O urso acordou. E sente fome

Comparação explica o despertar da nova Rússia, ainda sob Putin: rejuvenescida, ávida por poder e pronta para recobrar o controle sobre a região do Cáucaso

James Traub*, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2008 | 23h17

As hostilidades que eclodiram entre Rússia e Geórgia parecem, a um olhar retrospectivo, mais do que previamente anunciadas. Durante anos, os russos alegaram que o presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, vinha se preparando para retomar as disputadas regiões da Ossétia do Sul e da Abkázia - e deixaram claro que fariam uso da força para impedir essa pretensão. Saakashvili descreve a Rússia de hoje como uma potência beligerante que pressiona de forma impiedosa suas fronteiras, sendo implacavelmente hostil a vizinhos democráticos como Geórgia e Ucrânia. Ele uniu sua sorte ao Ocidente, e tem defendido com ardor o ingresso de seu país na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). No entanto, Vladimir Putin, ex-presidente e atual primeiro-ministro da Rússia, diz que jamais aceitará a presença da Otan na região. Em suma, a fronteira entre Geórgia e Rússia tem sido altamente combustível - restava saber onde começaria o fogo. Veja também:O alcance limitado dos rugidosNão está nem um pouco claro, porém, como as coisas ficarão entre as duas quando a fumaça se dissipar. Mas é seguro dizer que, embora a Rússia tenha uma enorme vantagem bélica, a Geórgia - uma nação mais ou menos democrática e de mercado aberto, que se vê como um posto avançado da Europa - leva uma vantagem retórica e política que pode ser decisiva. Em conversações recentes nesse país, o presidente Saakashvili comparou a Geórgia à Checoslováquia de 1938, confiando no Ocidente para salvá-la de um vizinho voraz. "Se a Geórgia fracassar", disse-me ele há dois meses, "estará sinalizando a todos que este caminho não funciona". Numa visita de dez dias à Geórgia, em junho, ouvi inúmeras vezes a analogia com 1938, e outra com 1921, quando tropas bolchevistas esmagaram a primeira, empolgante e breve experiência de regime liberal no país.Os georgianos são um povo melodramático, e poucos deles o são mais que seu hiperativo presidente. Mas eles têm uma boa razão para temer as ambições e a ira de uma Rússia rejuvenescida, tentando recuperar o poder perdido. Aliás, uma Rússia renascente e cada vez mais belicosa é um espetáculo ameaçador também para o Ocidente. Enquanto a China prega, e em grande medida, pratica, a doutrina de uma "ascensão pacífica", evitando confrontos externos para se concentrar no desenvolvimento em casa, os russos agem cada vez mais como uma potência expansionista do século 19, pressionando suas fronteiras. O mais espantoso é que a Rússia tem mobilizado descaradamente seus vastos recursos de petróleo e gás para castigar vizinhos refratários como a Ucrânia, e premiar os submissos como a Armênia.Um alto funcionário do governo americano disse que, apesar de Estados Unidos e Rússia terem interesses comuns, a última tornou-se "uma potência revisionista e agressiva", e o Ocidente "precisa se preparar para contê-la". Por outro lado, a administração Bush admite também que a Rússia tem interesses legítimos de segurança e Saakashvili fez um jogo perigoso ao provocar o grande urso. Para boa parte do mundo diplomático e político, a fronteira entre Geórgia e Rússia tornou-se um novo espaço de guerra fria.O aparente ódio da Rússia à Geórgia provoca uma interminável perplexidade, e não pouco orgulho. Ouvi três pessoas diferentes citarem uma pesquisa em que a Geórgia teria superado os Estados Unidos como o país que os russos identificavam como inimigo número 1. Os georgianos insistem em que estão livres dessas patologias e ninguém sai ganhando com isso - embora se pudesse pensar o contrário ouvindo a multidão no Betsy?s Hotel, em Tbilisi, durante a quarta-de-final entre Rússia e Holanda na Eurocopa. De repente, os holandeses eram os queridinhos de todo o mundo.Submissos e rebeldesAs raízes dessa relação tão amarga são profundas e