O último grande tirano

Na busca pela excelência, fundador da Apple triturou subordinados e sócios cujo desempenho não o satisfez e arrasou concorrentes sem perdão

, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2011 | 03h07

DAVID STREITFELDA primeira vez em que Steve Jobs intimidou alguém foi no terceiro ano do ensino fundamental. Com alguns colegas, ele disse certa vez ter "basicamente destruído" o professor.

Nos 50 anos que se seguiram, Jobs nunca abandonou a briga. Ele triturou subordinados e sócios cujo desempenho não o satisfez, arrasou concorrentes que não chegaram aos pés dele e disse a supostos entendidos da indústria que fossem passear. Jobs tinha uma visão da grandeza que brandiu para transformar as indústrias dos computadores, da telefonia e do entretenimento, e não aceitava fazer nenhum tipo de concessão.

Talvez isso decorra simplesmente do desespero que os americanos têm sentido em relação à estagnação da economia do país, mas o anúncio da morte do cofundador da Apple, na quarta feira, pareceu marcar o fim de algo. Numa era de limites, Jobs foi o último grande tirano.

Mesmo no Vale do Silício, onde os caciques corporativos costumam ter um ego ilimitado - e tecnologias capazes de aprimorar a alma são prometidas logo no primeiro e-mail do dia -, não havia ninguém exatamente como ele. Jobs usou seus poderes para criar dispositivos que são amados por seus compradores de uma maneira que pouquíssimos produtos americanos conseguem ser, principalmente hoje em dia.

"Em meio ao oceano de mediocridade obrigatória na insossa e fria cultura das corporações gigantes geridas por comissão", escreveu o empreendedor Perry Metzger na sua página no Google+, Jobs "mostrou que o verdadeiro caminho rumo à excelência é a excelência, que era possível alcançar grandes feitos simplesmente - quem diria - sendo inteligente, tendo bom gosto e nunca aceitando o segundo lugar."

Depois que a morte dele veio a público, viu-se uma cascata de emoções no Twitter e nos blogs. Os fãs se reuniram diante das lojas da Apple por toda parte. A casa dele fica no centro da cidade, fácil de achar e bastante modesta para um sujeito cuja fortuna foi avaliada em US$ 6,5 bilhões. Ele estava planejando a construção de uma segunda casa, mas até isso pareceu ser um comportamento relativamente contido para um lorde do Vale do Silício.

O âmbito no qual ele não se continha era o trabalho. São muitas as histórias dele dizendo sem meias palavras a funcionários da Apple que um produto não era bom o bastante. ("Você preparou um bolo realmente delicioso", disse ele a um engenheiro da Apple, acrescentando que o pobre coitado tinha usado cocô de cachorro para fazer a cobertura.) Torne tudo menor e melhor, exigia ele. Nenhum detalhe do design era considerado insignificante a ponto de escapar a sua atenção. (A respeito de uma interface do Mac: "Tornamos os botões exibidos na tela tão maravilhosos que vocês terão vontade de lambê-los.")

Jobs castigou os concorrentes, principalmente a Microsoft. A empresa de Bill Gates, cujo poder e riqueza superaram em muito os da Apple durante as décadas de 80 e 90, não era nem mesmo descrita como companhia de segunda classe; para ele, a Microsoft era uma empresa de quinta categoria. Pior: ela nem mesmo se esforçava.

"O único problema da Microsoft é sua falta de gosto", disse Jobs num de seus típicos comentários. "O gosto deles é péssimo. E não digo isto como uma observação passageira, e sim como uma crítica séria, no sentido de que eles não pensam em ideias originais e não incorporam muitas referências culturais aos seus produtos."

Esse não é o tipo de comentário franco que ouvimos os fundadores do Google, por exemplo, fazer a respeito de Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, ou vice-versa. "Estamos de luto pela morte de Steve porque não há muito de sua paixão e objetividade na vida corporativa atual", disse Jay Elliot, ex-executivo da Apple que escreveu um livro falando da experiência de aprender as lições de Jobs a respeito de liderança. "A força que o impulsionava não era o preço das ações."

Como muitas das grandes empresas de tecnologia, a Apple contava com uma formidável equipe de relações públicas, mas Jobs não se deixou conter por isso. As pessoas conheciam seu endereço eletrônico - sjobs@apple.com - e enviavam a ele perguntas e queixas. Muitas vezes ele respondia, ainda que sucintamente. O esforço persistente de uma universitária queixando-se da dificuldade de obter informações da equipe de RP, famosa pela sua reticência, finalmente inspirou um impaciente "Por favor, deixe-nos em paz".

A autoconfiança de Jobs podia às vezes ser confundida com arrogância e presunção. Numa festa de Halloween realizada nos primeiros anos da Apple, mais livres, dizem que ele veio fantasiado de Jesus. (Num tributo raro para um leigo, a carreira de Jobs foi celebrada na quinta-feira na primeira página do jornal do Vaticano.) Mas a arrogância dele era temperada pela fé no poder da tecnologia de melhorar nossas vidas.

O satírico jornal The Onion sublinhou esse aspecto muito bem na sua reportagem sobre a morte de Jobs. A manchete, adaptada aqui para omitir os termos chulos, era "Morre o último americano que sabia o que diabos estava fazendo".

Engraçado, mas a cultura do Vale do Silício costuma questionar sentimentos desse tipo. "Não quero diminuir em nada a obra dele, mas estamos vendo um nível de adulação que vai além do que seria merecido", disse Tim O'Reilly, diretor executivo da editora O'Reilly Media, voltada para o ramo da tecnologia. "Haverá no futuro outras revoluções e outros revolucionários." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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