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'O vírus no cinema de horror representa outra coisa', diz Brandon Cronenberg

O diretor do provocativo filme de terror ‘Possessor’ argumenta que nenhum de nós é quem verdadeiramente é: 'Existe uma performance interna que realizamos no dia-a-dia'

Jason Zinoman, The New York Times

17 de outubro de 2020 | 16h00

O novo e estiloso filme de terror Possessor conta a história de uma corporação que sequestra corpos e mentes de pessoas para trocá-los pelo corpo de uma assassina que matará outras pessoas antes de cometer suicídio. Parece meio forçado? Fale isto para o seu diretor, Brandon Cronenberg, e ele vai lhe contar uma historinha bem verdadeira sobre exércitos privados e neurociência do controle mental. A tecnologia do filme está à frente de seu tempo, mas ainda está enraizada no mundo real, ele me garante.

Conversando pelo Zoom de sua casa em Toronto, Cronenberg, que vem recebendo excelentes críticas sobre o longa, seu segundo depois de Antiviral (2013), disse que ambientou seu novo filme num passado recente porque estava menos interessado em prever o futuro do que em iluminar o que a tecnologia está fazendo conosco nos dias de hoje. A maneira crua como usa a violência e seu foco investigativo e provocador nas relações entre mente e corpo, além do sexo e da violência, renderam comparações com os filmes de seu pai, David.

Na conversa, ele parece não ter muito interesse em falar sobre sua linhagem no horror, mesmo que sua abordagem intelectual acabe levando a conversa para esse rumo. Quando perguntei por que os fãs acham bonito ver sangue derramado, Cronenberg respondeu que o líquido vermelho e vicioso cria imagens impressionantes – e acrescentou: “Também pode ser uma metáfora comovente, trazendo aquilo que está dentro de nós e o transformando em arte”.

Aqui estão alguns trechos editados de nossa conversa.

Você lançou um filme de terror durante uma pandemia. A covid-19 mudará as coisas com que as pessoas se assustam?

Toda uma geração ficará apavorada com isso, sem dúvida. Certamente veremos uma onda de filmes sobre o vírus. O que me pergunto é se as pessoas vão querer vê-los. Talvez precisemos abordar as realidades da vida viral de um nível mais metafórico e ter algo para substituir o vírus. Porque, em geral, o vírus no horror representa outra coisa, uma metáfora para outros medos.

Então a pandemia muda os filmes pandêmicos porque aí os vírus não podem ser nada além de literais?

Você não pode interpretar o vírus como uma metáfora. É só realidade. Seria como interpretar o café da manhã como uma metáfora.

Possessor, um filme sobre corpos sendo infiltrados e forçados a se matar, é uma metáfora para nossa democracia?

Com certeza. Se você olhar para a interferência russa nas eleições dos Estados Unidos, vai ver que agora todos somos realmente hackeáveis. Estamos todos abertos a uma influência invisível de uma forma que anteriormente teria soado como uma teoria da conspiração, mas agora soa como verdade aberta. Os vazamentos de Snowden aconteceram no início do desenvolvimento do roteiro. Esta foi a raiz de grande parte da sátira da tecnologia [em Possessor], mas depois se tornou algo mais relacionado ao controle comportamental. É o nosso próximo grande problema: as formas mais invisíveis com que a tecnologia está moldando a sociedade por meio das redes sociais.

É por isso que você não está nas redes sociais?

Não gosto do panorama psicológico das redes sociais. Eu não gosto de quem eu sou, e não gosto de quem meus amigos são. Acho que nas redes sociais essas pessoas que eu amo de verdade ficam completamente estranhas. Por causa da pressão dessa estrutura de comunicação.

Sua personagem principal, Tasya Vos (assustadoramente interpretada por Andrea Riseborough), é uma assassina que parece muito mais confortável na pele de outras pessoas do que na sua própria pele.

O filme veio de um lugar muito pessoal. Estou muito interessado na maneira como estamos sempre fazendo uma performance para nós mesmos e na relação entre essa performance e nossa autopercepção. E o filme está enraizado na minha própria exploração trivial dessas coisas, momentos em que me sinto desconectado da minha vida ou obrigado a interpretar um personagem, que eu acho que são experiências comuns, mas dizem muito sobre o que significa ser uma pessoa.

Vos, uma mulher branca, entra nos corpos de uma mulher negra e de um homem branco. Por que esses corpos?

Numa primeira versão, Vos era um homem. Eu estava respondendo às minhas experiências padronizadas para um personagem masculino. A mudança teve alguns motivos. Eu já tinha feito um protagonista masculino [em Antiviral], e todos nós vimos filmes sobre maridos que viram muita coisa no trabalho para conseguirem se relacionar com a família. Nós vimos Guerra ao Terror. Esse contraste entre os corpos era mais interessante. De repente, você está explorando a ideia de gênero. É inerentemente mais interessante quando ela tem um pênis.

Você disse que as entrevistas da turnê de imprensa de seu primeiro filme inspiraram este segundo.

Quando você está viajando com um filme pela primeira vez, é incrivelmente surreal. Você está construindo essa persona e fazendo uma performance com essa versão de si mesmo, e ela vira um eu midiático que tem uma vida própria, sem você.

Qual é a relação entre você que está falando comigo agora e você de verdade?

A entrevista é uma interação incrivelmente artificial e esquisita. Eu não ligo muito para entrevistas, mas obviamente nenhum de nós está se comportando como pessoa agora. Não estaríamos falando assim se nos encontrássemos num bar. Estamos fazendo uma performance de nós mesmos. Por outro lado, não acredito que debaixo da superfície a gente consiga chegar ao ponto em que realmente somos quem somos. Existe uma performance interna que realizamos no dia-a-dia e uma performance para as outras pessoas. Nenhuma delas é verdadeira. É tudo uma performance, uma representação de si mesmo.

Se a vida é performance, representação de si, isso significa que a questão é menos procurar quem você é e mais descobrir o personagem em que se encaixa?

Acho que sim. Acho que estamos nos construindo constantemente, e a questão é: a pessoa que somos reflexivamente pode estar fora de sincronia com nossa autopercepção – e a pessoa que somos é definida por nosso ambiente e por forças externas.

Você cresceu no mundo dos filmes. Você acha que estar perto dos sets de seu pai quando criança influenciou seu trabalho?

Estar perto dos sets desmistifica o processo de filmagem. Na escola de cinema, as pessoas que não tiveram essa experiência achavam os sets meio mágicos. Mas, quando você está lá, é um negócio muito chato. Até certo ponto, eu absorvi isso.

As críticas a 'Possessor' fizeram muitas comparações com os filmes de seu pai. Você concorda?

Sempre me perguntam isso, e a verdade é a seguinte: estou fazendo filmes que são interessantes para mim e honestos com meus próprios impulsos criativos. Antes de entrar no cinema, uma das coisas que tentei fazer foi ser artista visual – e ouvi muitas comparações com meu pai. Acho que as pessoas gostam de ver esses padrões, e é uma coisa da qual você não consegue escapar. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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