confusas, como praticamente tudo no mundo arcaico do Cáucaso. A história moderna da Geórgia é um registro da sua submissão ao poder russo. Ameaçados pelo império persa, em 1783 os georgianos aceitaram a "proteção" da Rússia - uma ficção que terminou quando esta anexou a Geórgia em 1801. O caos da Revolução Russa finalmente deu à Geórgia uma chance de restaurar sua soberania um século depois. Os georgianos eram menchevistas - social-democratas - e durante três anos tiveram os governos mais progressistas do mundo. Um tratado foi assinado com os bolcheviques, assegurando o respeito à independência da Geórgia. Os países europeus tomaram o acordo ao pé da letra. Quando despertaram para a realidade, era tarde demais.Desde a época de Pushkin, os russos viam a Geórgia como uma fronteira romântica, exótica. Durante o longo congelamento puritano do comunismo, a Geórgia serviu como a Itália da Rússia - um santuário cálido e idílico de cantores, poetas e gângsteres aventureiros. A elite tinha suas dachas na costa do Mar Negro da Abkázia. Ao mesmo tempo, Stalin, embora fosse georgiano, manteve a república submetida a expurgos brutais. O chefe do Partido Comunista Georgiano era Lavrenti Beria, o assassino frio que viria a ser o principal arquiteto do terror stalinista. Os georgianos, mesmo sem escolha, jamais aceitaram a identidade soviética, e preservaram sua língua, cultura e prática religiosa - como haviam feito sob os czares. Quando por fim o império soviético desmoronou, declararam imediatamente independência, em 1991.O jovem país passou a década seguinte estagnado sob o regime de estilo soviético de Eduard Shevardnadze, o ex-ministro de Relações Exteriores de Mikhail Gorbachev. Em 2003, porém, Shevardnadze foi derrubado pacificamente no que veio a ser conhecido como a Revolução Rosa. Saakashvili foi eleito no ano seguinte. Desde então, a Geórgia se tornou um filho modelo da ocidentalização. A taxa de crescimento atingiu 12%. O campo continua empobrecido, mas o que o mundo exterior vê da Geórgia é delicioso. Tbilisi é uma cidade encantadora, com suas igrejas ortodoxas restauradas, as ruas da cidade velha ladeadas por cafés e galerias de arte. Saakashvili também fez da Geórgia um dos países mais pró-americanos. O presidente Bush teve uma recepção calorosa quando a visitou em 2005 - e a estrada para o aeroporto recebeu depois seu nome.A Rússia que renasceFoi nesse exato momento, também, que outra jovem e ambiciosa figura reconstruía a política, a economia e a auto-imagem da Rússia. A combinação das reformas de Vladimir Putin com a alta vertiginosa dos preços do petróleo e do gás devolveu rapidamente à Rússia a condição de potência mundial. E Putin tem usado esse poder a serviço de um nacionalismo agressivo.Marshall Goldman, um importante especialista em Rússia, argumenta num livro recente que Putin estabeleceu um "petro-Estado" em que petróleo e gás são usados estrategicamente como punições, recompensas e ameaças. O autor detalha os extremos a que Putin chegou para conservar o controle do transporte de gás natural da Ásia Central para o Ocidente. Propôs-se um gasoduto alternativo que margearia a Rússia e cruzaria a Geórgia, como faz atualmente um oleoduto. "Se a Geórgia se esfacelar", observa Goldman, "os investidores não vão pôr dinheiro no gasoduto alternativo." E assim, ele conclui, Putin fez o que pôde para desestabilizar o regime de Saakashvili.Apenas as considerações econômicas, no entanto, não dão conta do que parece ser uma obsessão com a Geórgia. As "revoluções coloridas" que varreram a Ucrânia, os Bálcãs e o Cáucaso nos primeiros anos do novo século claramente irritaram Putin, que denunciou a política americana de "promoção da democracia" e obstruiu organizações estrangeiras que tentavam promover direitos humanos em seu país. A Geórgia, de namoro às claras com o Ocidente, representa portanto uma ameaça à legitimidade do modelo autoritário russo - desafio este imensamente fortalecido pelo desejo da Geórgia de integrar a Otan. Autor idades russas lembram sempre que o presidente