REUTERS/Andrew Kelly
REUTERS/Andrew Kelly

O retrato do Brooklyn por William Boyle

Autor ambienta suas obras nos subúrbios de Nova York, onde cresceu

Richard Lipez, The Washington Post

10 de dezembro de 2021 | 10h00

O novo romance de William Boyle começa com uma colisão: uma jovem morre quando Bobby Santovasco, de 14 anos, atira uma pedra no seu carro, fazendo-a entrar na contramão. O livro termina cinco anos depois, em 2001, com o violento confronto de um grupo memorável de moradores do sul do Brooklyn, um dos quais é Jack, o pai da vítima do acidente, ainda furioso e desolado. Numa entrevista no ano passado, Boyle disse que tenta escrever sobre como pessoas ruins podem fazer coisas boas e como pessoas boas podem fazer coisas ruins. Em Shoot the Moonlight Out, Boyle atinge seu objetivo maravilhosamente bem.

Boyle cresceu no bairro sobre o qual sempre escreve e sabe muito bem como o mundo pode ser pequeno. Vários de suas personagens em Shoot the Moonlight Out se encontram na Igreja de St. Mary, onde a recém-formada e aspirante a romancista Lily Murphy faz a organização de um grupo de escritores. Outras estão de uma forma ou de outra ligadas a Max Berry, “conselheiro de investimentos” de um esquema de pirâmide que é viciado em tomar leite em embalagens de meio litro e tem uma queda por garotas góticas de escolas católicas. Charlie French, um sádico que bota banca de mafioso, esconde um saco cheio de dinheiro de esquemas de extorsão no cofre de Max. Sacos de dinheiro são um artifício narrativo testado e aprovado, e Boyle é o escritor certo para tirar o máximo proveito dele. Quem vai ficar com o dinheiro? Quanto sangue vai se derramar nesse meio-tempo? Quais pessoas supostamente boas vão se machucar ou morrer?

Todos os personagens de Boyle são bons e maus em combinações variadas – e nenhum mais do que Jack. Depois de sua esposa morrer de câncer, mas antes de sua amada filha Amelia morrer pelas mãos do imprudente Bobby, Jack larga o emprego de leitor de medidores e fica em casa bebendo. Só encontra propósito na vida quando uma vítima dos golpes de Max lhe pede ajuda e Jack descobre que tem talento para a vingança. Outras pessoas injustiçadas logo começam a contratá-lo. Seus ganhos como vingador freelance pagam as mensalidades da faculdade de Amelia. Quando Jack se junta ao grupo de escritores de Lily, ele já renunciou à violência – pelo menos até a órfã Lily, que agora é como uma filha, começar a ser perseguida por um ex-namorado perigoso.

Boyle alterna entre os pontos de vista de suas personagens, entrando na cabeça de cada uma delas sem nunca soar falso. A jovem aspirante a cineasta Francesca Clarke enrola seus próprios cigarros porque “zero filtro significa zero culpa por jogar lixo na calçada”. Ela se apaixona por Bobby, agora com 19 anos, porque ele é “calmo e ansioso ao mesmo tempo (...) Tudo nele grita pela vizinhança”.

A vizinhança é tudo para os personagens de Boyle – exceto para aqueles que, como Lily, a consideram claustrofóbica e limitadora. Antes que a natureza mais sombria de Bobby se mostre novamente, ele e Francesca também têm o que para eles é uma fuga romântica: pegam o trem para Manhattan e conseguem um quarto de hotel barato em Chinatown, onde “a cama está afundada feito um bolo tirado do forno cedo demais”.

Detalhes como estes são o forte de Boyle, assim como seus grandes e rápidos esboços de personagens menores. O motorista que pegou o jovem Bobby e seu amigo Zeke quando eles estavam jogando pedras nos carros tinha “o corpo de alguém que jogava softball como desculpa para tomar cerveja”. A sempre simpática Lily tem um momento de revelação numa das cenas mais ternas do romance, com ela, Jack e Francesca. “Ela está pensando, voltar para casa devia ser sempre assim. Tudo girando em torno de risos e bebidas”. É o modesto objetivo que tantas pessoas desejam alcançar no Brooklyn de William Boyle, embora nem todas consigam.

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Richard Lipez escreve os romances Donald Strachey sob o nome de Richard Stevenson. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Shoot the Moonlight Out

William Boyle

Pegasus Crime - 310 páginas - US $ 25,95

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