção preferencial pelos pobres.

 

O humor descabido desdobrou-se na politicagem indevida e autodefensiva, fora de hora: "Onde eu vi obras do PAC tem menos água". Mas o conjunto habitacional do PAC inaugurado por Lula e Dilma em Manguinhos, em dezembro, está inundado. Por que, então, o pai do PAC e a mãe do PAC (que sumiu) não tomaram as devidas providências, nesses anos todos de governo, nos lugares há muito conhecidos como "áreas de risco"? Em 2004, quando o prefeito de Niterói era do PT, o Instituto de Geociência da UFF entregou-lhe estudo sobre o alto risco para as moradias no Morro do Bumba, antigo lixão. Os invasores também sabiam do risco. As tragédias dessa ordem têm sido tragédias anunciadas. Por que não removeram antes as vítimas potenciais, não proibiram antes construções e ocupações, não ofereceram alternativas antes que fosse tarde demais? Porque em nossa cultura política populista a razão não traz votos, não adorna mandatos, não confirma o poder.

 

Os governos federal e estadual e os municipais das áreas atingidas têm funcionários justamente para evitar e prevenir desastres. Por que aparecem depois para enterrar os mortos e não antes para salvar vidas? Desde as enchentes de Santa Catarina, em 2008, este país tem sido colocado em face de adversidades climáticas que questionam uma insólita realidade de omissões sociais e políticas. Cada vez mais os desastres naturais têm sido documentais, porque reveladores do que não se cinge ao clima e à natureza. Acabam solapando os discursos fáceis, as promessas pretensiosas, o politiquismo de boteco. O desastre revela as omissões de décadas de populismo, de que o Rio tem sido vítima preferencial, mais ativo agora nestes tempos eleitorais. Há recursos e investimentos para a marola da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016, mas cadê planos, recursos e competência para corrigir muitos anos de erros e de falta de coragem política no planejamento urbano? Em tudo, a opção pelo supérfluo e o desprezo pelo essencial. Esquerda não é rótulo e de esquerda é o governo que ousa em nome da democrática razão, em nome da vida, e não o governo prisioneiro das passageiras e mansas conveniências do poder.

 

JOSÉ DE SOUZA MARTINS É PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE O CATIVEIRO DA TERRA (CONTEXTO)

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