Bill Clinton prometeu a Boris Yeltsin que a organização não se expandiria além da Europa Oriental. A Otan, claro, não é mais uma aliança anti-soviética. Ver sua expansão como ameaça é sinal da mentalidade de guerra fria de Putin e seu círculo.E eles estão levando isso a sério. Tanto Putin como seu sucessor na presidência, Dmitri Medvedev, reservaram a retórica mais dura para esse tema. O ministro de Relações Exteriores, Serguei Lavrov, disse que a ambição da Geórgia de ingressar na Otan "levará a um novo derramamento de sangue".Depois que Saakashvili, então com 37 anos, tornou-se presidente, Putin não fez nenhuma tentativa de cortejá-lo, e Saakashvili fez questão de não mostrar a menor deferência pela potência regional. A luta aberta começou no fim de 2005, quando a Rússia impôs um embargo aos produtos agrícolas georgianos, e, depois, ao vinho e à água mineral - virtualmente todo o mercado exportador da Geórgia. Depois que o país expulsou diplomatas russos acusados de espionagem, Putin cortou as ligações terrestres, marítimas, aéreas e ferroviárias com a Geórgia, além do serviço postal. No auge do inverno, diminuiu suprimentos de gás natural.Os ecos da tragédiaEssa nova rodada de hostilidades pareceu assustadoramente familiar aos georgianos. Alexander Rondeli, diretor da Fundação Georgiana de Estudos Internacionais e de Segurança, transmitiu-me um pensamento que atribuiu ao acadêmico e diplomata George F. Kennan: "Nas suas fronteiras, a Rússia só pode ter inimigos ou vassalos". A elite georgiana veio a perceber a Rússia como um poder implacável imbuído da paranóia da KGB (o antigo serviço secreto da URSS), da qual Putin e seus mais íntimos associados surgiram, e alimentado pelo sentimento nacional de humilhação com a impotência da Rússia nos anos 1990. "Vocês deviam compreender", disse Saakashvili aos europeus que lhe pediram tolerância, "que o crocodilo está faminto. E do ponto de vista de alguém que quer conservar a própria perna, isso é difícil de aceitar."Mas o crocodilo poderia ter sido contido não fosse pela Abkázia e a Ossétia do Sul - a primeira, uma tradicional zona de veraneio no Mar Negro que definia a fronteira ocidental da Geórgia; a segunda, uma região empobrecida e pouco populosa que faz divisa com a Rússia ao norte. A Geórgia é uma nação poliglota, e considera as duas regiões histórica e inextricavelmente georgianas. Cada uma, porém, tem sua língua, cultura, história imemorial e aspirações separatistas. Quando a União Soviética se esfacelou, as duas procuraram se separar da Geórgia em conflitos sangrentos - a Ossétia do Sul em 1990-1, a Abkázia em 1992-4. Ambas as guerras terminaram em cessar-fogo negociado pela Rússia e policiado por forças de paz sob a égide da recém-criada Comunidade de Estados Independentes. Com o tempo, os impasses se transformaram em "conflitos congelados", como o existente em Chipre.Georgianos, porém, são intensamente nacionalistas, e viam esses Estados fronteiriços como uma violação intolerável de sua soberania. Saakashvili explorou esse sentimento profundo de agravo, prometendo restaurar a "integridade territorial" da Geórgia. Pouco depois de assumir o cargo, conseguiu recuperar o controle georgiano sobre a província meridional de Ajara. Depois, no verão setentrional de 2004, sob pretexto do crescente banditismo e do caos, enviou tropas do Ministério do Interior à Ossétia do Sul. Após uma série de choques inconclusivos, os soldados foram obrigados a uma retirada humilhante.Essa violação do status quo enfureceu os russos, e Saakashvili, ouvindo por uma vez seus poucos consultores moderados, concordou em buscar um acordo negociado com a Abkázia. Em fins de 2005, um mediador georgiano havia iniciado um acordo: a Geórgia não faria uso da força e a Abkázia permitiria o retorno gradual de mais de 200 mil georgianos que haviam fugido da violência. Mas o acordo gorou no início de 2006 por causa dos linhas-duras de ambos os lados. Esperando uma faíscaEsse breve intervalo de conversas chegou a um desfecho abrupto há dois verões, quando Saakashvili enviou soldados para retomar o Vale Kodori, na Abkázia - para, de novo, conter o banditismo (que era grande, de fato). Abkázios e russos tomaram a ação como sinal de que a Geórgia estava disposta a lutar para recuperar sua antiga província. Aliás, no ano passado, Saakashvili viajou até a fronteira abkázia e prometeu a uma multidão de refugiados georgianos que seriam levados de volta para casa no prazo de um ano.As regiões separatistas eram, pois, uma banana de dinamite esperando ser acesa. E Putin riscou o fósforo. Embora a Rússia, como poder mantenedor da paz, estivesse encarregada de preservar um consenso internacional que reconhecia as pretensões da Geórgia sobre a Abkázia, ela própria suspendeu sanções à Abkázia em março último. Isso não teve nada a ver com acontecimentos locais. Putin havia tentado durante anos impedir Kosovo de declarar sua independência da Sérvia. Quando Kosovo seguiu em frente, com forte apoio americano e europeu, em fevereiro último, Putin respondeu golpeando a protegida dos Estados Unidos no Cáucaso.Pouco tempo depois, a Duma (Câmara Baixa) russa fez audiências sobre o reconhecimento de Abkázia, Ossétia do Sul e Transnístria, república separatista pró-russa da Moldávia. Moscou argumentou que a lógica do Ocidente sobre Kosovo se aplicaria também a essas comunidades étnicas. Em meados de abril, Putin sustentou a possibilidade de reconhecimento das repúblicas separatistas.As coisas começaram a se deteriorar rapidamente. Em 21 de abril, Saakashvili ligou para o líder russo para pedir que ele revertesse a decisão. Ele recordou Putin de que o Ocidente havia se declarado a favor da Geórgia na disputa. E Putin, segundo várias pessoas próximas a Saakashvili, replicou sugerindo onde poderiam colocar suas declarações. Saakashvili, prudente, se absteve de reproduzir o palavreado exato, mas disse que Putin usara uma "linguagem extremamente ofensiva" e havia repetido a expressão várias vezes. O presidente georgiano ficou abalado com a hostilidade aberta. Ele já temia que o Ocidente, ao menos a Europa, não se pusesse ao lado da Geórgia numa crise. E ali estava Putin dizendo que o apoio do Ocidente não significava nada para ele. Ali, de fato, era 1938.Entre março e abril, o clima tornou-se mais tenso. A Geórgia acusou a Rússia de derrubar um avião de espionagem não tripulado sobre a Abkázia; um relatório das Nações Unidas confirmou a acusação. A Rússia insistiu publicamente em que a Geórgia estava se preparando para a guerra; de fato, os georgianos haviam mobilizado tropas e preparado depósitos de combustíveis.A Rússia respondeu aos aparentes preparativos georgianos enviando 400 pára-quedistas e uma bateria de morteiros para uma área não distante da linha de cessar-fogo, provocando vigoroso protesto da Otan. "No fim do dia estávamos muito perto da guerra" em 9 de maio, diz Temuri Yacobashvili, o ministro georgiano da Reintegração e confidente de Saakashvili. De fato, diplomatas na Geórgia e em outros lugares deram um pouco mais de crédito às alegações russas que às da Georgia. Funcionários do Departamento de Estado insistiram para Saakashvili se acalmar. É possível que cada lado estivesse provocando para o outro atacar primeiro, e assim perder a batalha da opinião pública. Mas é assim que freqüentemente as guerras têm início.Até a semana passada, a Abkázia parecia a candidata mais provável a uma guerra de imprevidência. Visitei-a em junho. Difícil imaginar pelo que as pessoas estavam brigando - na capital, Sukhumi, de 40 mil habitantes, havia resquícios da luta por toda parte, e o gigantesco edifício do Parlamento, da era soviética, era uma casca chamuscada. As ruas estavam desertas.A espiral descendenteFalar com os georgianos sobre a Abkázia, e com os abkázios sobre a Geórgia, era como falar com israelenses e palestinos. Os georgianos dizem que estiveram "sempre lá", que a Abkázia era georgiana e que foi somente depois de expulsar os georgianos étnicos, no fim da guerra, que os abkázios se tornaram maioria na província. Abkázios, por sua vez, dizem que são descendentes de um "reino de mil anos", que foram vítimas de uma campanha maciça de deportação russa nos anos 1860 e depois Stalin os forçou a ficar sob o jugo georgiano. Os abkázios falam dos georgianos do mesmo modo que os georgianos falam dos russos. Nisso os abkázios têm muito em comum com os ossétios do sul: para eles, a Geórgia é o vizinho valentão. É uma aposta bastante segura a de que a Geórgia e a Abkázia não resolverãeu conflito sozinhas. As duas regiões separatistas estão muito dispostas a viver com o status quo implementado pelos russos, mas até funcionários georgianos relativamente moderados consideram essa condição inaceitável. Quando perguntei a Temuri Yacobashvili, homem culto que é um dos principais patronos das artes do país, por que a Geórgia não podia se concentrar na ameaça da Rússia e deixar os abkázios com seu Estado de fato, ele disse: "Essas não são duas coisas diferentes, porque não é amputar mão, mas cabeça ou coração. Nenhum presidente georgiano sobreviveria se desistisse da Abkázia". E acrescentou: "Se com sua inércia a comunidade internacional não deixar nenhuma outra opção à Geórgia, então teremos de tomar uma decisão". Isto é, se o Ocidente não induzir a Rússia a parar de usar a região fronteiriça como um peão, a Geórgia não terá outra escolha senão a guerra. A situação, tanto na Abkázia como na Ossétia do Sul, deu mais uma volta na espiral descendente rumo ao confronto em julho, quando atos de violência misteriosos atingiram as duas regiões. Houve atentados a bomba na Abkázia. Houve tiroteios na Ossétia do Sul. Quem estava por trás dos ataques? Bandos criminosos? Provocadores? Agentes secretos georgianos? Ninguém soube, mas isso não impediu as acusações de circularem. A Abkázia fechou a linha de cessar-fogo, depois cortou todos os laços com a Geórgia. Em 8 de julho, com a secretária de Estado Condoleezza Rice prestes a visitar a Geórgia, a Rússia enviou aviões de caça para sobrevoar a Ossétia do Sul. Forças do Ministério do Interior georgiano investiram contra civis na Ossétia do Sul. O caldeirão estava fervendo. E aí, na semana passada, a fervura transbordou na Ossétia do Sul, por razões que continuam imprecisas. Diplomatas trabalharam com empenho para que a guerra não se alastrasse, embora as hostilidades se devam a interesses diferentes demais para serem facilmente contidas.O Ocidente assustadoHá um alarme real no Ocidente sobre a deterioração da situação no Cáucaso. Diplomatas de Washington e das principais capitais européias, assim como da ONU, da União Européia e da Otan, têm viajado com freqüência para a região tentando reunir as partes. Em julho, Frank-Walter Steinmeier, ministro das Relações Exteriores da Alemanha, a principal nação do "Grupo de Amigos" da Geórgia na ONU, procurou os georgianos e os abkázios com um plano de paz - semelhante, em linhas gerais, a um outro que fracassou há dois anos. Os georgianos concordaram com uma reunião em Bonn: os abkázios, presumivelmente com apoio russo, se recusaram. O próprio Saakashvili havia tentado mostrar um lado mais conciliatório, propondo garantias de autonomia para a Abkázia dentro de uma federação georgiana, e o estabelecimento de uma zona de livre comércio adjacente à linha de cessar-fogo conjuntamente controlada. Os abkázios rejeitaram a oferta, não só porque insistem na independência, mas porque supuseram, talvez corretamente, que Saakashvili estava fazendo pose para o Ocidente.Chocante, porém, é o crescente consenso sobre o comportamento russo. Nações Unidas, União Européia e Otan ficaram do lado da Geórgia nas disputas sobre a Abkázia e a Ossétia do Sul. Saakashvili ficou profundamente desapontado quando, no início de abril, a Otan se recusou a pôr Geórgia e Ucrânia no caminho do ingresso no tratado, mas diz que a chanceler alemã, Angela Merkel, lhe explicou que embora os alemães "não queiram ser pressionados" sobre a Otan, eles poderão oferecer seu apoio no final deste ano. Quase tão satisfatória para Saakashvili foi sua desberta de que Merkel "entende" da Rússia - "porque ela conhece a Rússia por experiência própria".Num ensaio recente, o arqui-realista Henry Kissinger argumentou que a política da era Putin fora guiada não por sonhos de uma glória restaurada, mas por "uma busca de um parceiro estratégico confiável, com os Estados Unidos como opção preferencial". Alguns especialistas em Rússia, orientados à esquerda, como Stephen Cohen, de Princeton, adotaram uma visão similar. Mas o comportamento belicoso da Rússia, e, agora, as hostilidades ao longo de sua fronteira, tornam cada vez mais difícil agir com essa premissa sem parecer ingênuo.Pessoas de todos os matizes políticos agora parecem entender a Rússia. Em The Return of History and The End of Dreams (O rretorno da História e o Fim dos Sonhos), Robert Kagan, o especialista em política externa neoconservador que está assessorando John McCain, escreve sobre Putin e seu círculo: "Sua grande ambição é desfazer o acordo pós-Guerra Fria e restabelecer a Rússia como uma potência dominante na Eurásia". Michael McFaul, um especialista em Rússia de Stanford que está assessorando Barack Obama, também vê o país como um poder de esfera de influência pré-moderno. Ele atribui a hostilidade da Rússia com relação a uma maior expansão da Otan menos a cálculos geoestratégicos do que àquilo que chama de mentalidade de guerra fria de Putin. O cálculo russo básico, diz ele, é o seguinte: "Tudo que pudermos fazer para enfraquecer os Estados Unidos é bom para a Rússia".Para o Ocidente, a questão central é a sobrevivência de Estados democráticos, ou ao menos independentes, ao longo da fronteira russa. Mas por essa mesma razão, até os Estados Unidos, que têm sido o aliado mais constante da Geórgia, distinguem entre o status da Abkázia e da Ossétia do Sul de um lado, e a ameaça da Rússia à autonomia e integridade da Geórgia do outro.Pedindo paciênciaAutoridades americanas preveniram regularmente Saakashvili para ser paciente sobre a Abkázia e a Ossétia do Sul, enquanto asseguravam pública e privadamente o ingresso georgiano na Otan. Seria, aliás, uma surpresa se a Geórgia tivesse provocado deliberadamente uma guerra na Ossétia do Sul, pois Saakashvili compreende que isso quase certamente significaria o fim da pretensão ao tratado; na verdade, a Rússia pode perfeitamente ter calculado que a Otan continuará excluindo a Geórgia enquanto o país estiver enredado em hostilidades ao longo de sua fronteira.Os predicados da Geórgia parecem muito simples do ponto vantajoso de Tbilisi - 1921, 1938 -, mas extremamente complexos de grande distância. A Rússia ameaça a Geórgia, mas a Geórgia ameaça a Abkázia e a Ossétia do Sul. A Rússia parece um crocodilo para a Geórgia, mas a Geórgia parece a mão de gato do Ocidente para a Rússia. Um lado tem todo o poder duro que pode querer, e o outro todo o poder brando. E agora, enquanto o mundo estava olhando para outro lado, o conflito congelado entre eles descongelou e rachou. Será preciso muito cuidado e atenção mesmo para deixar as coisas do jeito que estavam. *O autorJames Traub, jornalista e escritor, é colaborador da New York Times Magazine e do New York Times. Trabalhou para muitos dos mais importantes veículos dos EUA: The New Yorker, The New York Review of Books, The Atlantic Monthly, National Review, Foreign Affairs, New York Post, Saturday Review. A cidade de Nova York é tema ou pano de fundo de vários de seus livros, como The Devil?s Playground. Outro tema favorito de Traub é a educação. Seu último livro, recém-lançado nos EUA, é The Freedom Agenda - Why America Must Spread Democracy (Just Not The Way George Bush Did) [A Agenda da Liberdade - Por que a América Deve Espalhar Democracia (Justamente como Bush não Fez)]. Nele, o autor fala das fracassadas tentativas da administração Bush de deflagrar a democracia no exterior. James Traub é graduado magna cum laude na Universidade Harvard e membro do Council on Foreign Relations. Nasceu em 1954 e vive em Nova York.

Tudo o que sabemos sobre:
GeórgiaRússia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.